Faltam exames e remédios: a realidade do “outubro rosa” na rede pública de saúde

Fazer o acompanhamento básico para prevenir casos de câncer está bem além do alcance de mulheres e médicos cuiabanos

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Fazer um exame periódico na rede pública de Cuiabá é uma grande luta para as mulheres. Em pleno Outubro Rosa, em que a saúde feminina é colocada no palco principal, não se encontra atendimento básico. E esse cenário não é novo, resultante da pandemia da covid-19, mas recorrente.

Há 6 anos, Rosimeire Alves, de 56 anos, apresentou um sangramento e buscou atendimento médico. A orientação foi para realizar um exame na tentativa de descobrir a causa daquele problema. A biópsia foi feita e o resultado foi inconclusivo.

Os atendimentos médicos no Posto de Saúde da Família, do bairro Pedregal, passaram a ser ainda mais constantes na tentativa de controlar a hemorragia. O exame preventivo não tem com ser feito ali. Não há material disponível, não apenas agora, mas desde sempre, ela conta.

“Para onde vai o nosso dinheiro que não tem vindo para a saúde?”, questiona.

Um novo direcionamento médico indicou que Rosimeire deveria passar por uma cirurgia de retirada do útero. Há um ano e meio ela espera pelo procedimento.

Em fevereiro, tentou fazer o papanicolau novamente no posto perto de casa. Mais uma vez, não foi possível. A averiguação foi feita na rede particular, depois que a patroa de Rosimeire arcou com a despesa.

“Essa demora é um absurdo, se for algo grave está evoluindo. Eu tenho medo de morrer com essa doença sem nem descobrir o que é”, ela diz.

Em frente ao PSF Pedregal, Rosimeire Alves segura o pedido de cirurgia (Foto: Natália Araújo / O LIVRE)

Demora

Hoje, com o filho de um ano no colo, Nayara Cristina Silva de Almeida, de 25 anos, lembra que durante a gravidez realizou uma ultrassom.

“Demorou tanto o resultado que quando a moça me ligou eu disse que meu filho até já tinha nascido. É um descaso isso que é feito com a gente”, critica.

Há 30 dias a jovem está com dores na parte de baixo da barriga acompanhadas de um sangramento. Mas o remédio Nayara pode tomar porque não havia disponível nas unidades de saúde.

“Até mesmo dipirona! E isso acontece em Policlínica, Unidade de Pronto Atendimento, PSF. Esses dias atrás, na Policlínica do Coxipó me falaram que não tinha como fazer a medicação porque não tinha seringa”, diz indignada.

Nayara diz que há um ano não consegue fazer o acompanhamento médico periódico e agora com o sangramento fica ainda mais apreensiva.

“Minha família e eu estamos com muito medo que eu esteja doente. Tenho predisposição ao câncer de mama e do colo do útero. Minha avó, minha mãe e uma tia tiveram e eu fico desesperada”, afirma a jovem que é mãe ainda de um menino de 9 anos.

Reclamação formal

O cenário da saúde pública em Cuiabá foi discutido na quinta-feira (14), na Câmara de Cuiabá. A médica Eliana Siqueira elencou esses problemas com os exames relacionados à saúde da mulher e também à falta de insumos e medicamentos na rede, tanto de atenção primária quanto terciária.

Eliana, que integra o Fórum Permanente de Saúde, afirmou que há mais de um ano os postos não têm os materiais necessários para os exames das mulheres. Somente há alguns dias chegaram pouco mais de 40 kits para o exame papanicolau na unidade em que ela atua.

No que tange à mamografia, não há material para fazer biópsia, nem para onde encaminhar esses pacientes.

“Nesses casos damos a notícia e dizemos para tentar a rede particular, onde o exame custa em torno de R$ 400”, relatou Eliana. “Perdi recentemente uma paciente de 33 anos para o câncer de mama”, contou.

Eliana Siqueira conta que perdeu uma paciente de 33 anos para o câncer de mama (Foto: Agência Brasil)

A médica relatou ainda que apenas 20% dos produtos listados na Relação Municipal de Medicamentos Essenciais (Remume) estão disponíveis.

“Dentre os faltosos está a dipirona, tanto em comprimido quanto em gotas. Faltam também medicamentos essenciais para pressão arterial, tratamento de Infecções Sexualmente Transmissíveis, remédios para gestantes, como por exemplo, ácido fólico”, indicou.

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O Fórum pontuou que, desde o início da pandemia da covid-19, falta xarope para tosse e já não há mais azitromicina. “Não há soro para reidratar o paciente, não há dipirona para aplicar na veia”, complementou Eliana.

A vereadora Edna Sampaio (PT) cobrou um posicionamento da Câmara sobre o assunto. “Peço que cobremos mais do poder público e destine a nossa ação parlamentar para que os postos de saúde tenham os devidos atendimentos”, disse.

Em agosto deste ano, a vereadora Michelly Alencar (DEM) também trouxe o tema para discussão, depois de visitar várias unidades e constatar a falta de realização dos exames.

O que diz a Prefeitura?

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre )

A Secretaria Municipal de Saúde informou que, conforme orientações do próprio Ministério da Saúde, os atendimentos eletivos ficaram suspensos ao longo da pandemia de covid-19. A medida foi adotada para evitar o colapso da rede de saúde e a contaminação pelo coronavírus nas unidades, além de concentrar esforços no combate ao vírus.

A Pasta afirma que ainda que, mesmo assim, foram realizados, na rede de atenção primária, 5.531 exames de papanicolau em 2020 e 1.152 entre janeiro e julho deste ano.

A demanda represada, argumentou o poder público, depende da procura nos postos e não seria possível estimar quanto está represado.

Neste mês, na campanha Outubro Rosa, os atendimentos estão sendo retomados e a Secretaria indicou que foram distribuídos mais de 5 mil kits de coleta para as unidades básicas de saúde.

A Pasta sustenta também que está sendo feito um mutirão com a carreta Saúde da Mulher, no SESC Arsenal, em parceria com o SESC. A expectativa é de realizar cerca de 1 mil exames de mamografia e papanicolau agora em outubro.

Com relação aos medicamentos, a Secretária explicou que está em processo de reformulação da gestão de medicamentos e insumos. A responsabilidade de aquisição dos produtos será da Secretaria Adjunta de Gestão.

Por conta dessa transição, os processos que estavam em andamento tiveram que ser revistos e retomados, o que acarretou no desabastecimento de alguns medicamentos. A previsao é que nas próximas semanas o estoque esteja reabastecido.

A Secretaria destacou ainda que dispõe de canais para formalizações de reclamações, através da Ouvidoria, que atende pelos telefones 0800 645 7885 ou 3617-7329/7384, e também pelo e-mail [email protected], de segunda a sexta-feira, em horário comercial.

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