Marília Cortez: “As escolas estão no século 19, os professores no 20 e os alunos são do 21”

No mês de volta às aulas, a professora de música Marília Cortez respondeu cinco perguntas que revelam desafios, curiosidades e vivências em sala de aula

“Sempre quis ensinar e trabalhar pela redução das desigualdades que já eram muitas nos meus tempos de faculdade. Quando entrei no curso superior de Serviço Social, aos 19 anos, os exilados da Ditadura Militar estavam voltando para o Brasil e a União Nacional dos Estudantes se reorganizando”.

Nesse contexto, Marília Cortez, 59 anos, já demostrava fascínio pela educação. Mas seu maior sonho era viver a vida como instrumentista.

O dom de Marília promoveu seu encontro com importantes movimentos e figuras da cultura mato-grossense, como o saudoso amigo multiartista Antônio Sodré. E para realizar seus anseios pelo o exercício da arte, ela se mudou para São Paulo pouco depois da primeira graduação. Desta vez, para estudar Música.

Como já “era muito tarde” para seguir carreira, Marília retornou a Cuiabá e decidiu que a melhor ideia seria unir suas duas grandes paixões: arte e educação. Aos 38 anos, se formou no curso de licenciatura em Educação Artística e passou a desenvolver projetos sociais nas redes municipal e estadual de ensino, criando, para além das barreiras institucionais, a Orquestra de Flautas Pizindim.

Desde então, dedicada à defesa da educação pública, a professora contribuiu não só com as conquistas de diretos da categoria, mas com a formação de muitos músicos e instrumentistas hoje já graduados na área. No início de mais um ano letivo, ela respondeu cinco perguntas que revelam desafios, curiosidades e vivências em sala de aula.

1. Os professores “de verdade” também ganham maçãs dos alunos no início da aula?

Eu nunca ganhei maça de aluno nesses dez anos de magistério. As vezes a gente ganha florzinhas que os pequenos pegam aqui e ali… Mas esse símbolo da maça, ao menos na minha realidade, nunca existiu.

2. Qual foi a situação mais inusitada que você já vivenciou lecionando?

A própria educação é muito inusitada. É incrível as coisas que a gente tem que fazer com pouca estrutura para manter a escola funcionando. Em época de chuva, por exemplo, você tem que mudar de sala toda hora, porque tem escolas com o teto caindo. Certa vez, cheguei para dar aula e queriam que eu ensinasse inglês. Eu disse que não, porque eu me formei em música e é isso que eu leciono, por mais que eu utilize inúmeras linguagens para trabalhar a arte com os alunos. Agora o novo lema é “climatizar para humanizar”, mas querem comprar ar condicionado sem que a fiação elétrica esteja funcionando direito?

3. Geralmente, as férias escolares são desafiadoras para os pais. O que os professores fazem nessa época?

Com certeza, os pais não sabem o que fazer com os filhos nesse período. Ficam loucos para trazê-los de volta para escola porque, realmente, não é fácil. As crianças passam a maior parte do dia na escola e, por isso, a gente acaba tendo mais contato com eles que os próprios os pais. Nas férias eu com certeza procuro descansar, porque o nosso trabalho é bastante árduo, nós não ficamos só “tomamos cafezinho” como alguns políticos dizem por aí.

4. É verdade que as crianças de hoje não são mais como as de antigamente? 

Claro, a cultura é mutável e as pessoas também. Hoje vivemos em um mundo totalmente tecnológico e visual, então o comportamento da criança na escola acompanha esse contexto. Existe uma história de que o jovem de hoje “não quer saber de nada”. Há indisciplina, sim, mas ela tem vários fatores. Eu acho que as escolas ainda estão no século 19, os professores no século 20 e os alunos são do século 21. Existe uma disparidade muito grande entre o modelo educacional e a geração atual. A gente ainda tenta amarrar nossas crianças em fileiras de carteiras e elas ficam o ano inteiro olhando a cabeça do outro.

Além disso, a gente tem que entender que as pessoas são diferentes umas das outras, mesmo que tenham a mesma idade. E isso tem que ser respeitado, cada um é de um jeito. Hoje os jovens só querem respeito e cabe a nós ouvi-los. Tem professor que diz que não dá aula para ser amigo do aluno, por exemplo. Mas eu acho que se você é amigo do seu aluno, 50% dos problemas já são resolvidos.

5. Se você pudesse mudar e manter só uma coisa no ensino público, o que seria?

Eu manteria a gratuidade do ensino público sempre universal. A educação deve ser para todos. Nem pobres e nem ricos deveriam pagar para estudar. Um dos pontos principais que eu com certeza mudaria é a desvalorização do professor. Gostaríamos de ser mais valorizados para que nos tornemos, de fato, um educador. Professor tem de monte, é como diz Rubem Alves. Ele compara professores aos eucaliptos e educadores aos jequitibás. Os eucaliptos são plantas fáceis de cultivar e acabam com a terra, já o jequitibá é uma árvore de raízes profundas.

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