5 perguntas para Leonard Farah, capitão do Corpo de Bombeiro de MG

Em Mariana, 19 vidas se perderam. Em Brumadinho, 270. Ele estava nos dois, pronto para ajudar quem sobreviveu

O experiente capitão do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, Leonard Farah, estava de férias em 25 de janeiro de 2019. Mesmo com o pé quebrado, a ideia era reunir a família para curtir um dia no clube. Com a barba por fazer, ele aproveitava cada segundo do tempo livre para curtir os filhos e a esposa Renata.

Na hora do almoço, Farah atendeu uma ligação do comandante e recebeu a notícia que chocou o Brasil e o mundo: uma gigantesca barragem da Vale, na Mina do Córrego do Feijão, havia se rompido no município de Brumadinho (MG).

Poucos minutos se passaram até o capitão reviver Mariana. Foi o tempo de raspar a barba, encontrar com a corporação no meio do caminho e chegar até um helicóptero para sobrevoar a região. “Não estou acreditando. De novo?”, questionava.

Ele, que já havia atuado em Mariana, em 2015, em uma situação semelhante, acabara de entender que a catástrofe humana ali seria ainda maior. Em Mariana, 19 vidas se perderam. Em Brumadinho, 270.

Para contar parte dessas experiências, Farah lançou o livro “Além da Lama” que traz um relato emocionante das primeiras horas do desastre em Mariana. Em um dos trechos, ele narra como foi colocar sua vida em risco para salvar moradores que ainda não sabiam que a lama estava a caminho. Esse foi o momento que, pela primeira vez, o capitão sentiu medo. O título pode ser adquirido nas principais livrarias do país ou pela internet.

No próximo dia 25, a tragédia de Brumadinho completa um ano. Segundo a Polícia Federal de Minas Gerais, as investigações devem ser concluídas a partir de junho deste ano. Confira a entrevista:

1 – Quando criança sonhava em ser bombeiro?

Farah – Quando era criança não tinha vontade de ser bombeiro. Queria ser médico, meu pai é médico. Foi meio um acaso. Eu queria fazer um concurso, ganhar grana e acabei entrando nos Bombeiros e me apaixonei. É uma profissão apaixonante, que exige muita dedicação física, psicológica e intelectual também. As provas são concorridas e difíceis, às vezes, mais difíceis que um vestibular. Então é preciso estudar muito e, principalmente, treinar bastante para os testes físicos que são muito exigentes.

2 – O que a sua esposa pensa sobre a profissão que escolheu?

Farah – Ela me apoia bastante, mas tem um receio muito grande. Ela me diz sempre: “pelo amor de Deus, bastante cuidado. Eu sei que você vai ajudar outras famílias, mas não esquece que você tem uma família. A gente precisa de você aqui”. Então, toda vez que vou para uma missão maior ela me lembra disso.

3 – Hoje você e sua equipe se tornaram ídolos de muitos brasileiros. Se especializaram no “impossível”. Mas quem são os teus ídolos?

Farah – Eu não tenho um ídolo fixo não. Eu idolatro as pessoas que com muito pouco fazem a diferença na vida de outras pessoas. A gente tem tantas pessoas ai no nosso país que não tem noção da diferença que elas fazem na vida de outras pessoas. Que fazem campanha de alimento, madrugada sem fome, campanha do agasalho, todas essas pequenas atitudes fazem uma diferença gigantesca na vida de outras pessoas. E eu costumo dizer que quem muda uma vida, muda o mundo. Muda o mundo daquela pessoa. Muda a perspectiva daquela pessoa. Então são essas pessoas que eu considero heróis. São pessoas que com muito pouco, conseguem fazer tanto.

4 – É impossível negar que depois de situações de extremo risco até os homens mais corajosos e destemidos comecem a repensar suas ações. O que mudou para o senhor como filho, pai, esposo e amigo?

Farah – Já tem um tempo que estou face to face com esses desastres, mas agora eu dou mais valor aos momentos que eu tenho com a minha família e tento aproveita-los mais, porque a vida é um sopro mesmo, a qualquer momento ela acaba e a gente não tem como aproveitar mais nada.

Capitão Farah curtindo os momentos com a família em Belo Horizonte, MG

5 – Qual foi a ocorrência mais inusitada que o senhor já atendeu?

Farah – As duas mais inusitadas foram a do Super Homem e a do motel. Um rapaz que estava fantasiado de Super Homem, com uma fantasia perfeita mesmo, bateu em um poste e machucou o braço. A outra ocorreu em um motel, o motel estava pegando fogo (literalmente), não no quarto, mas o motel estava pegando fogo e a gente teve que arrombar a porta para tirar um casal de lá.

EXTRA – O senhor já sentiu medo?

Farah – Eu já senti medo sim. Em Mariana, quando a gente pousou para tentar evacuar a cidade de Paracatu de Baixo, eu achei que não ia dar tempo. Na verdade, eu não senti medo de morrer, eu senti medo de não conseguir ajudar outras pessoas, de ficar impotente diante daquela situação. Eu senti muito medo nessa hora sim.

EXTRA – Qual foi a cena mais chocante que senhor presenciou em Brumadinho?

Farah – É difícil falar o que foi mais chocante, pois já tinha vivido situações semelhantes como Mariana e o caso da mineradora Herculano, em 2014. Infelizmente a gente estava acostumado com aquela imagem. Mas o que mais me chocou foi saber que aquilo aconteceu de novo. Que as pessoas não aprenderam com o primeiro erro. E uma das coisas que a gente viu em Mariana, a gente viu muitos destroços, muitas ruínas, e quando a gente não viu isso em Brumadinho, quando a gente não viu nada, absolutamente nada. Isso me chocou muito. Porque eu sabia que tinha sido muito pior do que foi Mariana. Tudo havia sido levado.

Dica do LIVRE: O livro Além da Lama traz um emocionante relato do capitão Farah

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigo anteriorProdutores e Governo discutem sobre a cobrança de autorização para atividade
Próximo artigoInvasão e propina em área nobre: regularização valoriza bairro de Cuiabá em 150%

O LIVRE ADS