Queimadas no Pantanal: incêndios devastam turismo e sua principal atração, a onça pintada

Em meio ao cenário apocalíptico, proprietários de pousadas não sabem quando poderão voltar a operar "normalmente"

(Foto: André Souza/O Livre)

A pandemia já havia afetado negativamente o turismo no Pantanal Mato-grossense antes das queimadas, que transformaram o cenário em algo muito próximo ao apocalíptico. Não há mais o que se ver na natureza e os hoteis e pousadas não se cansam de registrar cancelamentos e adiamentos de diárias.

Ainda avaliando os estragos causados pelo fogo, os empresários não conseguem estimar quando atingirão um faturamento similar ao registrado há 2 anos, quando a região de Porto Jofre- que fica no fim da Transpantaneira e está dentro dos limites do município de Poconé, no Pantanal – deleitava-se com a expansão do setor.

Naquele momento,  foram movimentados quase 7 milhões de dólares com o turismo. O montante vale cerca de R$ 38 milhões na conversão atual, sem considerar a inflação. Na época, o setor estava em franca expansão. Em 2020, considerando a pandemia de covid-19 e os incêndios florestais, a perspectiva não é das melhores.

O coronavírus já havia derrubado os números do turismo não só no Pantanal, mas em todo o Brasil. Dependente da circulação, o setor deixou de operar nos primeiros seis meses de 2020. A queda nesse período foi de 90%, segundo o Sindicato das Empresas do Turismo de Mato Grosso (Sindetur-MT).

Reflexo da suspensão nas atividades de hotéis e companhias aéreas, o cenário já era considerado um desastre. O pior, contudo, ainda estava por vir. Quando os empresários notavam “um bom movimento” e a “normalização”, o Pantanal ardeu em chamas.

As expressões são do empresário Diego Nunes Rondon, que tem pousadas ao longo da Transpantaneira. Dono de duas propriedades, ele viu uma delas ter 300 hectares queimados pelo fogo, cerca de 80% do total da área. O empresário ainda não estima o prejuízo financeiro que teve. Ele diz que “ainda é cedo”.

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O esforço para manter a visitação é hercúleo e diminuir os preços das diárias pela metade. Antes da pandemia, cada pessoa pagava R$ 1,2 mil por dia. Após a retomada, o preço caiu para R$ 600. Abaixar para, além disso, “é impossível e inviabiliza a manutenção do empreendimento”, explica.

Diego ainda não parou para contabilizar as perdas. Sem visitantes, ele recebe em uma das pousadas cerca de 30 voluntários que ajudam no resgate de animais e no combate ao fogo no bioma. A estimativa da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico (Sedec), contudo, é que a situação das queimadas possa impactar o trade turístico pantaneiro em mais de R$ 10 milhões.

Pelo menos 40 pousadas e hotéis e 18 barcos hotéis em três cidades (Cáceres, Barão de Melgaço, Poconé) e na Rodovia Transpantaneira tiveram as solicitações de reserva afetadas.

Das reservas que já estavam feitas, Diego está remarcando grande parte para 2021. A partir de outubro, na baixa temporada, a pousada dele quase não recebe turistas. Com isso, a expectativa para o próximo ano não é nada animadora.

Já vamos entrar o ano novo no vermelho e receber visitantes que já pagaram. Vai ser um grande desafio para os empresários”, afirma.

(Foto: Marcelo Barabani/ Estadão)

Principal atração

Mato-grossense. Dentro da área, elas se refugiam no Parque Estadual Encontro das Águas, na região de Porto Jofre. É nessa região que os rios Cuiabá e Piquiri dão as mãos. O melhor período para observar a onça é entre julho e final de setembro, período da seca. Nesses meses as onças ficam mais próximas das margens dos rios em busca de água e caça. Além da seca, elas foram surpreendidas esse ano com o fogo.

O animal que está no topo da cadeia alimentar do Pantanal, reina no bioma. As onças, todavia, estão correndo perigo. O local, tido como santuário da espécie, teve quase 100% da área queimada.

Os incêndios destruíram 92 mil hectares do parque, que tem 108 mil hectares no total, e é considerado o lugar com a maior concentração de onças-pintadas do mundo. Das mais de 170 mil onças-pintadas em todo o globo, 86 mil vivem no Brasil.

Imagem feita pelo governo de Mato Grosso no dia 12 de setembro (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT)

A área é uma das que mais preocupa os cientistas, que coletam dados para estudos que devem comparar o antes e o depois do bioma. No caso do parque, entretanto, há falta de dados. “Tinha-se pouquíssima informação sobre esse parque”, lamenta a professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Christine Strussmann.

Em números gerais, o Pantanal tem cerca de 2 mil espécies de plantas, 580 de aves,  280 de peixes, 174 de mamíferos, 131 de répteis e 57 de anfíbios. O número de invertebrados é desconhecido. O bioma também é refúgio para espécies ameaçadas de extinção que vivem em outras regiões.

O projeto Bichos do Pantanal estima que entre 30% e 35% das espécies de flora e cerca de 20% de mamíferos foram atingidos pelos atuais incêndios, com base em levantamentos anteriores.

Comitiva no Pantanal

No sábado (19), uma comitiva formada por deputados e senadores percorreu a rodovia e sobrevoou parte da área. O grupo foi acompanhado por jornalistas convidados para acompanhar a agenda.

No hotel onde a comitiva de políticos reuniu os setores afetados pelo fogo, um banco no formato de onça também parece atração turística. Em uma das paredes duas fotografias emolduradas e pregadas mostram uma fazenda na época da cheia. Num clima apocalíptico, a sensação é de que o banco e as fotos dão de que o bicho e natureza pertencem a um passado mais distante do que o normal.

Ainda não há uma estimativa de quantos animais – onças e outras espécies – morreram queimados ou fugindo do fogo. Mas a preocupação, segundo a médica veterinária Karen Ramos Ribeiro, não deve ser voltada somente para as onças que movimentam o turismo no Estado.

“As onças têm mais mobilidade, se for pensar no parque elas conseguem pular o rio, nadar. Temos que pensar nos animais menores: um quati que não conseguiu fugir e ficou preso numa árvore, um ouriço. As onças são afetadas sim, mas, a extensão de uma lesão na pata de uma, por exemplo, é diferente na lesão de um roedor”, cita.

Para o coronel do Corpo de Bombeiros, Paulo André da Silva Barroso, as consequências no pós-desastre ainda podem ser maiores. Isso porque, muitos animais ainda devem morrer. A projeção leva em consideração o período chuvoso.

Com a volta da água, as cinzas devem ser escoadas para dentro dos rios, atingindo os peixes. Por consequência, os animais que se alimentam deles também podem padecer. “É uma segunda fase do desastre”, diz.

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