|domingo, 19 agosto 2018

    Sem GPS

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    Lembro de um texto que li uma vez que dizia: “Sou capaz de me perder na avenida Paulista”. Fiquei com isso desde aquele momento, porque me soou familiar. E acrescento: sou capaz de me perder na estrada, na cidade ou se entro em uma rua errada e o quarteirão não é quadrado. Desligada que sou, saio um pouco do ar e já não sei onde estou. Não tenho noção de espaço e direção, e isso já me rendeu histórias. Como, por exemplo, quando entrei na contramão num estacionamento de um shopping ou, ainda, a primeira vez que fui para São Paulo dirigindo e quase fui parar na estrada que leva ao litoral.

    Tudo isso faz tempo, quando não havia sistema de navegação no carro ou no celular. Por isso, você deve imaginar como fiquei feliz quando inventaram o GPS. Eu me encontrei, literalmente. E deixei de me perder no meio do caminho.

    Pouco antes do aparelho ser lançado, eu havia me perdido nos Estados Unidos, com meus pais e filho no carro. Por uma saída errada, fomos parar em outro estado. Ali, foi o ápice da minha desorientação. Por sorte, no mês seguinte, lançaram o GPS.

    Desde que comecei a usá-lo, virei outra pessoa. Eu me sinto mais segura. Não só por chegar ao destino certo, mas pela precisão no horário de chegada. Não só não erro mais o caminho, mas também não me atraso.

    Pois esta semana, fiquei perdida novamente. Meu GPS parou de funcionar. E não há nada que o faça voltar.

    Justo na semana que precisava estar num endereço novo, numa cidade vizinha. Nem preciso dizer que foi um caos. Entrei em ruas erradas. Não havia sinalização. No fim, tive que pedir para uma alma generosa me guiar até o destino.

    Consegui chegar ao endereço do meu compromisso, mas toda essa história me fez pensar.

    Será que tudo isso é um sinal? Um alerta de que preciso definir meu caminho não nas estradas viárias, mas na vida? Será que tenho que ajustar meu GPS interno?

    E pensei: acho que algumas pessoas nascem sem uma bússola interna, sem senso de direção na alma. Não sabem ou não conseguem se orientar. Tentam uma rua, não percebem que era sem saída, acabam tendo que voltar para trás. E toda hora têm que começar do zero de novo, procurar outra via. Uma nova direção. Como se tivessem um GPS quebrado internamente. Estão sempre perdidas.

    Já outras, parecem ter noção exata de onde querem ir desde que nasceram. Não se equivocam, não escolhem o caminho errado. São, instintivamente, guiadas na direção perfeita. Não enfrentam transtornos nem entram na contramão.

    E conclui que, de verdade, quero apenas consertar meu GPS. Os dois.

     

    Assinatura Debora Nunes

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