“O Brasil precisa ter uma central de comunicação do agro estruturada e inteligente”, diz Tejon

José Luiz Tejon respondeu as Cinco Perguntas para o LIVRE; o doutor em educação falou sobre o acidente, protagonismo e o medo dos concorrentes em razão da potência do agro brasileiro

Filho biológico de uma refugiada no Brasil, José Luiz Tejon nasceu em 1952. Benigna, sua mãe, para o livrar da ditadura Franquista que imperava à época, fugiu ainda grávida do principado das Astúrias, na Espanha.

Em Santos (SP), não acompanhou o seu crescimento, já que ele foi adotado ainda em seu primeiro ano de vida pelo casal europeu, Antônio Alves, de Portugal e Rosalina Hoffmann, da Alemanha. Pais que lhe ensinaram as maiores lições da vida, as quais ele só compreendeu depois de ter completado seus 51 anos.

O início da vida dele já é bastante emblemático, não precisaria de muito para dar um bom livro ou roteiro de filme. Mas, o “destino” – como gosta de dizer – o levou para um caminho ainda mais singular. Um trágico acidente doméstico mudou completamente sua vida.

Uma mistura de cera com gasolina, em chamas, atingiu o seu rosto, o obrigando, entre idas e vindas, a ficar mais de uma década em hospitais. Tejon teve que passar por dezenas de cirurgias plásticas para amenizar as sequelas que desfiguraram o seu rosto.

Após o acidente, foi salvo pela música, graças a dona Helena que o ensinou seus primeiros acordes, o que lhe causou profunda transformação.

Como um bom colecionador e contador de histórias, as transmite ressaltando a importância das mudanças, do aprendizado e da superação. Para ele, “a arte de viver é tirar o maior bem do maior mal”, assim como a frase de Machado de Assis.

Hoje, aos 67 anos, Tejon viaja pelo mundo contando suas histórias e aprendizados. É escritor, jornalista, publicitário e doutor em educação. Além disso é mestre em Artes e História da Cultura, com especializações em Harvard, Pace University, MIT e Insead nas áreas de marketing, vendas, new mídia, agribusiness e liderança.

José Luiz Tejon, esteve em Cuiabá durante o 11º Encontro Técnico do Algodão, realizado pela Fundação MT, e palestrou sobre o poder da integração, tema do encontro.

Ao LIVRE, ele respondeu as Cinco Perguntas, falou sobre o dia do acidente, as pessoas que o inspiraram e o inspiram, e sobre o que o setor agropecuário brasileiro precisa para romper com afirmações negativas de países concorrentes e se tonar de vez o líder na produção mundial de alimentos. Confira!

1 – Quem te inspirou ou mais te inspira?

Tejon – Tive nos meus primeiros trabalhos, patrões, chefes e gerentes que sempre me deram caminhos, me inspirando e me aperfeiçoaram quando eu ainda era muito novo. Tinha 15 anos em meu primeiro emprego. Tive um patrão que orientava muito. Sempre tive sorte de estar em um lugar com pessoas muito boas.

Quando eu era pequeno, meu pai e minha mãe me ensinaram a prestar atenção em pessoas. Então, talvez eu também tenha esse dom de atrair gente. Ao longo da minha vida sempre tive pessoas muito positivas que me inspiravam, me aconselhavam e me abriam portas. Sempre foi e até hoje é.

Algumas muito marcantes, presidentes de empresas como o Nishimura com quem trabalhei na Jacto, Ney Bittencourt de Araújo da Agroceres, o professor Marcos Collor da Fundação Getúlio Vargas, seres humanos. Alguns em alto nível, em altas posições, mas também pessoas simples, como uma enfermeira de um hospital. Tive uma que me foi muito rica quando eu tinha uns 13 anos. Essas pessoas estão por aí no mundo. Elas existem, cabe a você também atraí-las.

Seja a sua vontade de definir mentores em qualquer lugar que você vai. Olhar e poder dizer, ‘aquela pessoa ali é uma pessoa que eu posso admirar’, por algum motivo, às vezes é um aspecto, você admira o talento daquela pessoa. Nós somos resultados dos mentores que a gente escolhe na vida e também daqueles que nos escolhem.

2 – Quando criança temos aquele pensamento “quando eu crescer quero ser igual a fulano”, a pessoa que você queria ser quando criança mudou após o acidente?

Tejon – Quando pequeno, eu queria ser marinheiro. Morava em Santos e queria trabalhar em navio, ser capitão. Uma vez fiz uma viagem de navio, em Santos. Tinha uns 8 ou 9 anos, fiquei encantado com o capitão, esse foi o primeiro.

Depois eu queria viver da música. Gostava muito de Beatles e Creedence, bandas daquela nossa época, e depois eu fui me transformando não mais nisso que eu queria. O mundo foi me conduzindo, pessoas me inspirando em algumas coisas. Roberto Guairibe quando eu fui para propaganda, um cara que admirava muito, nem o conhecia pessoalmente e aí apareceram portas que se abriram de trabalhos e dentro dessas portas eu sempre tive pessoas extraordinárias para mirar e inspirar.

