Queimadas no Pantanal: do resgate de animais feridos às perguntas sobre o futuro do bioma

Reportagem esteve no local e acompanhou o trabalho de quem está na linha de frente

(Foto: André Souza/O Livre)

Uma placa dá as boas-vindas: “Aqui começa o Pantanal de Mato Grosso”. No Brasil, cerca 65% do bioma fica em Mato Grosso do Sul. A outra porção está em Mato Grosso. É no município de Poconé – a pouco mais de 100 km de Cuiabá – que o Parque Nacional do Pantanal Mato-grossense está situado. A unidade é cortada pela Transpantaneira, estrada de terra com quase 150 km de extensão.

No sábado (19), uma comitiva formada por deputados, senadores e políticos percorreu a rodovia e sobrevoou parte da área. O grupo tinha entre os integrantes jornalistas que foram convidados para acompanhar  a agenda.

Seguimos em um ônibus do Corpo de Bombeiros pela estrada, enquanto a comitiva oficial segue em caminhonetes e carros próprios.

Apesar da biodiversidade e beleza do Pantanal, a visita não tinha motivo de lazer ou de turismo. Por outro lado, o grupo visitou a região no pior cenário de queimadas em 22 anos. Isso porque, até agora, o fogo consumiu 20% do Pantanal brasileiro. Isso significa dizer que quase três milhões de hectares de vegetação já foram atingidos pelas queimadas. Antes disso, o pior cenário havia sido registrado em 1998.

(Foto: André Souza/O Livre)

Portão de entrada para o Pantanal, Poconé é o município do Estado com o maior número de focos de calor durante o período proibitivo deste ano: são 3.557 entre 1º de julho e 16 de setembro.

Com os focos de incêndio, o ‘portal’ é usado agora como base para acolhimento de animais que fogem das chamas. O Posto de Atendimento a Animais Silvestres (PAEAS) fica no KM 17 da Transpantaneira e é o primeiro ponto de parada da comitiva.

Enquanto políticos são assediados com as perguntas de praxe, a médica veterinária Karen Ramos Ribeiro monitora o trabalho e fica preparada para um chamado que pode vir a qualquer momento. A jovem tem os olhos marejados de sono, que denunciam a rotina de pouco descanso e muito trabalho. Desde o dia 30 de agosto no posto de acolhimento dos animais feridos não há hora para o trabalho. Também não há prazo para ela deixar o local: “Só saio quando a chuva começar”, explica.

(Foto: André Souza/O Livre)

Karen lidera uma equipe que faz varredura em áreas recém-queimadas a procura de animais feridos para resgatá-los e mortos para as futuras pesquisas. A ronda também é feita ao longo da Transpantaneira e em pousadas, quando a equipe recebe ligações de empreendimentos desse tipo.

O grupo de voluntários já recebeu, por exemplo, veados, tuiuiús, iguanas, antas, jaguatiricas, jabutis, onças, queixadas, filhotes órfãos e aves atropeladas na estrada. Em casos graves (como de cirurgias) os animais são encaminhados para instituições parceiras em outros Estados.

Além do resgate, a equipe distribui frutas e alimentos para os animais que sobreviveram ao fogo em pontos estratégicos. No posto, os ingredientes são recebidas e selecionadas por reeducandos do sistema penitenciário. Pelo menos três toneladas de melancia, laranja, repolho, mamão e banana já passaram por ali. Todo material vem de doações.

Durante a conversa, a veterinária recebe um chamado e interrompe o relato. Ela precisa se deslocar até Nossa Senhora do Livramento – município vizinho – para um resgate.

De volta à estrada

Também seguimos viagem. O próximo ponto de parada é o Hotel Fazenda Mato Grosso, às margens do Rio Pixaim. No local, a comitiva de políticos conversaria mais tarde com pecuaristas e pantaneiros.

Ao longo da estrada, não vejo nenhum animal morto. Dos que vejo, alguns parecem que tentam sobreviver. Nas áreas geralmente alagadas durante a época chuvosa alguns jacarés e capivaras esperam a chuva; ou mesmo a morte. Se soubessem de religião, certamente apelariam para São Francisco. No cristianismo católico, o santo é tido como protetor dos animais e padroeiro da ecologia.

Alguns aparecem assustados perto de comedouros instalados na beira da estrada. A exemplo de um quati, que ouve o barulho do ônibus e permanece intacto até a passagem do veículo. Ele é um dos sobreviventes em busca de comida e água.

No caminho, é de se perder a conta o número de pontes de concreto que atravessamos. As estruturas são herança da época da cheia. Sem água, todavia, elas só fazem aumentar a saudade da chuva.

