|terça, 22 maio 2018

    Laranjas em cana vendem abacaxis a preço de banana

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    Não é de hoje que a agricultura e a pecuária fornecem metáforas e inusitadas comparações para entendermos nosso País, onde, para a surpresa dos novos ocupantes da Terra de Vera Cruz, sobretudo portugueses, a banana era nativa e dava em todos os lugares, desde o quintal da casa até em espigões e em imensos banhadais.

    Alguns casos com frutas tornaram-se célebres. Um dos primeiros foi o de Pedro de Rates Henequim, que viveu entre os séculos XVII e XVIII. Ele proclamou ter sido a banana, e não a maçã, a uva ou o figo, o fruto do pecado original no Éden. Sua nova teologia não pegou. Interpretações lendárias já tinham inventado a expressão pomo de Adão para identificar a maçã na garganta masculina como prova de que o primeiro homem, se comeu a fruta, não engoliu o caroço.

    O figo e a uva entraram por razões simples: sendo de pouca ou nenhuma leitura, muitos dos primeiros cristãos aprendiam mais com as pinturas do que com as letras, e os artistas cobriam a nudez de Adão e Eva, ora com folhas de parreira, ora com folhas de figueira.

    Além do mais, travavam-se discussões interessantíssimas. Até mesmo os umbigos de Adão e Eva eram objeto de controvérsia, pois afinal tinham sido feitos de barro e não houvera gestação. Se não “p”, então não “q”, ensinava a lógica. Não tendo sido gerados, não deveriam ter umbigo. Que tremendos críticos de arte avant la lettre! À semelhança do sapateiro de Apeles, iam muito além das sandálias da pintura.

    O abacaxi ─ frequentemente confundido com o ananás ─ já estava há muito tempo no palavreado nacional quando entrou a laranja, que de repente mudou de significado.

    Sabemos muito mais acerca dos novos laranjas graças às descobertas da Polícia Federal e do Ministério Público, mais especificamente da operação Lava a Jato, expressão que deveria ter hífen, mas nosso bagunçado Acordo Ortográfico terceirizou também a língua portuguesa.

    Parentes de todos os graus, cunhados, mulheres, ex-mulheres, caseiros, faxineiras e pessoas jurídicas como gráficas, oficinas, borracharias, farmácias e outras empresas, muitas delas inexistentes, compuseram o novo e imenso laranjal.

    Só mesmo depois de entrar em cana (esta até deu nome a um ciclo econômico, o da cana de açúcar) é que laranjas, tendo que descascar abacaxis, delataram os bananas que não queriam assumir.

    Todos estes temas estão diariamente na mídia de vários formatos, do impresso ao eletrônico, passando, naturalmente, pelo áudio e pela imagem, pois o Brasil mais vê e ouve do que lê e pensa.

    Há laranjas e bananas em profusão no Brasil atual. E poucos em cana, uma vez que a Justiça demora a descascar tantos abacaxis e identificar os nomes daqueles por quem dobram os laranjas.

    Deonísio da Silva, da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Filologia, é Doutor em Letras pela USP, professor e Diretor do Instituto da Palavra, na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. É autor de dezenas de livros, entre os quais De onde vêm as palavras e Avante, soldados: para trás (Prêmio Internacional Casa de las Américas). Na companhia do jornalista Ricardo Boechat, apresenta Sem Papas na Língua, na Rádio Bandnews Fluminense 

     

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