Pesquisa identifica 25 línguas faladas em Cuiabá; qual é a sua?

Português, libras, esperanto, mandarim, latim e várias outras: Cuiabá cosmopolita!

A professora doutora Ema Marta é "provocadora" e orientadora da pesquisa (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Cuiabá é multicultural. Basta se pensar que gente de todas as regiões do país a escolheram como morada. Mas você já parou para pensar que neste exato momento pessoas se comunicam em diversos idiomas na Capital? Faz ideia de quantos são?

Uma provocação como esta, feita pela professora doutora Ema Marta Dunck Cintra a alunos do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT), motivou a realização de uma pesquisa. E os alunos do Grupo de Estudos em Ensino de Línguas e Literaturas atestaram o caráter multilíngue de Cuiabá.

A primeira fase do estudo detectou 25 idiomas, incluindo o Português, Libras e a Universal Esperanto (uma língua artificial criada por Ludwik Lejzer Zamenhof em 1887).

“Mas depois de concluída [a pesquisa], fizemos mais uma descoberta: o Guarani”, e a investigação continua, sustenta a professora.

De onde veio essa ideia?

“Em 2002, quando eu cursava o mestrado, pela primeira vez me atentei para a diversidade linguística. E, desde então, prometi para mim mesma que, toda vez que eu entrasse em sala de aula pela primeira vez, eu faria essa pergunta”, conta Ema.

“Em um desses estímulos mais recentes, sem precisar andar muito, identificamos 18 línguas, rapidamente. E logo propus: ‘e se a gente fizer um mapeamento?'”.

Os alunos aceitaram o desafio e, em um ano, 492 entrevistas foram realizadas.

A rodada de perguntas começou bem próximo ao Campus Cuiabá, do IFMT. Não demorou muito para ouvirem outros idiomas.

Onde estão esses “tagarelas”?

No Centro, chineses e coreanos multiplicam suas lojas. Senegaleses falam o Wolof enquanto comercializam objetos em suas bancas montadas nas calçadas. Também transitam haitianos falando o Criolo ao telefone, enquanto que, na imponente mesquita, no alto do Morro da Luz, o idioma é o Árabe.

O número de idiomas só ia crescendo. Mas com o passar do tempo, a colaboração do público foi caindo.

“Na correria do cotidiano, as pessoas foram deixando de colaborar. Tivemos que achar uma estratégia. Foi quando um aluno sugeriu que fôssemos a universidades”.

E deu certo! Lá, chegam diariamente estudantes que saem de várias regiões da cidade. Estava, então, ampliada a representatividade.

E, assim, o Mapa das Línguas Faladas em Cuiabá ia sendo colorido com pontos distribuídos por várias regiões da cidade.

Para elaborar o mapa, a propósito, os seis alunos contaram com a orientação do mestre e professor Roberto Nunes Vianconi Souto.

“Tudo começou aqui mesmo no campus do IFMT, onde temos programas para intercambistas. Depois foram ao Centro e, então, seguiram para a Unic Barão e, enfim, para a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde o mapeamento foi ampliado, com a presença de vários grupos indígenas”.

O projeto foi realizado durante um ano e os resultados, divulgados em outubro de 2019. E, ao ser finalizado o mapa, vieram à luz outras perspectivas do estudo.

“Dá para atestarmos a maciça presença, por exemplo, do Criolo, falado por haitianos, na Região Leste. Eles estão concentrados no entorno da Casa do Imigrante, que fica no bairro Bela Vista”.

Uma nova história sendo construída

Mesmo que o essencial fosse identificar a língua e o bairro onde moram os entrevistados, as conversas foram além. Com isso, os alunos identificaram outros aspectos sociais, como a causa da migração.

“Muitos saíram de seus países por causa de catástrofes naturais, por guerras e a questão econômica. Além disso, nossos pesquisadores passaram a identificar uma relação mais aprofundada dessas pessoas com o território em que vivem agora”, explica a professora.

Segundo Ema, esses imigrantes já começam a se multiplicar nestes bairros, comércios que trazem em seu nome, palavras no idioma original, mostrando um novo panorama da atitude linguística.

“É um símbolo da identidade, dos saberes ancestrais, da cultura que trazem na bagagem. A língua representa tudo isso. Junto a ela, vem a religiosidade expressa na oração, a arte expressa no canto e todas outras subjetividades”.

Muitos destes migrantes que escolheram Cuiabá para viver, mesmo aprendendo o Português para se comunicar, não deixam de falar o idioma nativo. É uma questão de empoderamento. De nunca se esquecer das suas origens.

Todos somos imigrantes

Em um folder informativo, distribuído após a conclusão do estudo, os pesquisadores ressaltam que, antes da chegada dos bandeirantes, já haviam povos indígenas na região de Cuiabá, sobretudo, o povo Bororo.

“Outros povos foram chegando depois, compondo esse mosaico de gentes da cidade, como sírios e libaneses em 1880; italianos (também no século 19); e japoneses, na década de 1950. E tantos outros que estão chegando agora, como os haitianos e venezuelanos”.

Com planos de dar continuidade ao estudo, os alunos e os professores, agora, fazem um apelo: “sabemos que outras línguas podem existir em nossa cidade e queremos continuar o registro”.

Sendo assim, se você saber de outras línguas que não estão listadas no mapa, encaminhe um e-mail para o [email protected] Os pesquisadores farão uma sondagem para, mais tarde, incorporar as novas descobertas a um mapa atualizado.

Participaram deste projeto os alunos Tereza Neponuceno Magalhães, Wenderson Fellipe Soares Magalhães, Douglas Maxwell Botelho Elmino, Gilmaira Cristiane Campos Oliveira Maciel, Evandro Bueno Junior e Sheila Aparecida Leite de Moraes.

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