Dos animais de criação, o gado parece desacreditado. Alguns procuram comida na pastagem seca que não foi atingida pelo fogo, enquanto outros procuram abrigo do sol nas poucas sombras. Pela manhã, o sol tem um brilho perolado causado pela fumaça. Ao meio-dia, um tom ‘alaranjado distópico’ assume o posto.

‘Fome cinzenta’

É quase hora do almoço quando chegamos ao destino. Liderada pelo senador Wellington Fagundes (PL), a comitiva se organiza para a reunião. “Queremos ouvir o que vocês têm a falar, conhecer a experiência de cada um: proprietários rurais, comunidades tradicionais, organizações não governamentais, voluntários, e tirar sugestões do que pode e precisa ser feito para evitar essa situação”, declara.

Mais uma vez o discurso de parlamentares e congressistas é o centro das atenções. Ao lado, na fila para entrar no restaurante aguardam a médica veterinária Carla Sássi, do Grupo de Resgate de Animais em Desastre, o GRAD, e parte da equipe de voluntários como ela.

O trabalho já passou da fase crítica, de acordo com o grupo. A fase do resgate é chamada ‘fome cinzenta’, período em que os animais não encontram água e alimento. “É uma luta contra o tempo ao longo da Transpantaneira para que os sobreviventes tenham fonte de água e alimento”, explica.

 

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Carla deixa a fila no restaurante para relatar a experiência dela. A veterinária não tem pressa para matar a própria fome. A principal preocupação é que uma nova expedição sai em breve: “Tenho que levar comida aos animais”, adverte.

Os animais parecem ter sido encurralados pelo fogo, sem rota de fuga. Os que não morreram queimados agonizam de fome e sede. “Até a migração deles é complicada: não tem para onde ir! Conseguimos mapear pequenos poços de água, mas com distâncias de 15 km e 20 km entre um e outro”, conta.

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Há duas semanas em Mato Grosso, o cenário que o GRAD encontrou é descrito pela veterinária como aterrorizante. A equipe já trabalha há 10 anos em desastres ambientais. Pela proporção e dificuldade de logística, porém, a experiência no Pantanal é uma das piores”, diz Carla.

Ela e o grupo fazem a distribuição de alimento e bebida ao longo da Transpantaneira. São 72 pontos georreferenciados ao longo da estrada. A equipe tem apenas uma caminhonete que percorre 30 km para encher os recipientes com água.

E o futuro do Pantanal?

A professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Christine Strussmann, diz que o Pantanal é a primeira casa dela no Estado. Em 1985, ao pousar em um avião ela foi direto para a Transpantaneira. Hoje o trabalho dela é visitar a área afetada pelo fogo e procurar carcaças de animais. Os dados coletados servirão para estudos científicos que revelarão as perdas e apontarão o futuro do Pantanal.

Em números gerais, o Pantanal tem cerca de 2 mil espécies de plantas, 580 de aves,  280 de peixes, 174 de mamíferos, 131 de répteis e 57 de anfíbios. O número de invertebrados é desconhecido. O bioma também é refúgio para espécies ameaçadas de extinção que vivem em outras regiões.

(Foto: Rogério Florentino/Greenpeace)

O projeto Bichos do Pantanal estima que entre 30% e 35% das espécies de flora e cerca de 20% de mamíferos foram atingidos pelos atuais incêndios, com base em levantamentos anteriores.

Os estudos após os incêndios devem comparar o antes e o depois do bioma. Ainda não há estimativa numérica da perda. Algumas regiões, entretanto, dão ao estudiosos um pouco mais de preocupação pela falta de dados. É o caso do Parque Encontro das Águas, tido como santuário das onças no Brasil, que teve 85% da área queimada. “Tinha-se pouquíssima informação sobre esse parque”, lamenta.

Paulo André da Silva Barroso, coronel do Corpo de Bombeiros, alerta que as consequências no pós-desastre ainda podem ser maiores. Isso porque, muitos animais ainda devem morrer. A projeção leva em consideração o período chuvoso. Com a volta da água, as cinzas devem ser escoadas para dentro dos rios, atingindo os peixes. Por consequência, os animais que se alimentam deles também podem padecer. “É uma segunda fase do desastre”, diz.

Apesar da perda imensurável, Strussmann acredita que exista um sopro de vida. Mesmo nesse trabalho de procurar animais mortos, é possível ver um sopro de vida. “Alguns organismos ficam esperando o mínimo do sistema voltar para dar continuidade”, diz a professora, citando insetos que fazem a polinização nas florestas.

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