Você se sente representado? Negros e indígenas somaram menos 10% dos candidatos em MT

Neste ano uma nova regra pode (ou não) ajudar a equilibrar a balança: a proporcionalidade na divisão do dinheiro e do tempo para campanha

(Foto: Reprodução/Veja)

Antes de confirmar o voto na urna eletrônica, a foto do candidato ou candidata escolhido por cada eleitor aparece na tela. Pensando em questões socioeconômicas e raciais: essa imagem reflete a imagem de quem vota? Falta representatividade?

Dados do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) sugerem que sim.

Em 2016, nas eleições municipais, Mato Grosso somou 9.795 candidatos aos cargos eletivos naquele ano. Desse total, 4.105 eram brancos. O número representa quase metade de todo o contingente de políticos ou aspirantes.

Por outro lado, dados do Censo de 2010 apontam que, dos 3.035.122 de mato-grossenses, 1.820.597 se autodeclararam pretos e pardos, ou seja, 60% da população do Estado.

Mesmo sendo maioria entre a população, os negros não chegaram a 10% do total geral de candidatos na última eleição. Foram apenas 896 concorrentes em todo o Estado.

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Para a professora da UFMT Ana Luísa Cordeiro, ligada ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (Nepre), a fatia extremamente pequena de representantes reflete a desigualdade socieconômica e racial no Brasil.

“É muito sério quando o indivíduo olha para espaços de poder, como o da política, e não se vê projetado, representado. Isso significar que contamos com poucos aliados na pauta antirracista. Não há como pensar o desenvolvimento social deixando metade das pessoas de fora“, afirma.

A falta de representatividade afeta também a população indígena. Em 2016, apenas 70 índios tentaram os cargos eletivos municipais. A população indígena em Mato Grosso é estimada em 50 mil pessoas.

Os percentuais caem ainda mais quando o número de eleitos é analisado: os pretos foram 112, ou 6,6%; indígenas apenas 8, o que representa 0,47%.

Só em Mato Grosso?

A falta de representatividade não é exclusividade de Mato Grosso. No Brasil, dos eleitos em 2016, apenas 29% dos candidatos prefeitos eram autodeclarados negros. O mesmo ocorreu para o cargo de vereador: 42,07% negros e 57,13% brancos.

A proporção também tende a se repetir na política estadual. Dos parlamentares que atualmente ocupam uma cadeira no Legislativo de Mato Grosso, nenhum se declarou como preto ou pardo nas eleições de 2018.

Para Ana Luisa, contudo, não basta o número crescer e a balança virar. É preciso que os candidatos e eleitos trabalhem com a mesma perspectiva democrática.

“É preciso ocupar esses espaços, mas também porque o partido acredita na pauta. “Quando uma criança, a juventude negra olha e se vê representado nesses espaços de poder, eles passam a acreditar que é possível”, explica.

Depois da eleição

Um estudo feito em 2017 pelo cientista social formado pela Universidade de São Paulo (USP), Osmar Teixeira Gaspar, retrata a situação da Assembleia Legislativa e da Câmara Municipal paulistas em relação à representatividade negra em cargos políticos.

De acordo com o pesquisador, os candidatos negros que se elegem possuem grandes dificuldades para seguir em frente com a campanha. Entre as razões, estaria o fato de a maioria possuir escolaridade baixa e pouca estrutura financeira.

Além disso, a ausência de representantes políticos negros acaba por se naturalizar. Políticas públicas são votadas e atingem significativamente uma minoria sem ao menos que um representante da mesma esteja presente.

Cota financeira

O assunto ganhou destaque quando o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, determinou que a cota financeira para candidatos negros seja aplicada ainda nas eleições municipais deste ano.

A decisão de Lewandowski ainda precisa ser analisada pelo pleno do STF. Em linhas gerais, no entanto, prevê que o partidos serão obrigados a repartir de maneira proporcional à quantidade de candidatos negros as verbas do fundo eleitoral e o tempo de propaganda gratuita no rádio e na televisão.

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