Pandemia do coronavírus deixará legado positivo para a saúde pública

Até o ato de lavar as mãos, capaz de evitar outras doenças além da Covid-19, é uma herança a se comemorar, na avaliação de alguns

Avanço científico quase que literalmente empurrado pela rapidez com que o vírus se espalha, mais leitos em hospitais pelo mundo todo, o que inclui o Brasil, e até um hábito de higiene que, além da Covid-19, é capaz de evitar 40% dos casos de diarreia que se tem notícia no planeta: lavar as mãos.

O legado positivo do novo coronavírus para a saúde pública para alguns médicos e políticos ouvidos pela reportagem do LIVRE é obvio e evidente. Para outros, ainda corre o risco de ser soterrado pela crise econômica que a nova doença que apavora o mundo carrega consigo por onde passa.

Em Mato Grosso, o secretário de Estado de Saúde, Gilberto Figueiredo é taxativo: não fosse o coronavírus, a ampliação do Hospital Metropolitano de Várzea Grande, que vai ganhar mais 180 leitos clínicos e 30 de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), muito provavelmente não seria feita.

“Em que pese seja em um momento de pânico, é uma oportunidade para resolver gargalos que há décadas não eram resolvidos”. Uma estrutura que o secretário garante, vai ficar após a pandemia.

No meio político, o deputado federal por Mato Grosso Leonardo Albuquerque – o Dr. Leonardo – afirma que o discurso, enfim, se voltou para a prática. Segundo ele, nas últimas semanas, o Congresso Nacional só tratou de propostas voltadas ao setor da saúde – que entra campanha, sai campanha, está sempre nos discursos dos candidatos, eleitos ou não.

E mais que isso, portas de “cofres” recheados de dinheiro público estão na iminência de se abrir com um direcionamento: o setor da saúde. O próprio Dr. Leonardo é autor de uma das propostas: destinar 5% do saldo dos mais variados fundos existentes no país para ações que possam conter o vírus e, consequentemente, outras doenças que assolam os brasileiros.

“No Brasil, nós temos aproximadamente R$ 219 bilhões em fundos, dos mais diversos possíveis. Alguns são vinculados à Previdência e não podemos mexer. Mas existem outros e estou propondo que 5% desses fundos possam voltar para o Tesouro Nacional para que a gente aplique nesse combate. Pela primeira vez, vamos poder ter um investimento em massa para resolver a questão da saúde”.

Secretário de Saúde, Gilberto Figueiredo diz que ações voltadas ao combate ao coronavírus serão permanentes (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

A emergência e o planejamento

Mas em meio à corrida para prover o básico necessário para atender quem for pego pelo novo coronavírus, o deputado federal reconhece que é preciso haver mais planejamento de como investir o dinheiro.

“Até porque vão surgir novos ciclos de doenças que podem se espalhar. Mas nós podemos estar mais preparados”, ele avalia.

Nesse aspecto, o parlamentar que também é médico cita a necessidade de se investir em pesquisas. Não só para se antecipar a futuras doenças – conforme Dr. Leonardo, cerca de 1,7 mil espécies de vírus ainda não foram devidamente estudadas no mundo –, mas para se estar à frente também no que diz respeito à cura ou à proteção contra o próprio coronavírus.

“Quem produzir a vacina primeiro, é lógico, vai produzir primeiro para o seu país. Só depois vai mandar para os outros. Então, até porque questões de defesa nacional, é importante investir em laboratórios, em pesquisadores”, ele diz.

Deputado federal, Dr. Leonardo lembra que é preciso planejamento para não se investir só no que parece urgente (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Políticas Públicas

Deputado estadual e também médico por formação, Lúdio Cabral tem opinião no mesmo sentido. Na avaliação dele, se os governantes responderem de forma “adequada”, a população deve ter um legado positivo depois de toda a crise.

Para o parlamentar, o coronavírus deve mostrar que o Sistema Único de Saúde (SUS) – que é público e universal no país – precisa ser defendido. E ele dá os Estados Unidos como exemplo exatamente oposto.

“É o país mais rico do mundo, mas por não ter um sistema assim, não tem conseguido controlar a situação”.

E se a questão é ter planejamento, Lúdio destaca que é necessário ter uma projeção do cenário que o vírus pode causar. Isso porque, mesmo um plano muito bem elaborado, pode não funcionar se a situação for pior que aquela que se espera.

“Se a gente tiver 1% da população infectada e a curva epidêmica for de 180 dias, nós vamos precisar de 116 novos leitos de UTI para atender os casos graves. Mas se a pandemia atingir 5% da população do Estado em um intervalo de 90 dias, nós precisamos de 1.161 novos leitos de UTI”.

Deputado estadual, Lúdio Cabral acredita que a política do SUS sairá fortalecida quando a crise passar (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

O pessimismo diante do inevitável

E para quem está mais na ponta do sistema, parece ser mais evidente enxergar o pior cenário possível.

Membro do Fórum Sindical de Mato Grosso, onde representa os servidores do setor da saúde, Orcalino Alves afirma que foram muitos os anos de “sucateamento” do sistema público, principalmente no que diz respeito a mão de obra necessária para dar sentido à existência das estruturas hospitalares.

Uma tese compartilhada pelo diretor de Comunicação do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso, Adeildo Lucena, para quem o legado do coronavírus deve ser pior que o da Copa do Mundo de 2014 no Brasil.

Adeildo vê a situação do mesmo ponto de vista de Oscarlino – ou seja, da falta de profissionais em quantidade suficiente, inclusive, para substituir aqueles que eventualmente também fiquem doentes – e de Lúdio Cabral – que acredita que a população vai enxergar de forma mais clara a importância do SUS.

O diretor do Sindicato dos Médicos, no entanto, considera mais um fator: a crise econômica que chega quase que simultaneamente ao vírus.

Um elemento da equação que o secretário de Saúde, Gilberto Figueiredo reconhece, impede a contratação de novos profissionais bem antes de o coronavírus chegar ao país.

Sobre o necessário concurso público para o setor da saúde em Mato Grosso, Figueiredo reforça o que o governador Mauro Mendes vem repetindo desde o início de seu mandato: não possível aumentar os gastos com a folha de pagamento sem antes colocar o Estado dentro dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Uma tarefa que já parecia difícil quando o governo se recuperava economicamente e que se tornará infinitamente pior se a previsão de queda na arrecadação se confirmar, por causa do isolamento social.

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