3 – Estamos no mês em que se realizam campanhas de prevenção ao suicídio. O que o senhor diria para alguém que está passando por um momento difícil?

Tejon – A vida é curta, não é necessário tirá-la. Você não vai ter muito tempo. A gente vive pouco, por mais que a ciência permita que você viva 100 anos, continua sendo absolutamente nada no universo. Jogar a vida fora, significa abandonar a possibilidade de um desenvolvimento, de aprendizagem. Você deixa de exercer uma missão, um sentido e deixa de conhecer pessoas espetaculares.

A vida é difícil, você tem que enfrentar um monte de coisas, frustrações, competição, doenças, talvez um ser humano que você ama morre. A vida é dura. Você tem que sair para e enfrentar. Procurar trabalho, se sustentar para viver. Perante essas dificuldades o ser humano pode não conseguir lutar. Uns vão para as drogas, bebidas, fogem de um jeito. Outros, se deprimem. Mas não fujam da psiquiatria, ciência existe para ajudar nisso.

4 – Se pudesse voltar no tempo, voltaria momentos antes do acidente e mudaria de direção para não ser atingido pelo fogo?

Tejon – Não. Não voltaria, porque tudo o que aconteceu é o que estava no destino. Um segundo a menos, um a mais teria mudado a história. A lata se batesse ao contrário, a história seria outra. Mas, o que eu faria de novo, se eu pudesse voltar no tempo, seria prestar mais atenção. Eu prestaria mais atenção em cada minuto, porque, se eu prestasse mais atenção eu aprenderia muito mais. Eu prestei atenção, tive coisas que ficaram guardadas na minha inconsciência. Mas eu voltaria e prestaria muito mais e aprenderia ainda mais.

5 – O que o Brasil precisa fazer para assumir a liderança mundial na produção de alimentos?

Tejon – Temos que assumir uma liderança moderna e conciliadora, que leve o Brasil pelos bons exemplos. No campo da agropecuária, nós temos que orquestrar as cadeias produtivas, do abacate até a vagem. Todas elas têm chance de dobrar, triplicar e até quadruplicar a produção. Para isso, tem que liderar.

O que a gente precisa desenvolver é a liderança. Ela tem que ser dialógica, positiva, assertiva, conciliadora e, que trabalhe de olho em uma meta, em um Norte para a gente seguir. Sem briga de egos, desarticulação e não integração. O maior inimigo não está do lado de fora, mas dentro. Um elo da corrente que não conecta com o outro, parte o outro. Partido um elo da corrente, ela se desfaz. Você patina e perde tempo.

Nós precisamos ter um Brasil unido. O Brasil é lindo, fantástico. É uma mistura de todas as raças. Aqui tem de todas as raças do planeta, isso é fascinante. Não temos problemas de raça. Nossa cultura pode ser até leviana, mas é genial. Não temos uma cultura milenar que nos mata, que nos obriga determinadas coisas. Essa coisa precisa ser conduzida por seres humanos que concilie os diferentes brasileiros e tem rumo de busca, de produtividade, de trabalho e convoque outros assim, para liderar cada segmento do país.

Com todos os nossos problemas, estamos entre as dez maiores economias do mundo desde 1970. Imagine ele mais bem orquestrado, com uma maestria melhor de comando e de liderança. A gente tem toda a condição de estar entre os cinco maiores países do mundo.

EXTRA –  É bastante comum vermos veículos de comunicação divulgando informações erradas sobre a produção agrícola do Brasil. Você avalia esses casos como falta de conhecimento ou má-fé?

Tejon – Geralmente pessoas que erguem a bandeira da ecologia, contra o veneno, do bem-estar animal, bandeiras ideológicas, na maior parte dos casos, creio que é uma certa ingenuidade. São aquelas que têm uma paixão, ‘eu acho que não devíamos mais comer, matar animais, porque os animais sofrem e tal’. Mas existe outras coisas que são articuladas por concorrentes.

Não interessa aos concorrentes que o Brasil se transforme em um competidor maior, pois sabe fazer bem feito, com alta produtividade e em situação difícil. Tem muita gente produzindo no mundo em situação fácil. Americanos e europeus subsidiados, então, o Brasil é um competidor que incomoda.

Por outro lado, tem pessoas que talvez aprenderam a viver da vitimização dos outros e vira um meio de negócio. Agora uma coisa eu digo, só tem duas formas de viver: aprender e não botar a culpa nos outros. Então para tudo que acontece, eu nunca coloco a culpa nos outros. ‘Olha aquele pessoal lá, olha o que fizeram conosco, falou mal da gente’. Se nós temos um problema de imagem, de percepção, a responsabilidade é exclusivamente nossa e de mais ninguém.

Portanto, pare de botar a culpa nos outros e assume que nós temos que ter uma organização, uma central de comunicação do agro brasileiro bem estrutura e inteligente e com uma visão de longo prazo, não de curto. Uma visão de 30 anos, no mínimo, com um planejamento estratégico

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