O adeus aos animais no triste fim do zoológico da UFMT

Animais serão reinseridos no ambiente natural ou transferidos para outros lugares, para reprodução

Depois de já terem sido considerados as estrelas de um dos pontos turísticos mais visitados de Cuiabá, hoje oitocentos animais, moradores do Zoológico da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), aguardam por alguém que lhes arrume um novo lar.

Desde 2016, quando a instituição definiu uma nova forma de se trabalhar o espaço, que previa o fim do carácter turístico e o foco no aspecto educacional, a transferência dos bichos para entidades atestadas pelos órgãos ambientais se tornou necessária.

Desde então, três exemplares de urubus reis foram para o Paraná, a pedido de uma instituição que atua na preservação da fauna. Lá, eles já se reproduziram e os filhotes conseguiram vingar.

Um casal de tucanos e outro de tachãs também conseguiram um espaço com mais estrutura fora de Mato Grosso – sendo que o segundo acaba de se reproduzir.

Outro caso de sucesso foi o encaminhamento de 50 jabutis-tinga para um projeto de reintrodução de fauna na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Quinze deles já foram soltos e tiveram o processo divulgado em destaque pelo programa Domingo Espetacular, da emissora Record.

Ainda há entidades interessadas em outros animais, como a exuberante harpia, a maior ave de rapina do mundo. Ela iria encontrar um companheiro com o objetivo de reprodução.

Segundo a professora, veterinária e coordenadora do Centro de Medicina e Pesquisa de Animais Silvestres, Sandra Helena Ramiro Corrêa, existe um protocolo para transferência destes animais.

O anfitrião tem que demonstrar o interesse e encaminhar os documentos da entidade. Depois de tudo ser conferido pelos órgãos ambientais (Ibama e Sema), começa a estratégia de transporte.

Onças têm mais de 15 anos e devido ao tamanho, estão fora dos radar das instituições (Divulgação/UFMT)

“Temos a consciência de que alguns não conseguirão um lugar e continuarão conosco. Principalmente os de grande porte, cujo transporte é algo caro e complexo, e os mais idosos, que não são considerados ideais para a reprodução e dificilmente se adequariam ao ambiente natural”.

Ramiro explica que a universidade não tem condições de manter o zoológico aberto e, por várias vezes ao longo da história, tentou parcerias como o Estado, Município e iniciativa privada. No entanto, nada foi concretizado.

A solução encontrada para não perder o espaço de aprendizagem acadêmica foi a criação do Centro de Medicina e Pesquisa. Vinculado à Faculdade de Medicina Veterinária, o centro irá tratar os animais que restarem e que forem salvos pelos órgãos oficiais.

No local, os bichos serão recebidos, recuperados e encaminhados para os órgãos ambientais, responsáveis pela reinserção deles na natureza ou encaminhamento a unidades de preservação.

Enquanto os bichos estiverem no local, os estudantes terão tempo hábil para fazer as pesquisas e dar continuidade a projetos.

Um clandestino

O Zoológico da UFMT sempre foi um clandestino dentro do organograma da instituição. A professora Sandra relata que os funcionários mais antigos contam que os animais foram chegando.

Primeiro, foram construídos cercados e, com o aumento dos bichos, uma estrutura que nem de longe atende às normas técnicas exigidas para este tipo de empreendimento.

A situação foi se agravando até 2009, quando houve o embargo do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama). Desde então, todas as ações são acompanhadas pelo órgão federal.

Chegou-se a fazer um projeto adequado para a unidade, mas o trabalho não foi à frente por falta de recursos.

Até hoje, Mato Grosso é o único estado que teve o zoológico dentro da universidade. No restante do país, o espaço é gerido por Estados, Municípios ou fundações.

Em 2014, definiu-se o novo modelo de gestão, que resolveria dois problemas da universidade: o que fazer com os animais do zoológico e o tratamento dos animais feridos. Nessa ocasião foi criado o Centro.

De pires na mão

Como não existe uma parceria oficial para o tratamento de animais silvestres no hospital, a professora conta que os órgãos ambientais tentam de toda forma fazer doações que subsidiem o trabalho. Às vezes, elas vêm por meio da entrega de medicamento ou rações específicas.

“No hospital temos os pets pagantes e, muitas vezes, usamos este valor para custear o tratamento dos outros. Porém, nem sempre a quantia é suficiente”.

A professora estima que mais de 200 animais de vida livre foram atendidos no ano passado – e o principal motivo da entrada é o contato com o espaço urbano e as pessoas.

Houve casos de atropelamento e também de violência, como de um tamanduá agredido com facões, em um assentamento. “É um animal perigoso quando se vê ameaçado. Caso contrário, ele vai seguir o seu caminho”.

A especialista disse que, naquela ocasião, havia muito desencontro de informações. O certo é que o tamanduá tinha algumas partes, como o focinho, dilaceradas. “Mas ele sobreviveu”.

Trabalho comunitário

Como o espaço receberá apenas animais em recuperação, as visitas só serão permitidas por agendamento e conforme um cronograma específico. A ideia é englobar, à educação ambiental, visitas monitoradas e o fomento ao Museu Animal por Dentro, que reúne esqueletos de animais.

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