|domingo, 21 Outubro 2018
Trinta refugiados da Venezuela chegaram a Cuiabá (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Explorados, famintos e perseguidos, mais 30 venezuelanos chegam a Cuiabá

“Fugimos porque na Venezuela não há dinheiro, não há comida e não há como viver”

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O corpo esguio e alto de José Rafael Lista não esconde as marcas do país de onde veio: a fome e a miséria deixaram rastros indeléveis na pele deste venezuelano de 49 anos. José Romano, de 42 anos, também não é o mesmo de antes. Desde que eclodiu a crise econômica e política no país, há cerca de um ano, Lista perdeu 38 quilos e Romano perdeu 40.

Os dois compõem o grupo de trinta imigrantes que chegaram a Cuiabá nesta terça-feira (12), vindos de Boa Vista, em Roraima, principal porta de entrada dos refugiados. Residentes na cidade de El Tigre, no estado de Anzoátegui, José Rafael e Jaime viveram a miséria e a perseguição na Venezuela e a exploração no Brasil.

Romano e Lista: histórias que se cruzam na luta contra a fome e a exploração (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Lista foi demitido da companhia de gás em que trabalhava, passou fome e foi obrigado a fugir para o Brasil com a esposa e os dois filhos de 12 e 14 anos. “Fugimos porque na Venezuela não há dinheiro, não há comida e não há como viver”, lamenta.

Romano viveu uma história ainda pior: foi demitido da estatal petrolífera onde trabalhava, a PDVSA, e perseguido pela polícia, que invadiu e saqueou sua casa durante a noite.  “Este mês dizem que haverá eleições, mas nós sabemos qual vai ser o resultado”, ironiza ele.

Furioso com o descontrole da crise, Romano faz parte de um grupo de descontentes que se negaram a sacar o chamado “carnet de la pátria”, lançado em 2017. O cartão, que contém tecnologia QR Code, é uma espécie de CadÚnico venezuelano que garante o acesso a saúde, transporte e outros serviços custodiados. O grupo, assim como parte da oposição ao presidente Nicolás Maduro, acredita que o cartão seja uma forma de controle social e de compra de votos.

“Eu e mais sete colegas, que trabalhavam comigo no poço de perfuração, nos recusamos a sacar o cartão, todos nós fomos perseguidos. Fui demitido, a polícia entrou na minha casa, levou televisão, móveis e me proibiram de conseguir outro emprego. O governo não aceitou que outras petroleiras estrangerias nos contratassem”, relata.

Exploração em Boa Vista

Romano chegou primeiro ao Brasil, em janeiro deste ano. A ironia do destino fez com que ele e outros compatriotas se estabelecessem na Praça Símon Bolívar, uma das maiores de Boa Vista e que remete justamente à figura histórica que dá nome à moeda venezuelana, completamente desvalorizada.

Carnet de la pátria, documento que garante acesso a serviços públicos para venezuelanos (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

“O número de gente triplicou em poucos meses”, conta. Lista chegou logo em seguida. Os dois companheiros, antes vizinhos em El Tigre, mantiveram-se próximos na praça superlotada. A dupla sofreou também com a exploração. Com a chegada de mais gente, a demanda de mão de obra na cidade rebaixou o salário a níveis indecentes.

“Trabalhei em uma fazenda por 15 dias e o proprietário se recusava a me pagar. Quando ele foi quitar o que devia, me deu R$ 250; eu perguntei por que o valor era tão baixo, ele me disse que era a ‘lei’”, conta Lista. “Mandei R$ 100 para parte da minha família que ainda está na Venezuela e o restante comprei comida para os meninos”, relembra.

“Uma diária em Boa Vista não é mais do que R$ 30, com sorte se consegue ganhar R$ 30, muito raramente. Há muita gente para trabalhar, você chega e oferece um trabalho, outro chega e oferece mais barato e os empresários se aproveitam”, diz Romano.

Emprego em Cuiabá

A capital mato-grossense entrou definitivamente na rota da imigração para os Venezuelanos este ano. Os haitianos, antes maioria na Casa do Migrante – entidade mantida principalmente pela Igreja Católica – deixaram de ser maioria. O primeiro grupo de venezuelanos, com 66 pessoas, chegou em abril. Destes, 30 adultos já conseguiram se empregar, 10 ainda aguardam uma vaga e o restante são crianças e adolescentes.

“Nós podemos dizer que o resultado tem sido positivo até aqui; a maioria deles conseguiu trabalho, alguns em fazendas e sítios e outros na indústria, no comércio e até em escolas”, comemora Marilete Girardi, que trabalha na Pastoral do Migrante. Com a chegada de mais gente, são exatos 96 imigrantes da Venezuela hoje em Cuiabá.

Mas mesmo antes de vir a Mato Grosso, os refugiados sentiram o corpo reagir as novas condições. A exploração em Boa Vista não foi suficiente para impedir o recomeço para muitos deles. “Desde que vim ao Brasil eu ganhei 13 quilos”, diz Lista, agora sorridente. Pergunto a Romano se ele também voltou a comer regularmente. “Pesava pouco mais de 50 quilos quando cheguei, hoje peso quase 70”, responde.

 

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