Queimadas no Pantanal: do uso sustentável do fogo ao prejuízo dos pecuaristas

Reportagem entrevistou pecuaristas sobre os prejuízos com as queimadas. Grupo se reuniu com políticos para cobrar ações

(Foto: André Souza/O Livre)

O fogo no Pantanal é tão antigo quanto o próprio bioma, fazem questão de lembrar os pecuaristas pantaneiros. O uso controlado, chamado ‘fogo frio’, geralmente é feito após as primeiras chuvas, como explica Osíris Pereira de Arruda, gerente de uma fazenda.

Osíris e os vizinhos de porteira se encontraram, no sábado (19), com uma comitiva formada por deputados e senadores. Eles percorreram a Transpantaneira e sobrevoaram o Pantanal em chamas. A ideia foi fazer um reconhecimento da perda e cobrar ações dos executivos federal e estadual.

Na reunião, Osíris – que na mitologia grega representa o deus do julgamento – advoga pelos pecuaristas. Ele usa o argumento do uso fora de hora do fogo. Não arrisca dizer quem iniciou os focos e joga para instâncias superiores: “Só Deus sabe quem colocou esse fogo antes”, diz.

Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), esse é um dos mecanismos mais utilizados para o manejo da vegetação, tanto na agricultura, quando na agropecuária. O objetivo da queimada controlada é geralmente renovar o pasto. Ela é usada geralmente entre agosto e setembro, período de seca. A instituição, contudo, alerta: “toda queima, porém, precisa de autorização do órgão competente”.

(Foto: André Souza/O Livre)

Osíris também usa a falta da chuva como justificativa. E ele tem certa razão. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe, o aumento nos números tem, sim, ligação com a estiagem. Entre janeiro e maio, o volume ficou 50% abaixo do esperado para a época do ano. Até o gado no caminho parece desacreditado.

A súplica pantaneira é justamente o oposto da cearense, presente na música do compositor Gordurinha, lançada na década de 60. A canção narra o desespero de um nordestino que pegue a volta do sol após uma temperada de chuvas acima da média. O homem pantaneiro pede chuva com urgência.

Nem sempre é assim

Até o onde o olho vê, são poucos os pontos verdes que despontam na paleta de cores puxada para o cinza da fumaça e para os tons terrosos da poeira. João Gahyva, outro pecuaristas presente, lembra que nem sempre é assim. “Na época da chuva isso aqui vira um mar”.

(Foto: André Souza/O Livre)

No hotel onde a comitiva de políticos reuniu os setores afetados pelo fogo, tem nas paredes duas fotografias emolduradas e pregadas. Elas mostram uma fazenda da região na época da cheia. O cenário é outro. O verde e água dominam a paisagem.

Gahyva também sai em defesa do setor e diz que os valores estão invertidos: “O pecuarista não é vilão, é vítima. Somos os mais lesados”, vocifera. A história do Pantanal, lembra ele, passa pelo homem pantaneiro.

O produtor afirma que a família dele ocupa a região há gerações. “Meu tataravô chegou aqui antes do Brasil se chamar Brasil”, alega. Da árvore genealógica, ele tira a máxima de que o importante em qualquer bioma não é só a natureza, mas também o homem. A crítica é ao antropismo.

(Foto: André Souza/O Livre)

Segundo ele, o desastre no Pantanal poderia ser maior ao ter que contabilizar mortes humanas. “Aqui não morreu ninguém, como na Austrália. Agora ficam fazendo oba-oba porque uma onça queimou a patinha. Ninguém vai mostrar a miséria e dificuldade nos bolsões de miséria em São Paulo e no Rio de Janeiro. Agora porque bichinho morreu quer fazer teatrinho”, declara.

Os argumentos defendem que o governo deve investir no setor para gerar renda e emprego. Para eles, os produtores estão descapitalizados. Com aportes do governo o produtor aposta que parte das queimadas no Pantanal teria sido evitada. “Falta boi”, afirma.

Contabilizando o prejuízo

Quem contabiliza os prejuízos é o pecuarista Ricardo Arruda. Uma das propriedades dele teve mais de 80% da área total queimada. Segundo ele, o fogo destruiu, além de pastagem nativa, a parte de reserva legal dentro da fazenda de 9 mil hectares. A conta estrago incluiu cercas, bebedouros, curral para manejo. Tudo foi queimado.

O deslocamento do gado, antes alojado no Pantanal, para outra propriedade também entra no cálculo.

(Arquivo Pessoal)

Ricardo diz que desmobilizou parte do rebanho para outra fazenda. O normal, segundo ele, é o movimento contrário. Por isso, se desfazer de alguns dos animais ainda é uma possibilidade. Tudo ainda é uma incerteza: a tabulação do prejuízo ainda não acabou. “O maior prejuízo, claro, é para o meio ambiente”, afirma, lamentando também o rombo financeiro.

O pecuarista acredita que a sustentabilidade do Pantanal deve se basear no tripé econômico, ecológico e social. Afirma também que as queimadas não têm ligação direta com a pecuária.

Um estudo da ONG Instituto Centro de Vida (ICV) identificou, porém, que as queimadas começaram em cinco propriedades. A constatação foi feita com base em análise de dados do Inpe. Os imóveis estão cadastrados no Cadastro Ambiental Rural (CAR). A forma como o fogo começou não é descrita.

O que fazer então?

A professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Christine Strussmann, acredita que as duas forças envolvidas na briga (ecologistas e pecuaristas) não são antagônicas. Em 1985, quando ela chegou para estudar o Pantanal, a visão de conservação de forma intocada predominava. Ao longo do tempo as próprias pesquisas mostraram a necessidade da atividade para a manutenção do regime hídrico.

Strussmann adverte, porém, que as realidades do Pantanal são outras. É preciso sempre cautela. “Até de um ano para o outro o Pantanal é diferente”.

(Foto: Jeferson Prado)

Em um documento que analisa o uso do fogo para manejo no Pantanal publicado em junho (pouco antes do início dos focos) aponta possíveis soluções. A sugestão é que planos sejam definidos nas fazendas em áreas, fazendo com que o gado tenha acesso às áreas queimadas e não queimada. A ideia é que assim se possa prevenir a formação de combustível pelo menos um ano após a queima.

Caso contrário, o fogo pode ultrapassar os limites de rios, estradas e aceiros com facilidade em condições de forte vento, alta temperatura e baixa umidade relativa do ar e grande biomassa vegetal.

As perdas são para a biodiversidade, ao patrimônio e à saúde humana. Em Poconé, algumas áreas atingidas pelo fogo chegaram a atingir 600ºC, segundo a professora da UFMT. A alta temperatura pode destruir completamente as estruturas de todos os compostos vivos presentes ali.

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