Nas asas de Silval e Riva: aviação de MT recebe restos da corrupção e do tráfico

Apreensões do tráfico e bens de corruptos suprem falta de aeronaves no Ciopaer

Avião que pertenceu a Silval agora é usado pelas Forças de Segurança do estado (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Está ali a poucos metros, no hangar vizinho, o tão sonhado Chayenne II PA-31T2, aeronave que pertence ao ex-deputado José Riva. Exportado dos Estados Unidos e comprado por cerca de R$ 3 milhões pelo “maior ficha-suja do país”, o avião é desejado pelos pilotos do Centro Integrado de Operações Aéreas (Ciopaer) desde 2015, quando a Operação Imperador foi deflagrada e outros 140 bens do ex-parlamentar foram sequestrados.

O hangar ao lado foi classificado como “fiel depositário” pela juíza Selma Rosane Arruda, da 7ª Vara Criminal. A denominação permite que a aeronave seja guardada, mas não usada pelos donos do hangar. O Ciopaer aguarda resposta de pedido feito à Justiça para a transferência da propriedade e o direito de uso do avião de Riva.

“É uma aeronave de R$ 3 milhões, nós vamos gastar entre quatrocentos a quinhentos mil para botar ela para voar, mas é pouco, porque depois ela pode valer até R$ 5 milhões”, diz empolgado o tenente coronel Vladimir Zanca, uma das lideranças do Ciopaer. A expectativa pelo Chayenne é justificável: a aeronave tem capacidade para mais tripulantes e maior autonomia de voo se comparada as demais.

Um pouco menos eficiente, porém aconchegante é o Sêneca III, entregue pelo ex-governador Silval Barbosa em 2017 para cumprir acordo de delação premiada. O avião já está nas mãos do estado e é usado rotineiramente pelos pilotos. “Nós pintamos as caudas dos nossos aviões com as cores da bandeira de Mato Grosso”, diz Vladimir apontando para o bimotor avaliado em R$ 900 mil.

Tenente Coronel Vladimir Zanca, um dos pioneiros do Ciopaer (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Como um dos pilotos pioneiros, Zanca viu o Ciopaer crescer mesmo sem um investimento vultuoso, beneficiado principalmente pelas apreensões e pelas decisões de sequestros de bens, que quase sempre resultam na transferência da propriedade das aeronaves. Atualmente, mais da metade dos aviões do grupo pertenciam a políticos corruptos ou a narcotraficantes.

Despojos do tráfico e da corrupção

O Ciopaer substituiu o Grupamento Aéreo (GrAer) da Polícia Militar em 2006. Com a mudança, aviadores da Polícia Judiciária Civil e do Corpo de Bombeiros puderam se integram ao grupo, que até então não atendia todas as forças de segurança.

Antes com apenas um avião, o hangar agora abriga cinco aeronaves, três delas apreendidas do tráfico de drogas, o Sêneca III de Silval e uma quinta comprada pelo estado em 2014. O modelo, um avião bimotor, já tinha oito anos de uso quando foi comprado por ordem do Coronel Airton Siqueira Júnior por R$ 3,1 milhões. A aeronave, cuja compra está sob investigação, soma-se a mais três helicópteros (um deles com 12 anos, pronto para se aposentar) que foram efetivamente adquiridos.

O helicóptero mais antigo do Ciopaer tem 12 anos e está prestes a se aposentar (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Na prática, há mais pilotos que aeronaves, são 25 homens e mulheres habilitados para pilotar os cinco aviões e os três helicópteros disponíveis. Há duas bases: uma em Sorriso, conjugada ao batalhão dos Bombeiros, e outra em Várzea Grande, no Aeroporto Internacional Marechal Rondon. O número de pilotos já foi menor, nove homens trabalhavam no Graer antes da integralização em 2006.

“Em Mato Grosso do Sul praticamente todas as aeronaves são resultado de apreensões do tráfico de drogas. Eles tem, por exemplo, um helicóptero e um jato apreendido do traficante Juan Carlos Abadia”, comenta o tenente coronel Zanca. “Os traficantes tem recursos para comprar boas aeronaves, mas costumam colocar as aeronaves mais ‘lenhadas’ para traficar”, explica o piloto.

A maior parte das despesas do governo no Ciopaer é para a manutenção das aeronaves adquiridas. Segundo dados do portal Mira Cidadão, form gastos R$ 20.341.413,79 milhões nas rubricas “modernização das atividades aerotransportadas”. Em média, o custo anual dos aviões é de aproximadamente R$ 500 mil, enquanto os helicópteros custam R$ 1 milhão por ano.

O resultado parece compensar. Segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), praticamente todas as apreensões de drogas por via aérea em Mato Grosso tiveram a participação do Ciopaer. O grupamento aéreo fechou o ano de 2017 com um saldo de 804 operações realizadas e 1680 horas de voo com avião e helicóptero. Entre as principais ações estão 33 buscas e capturas de suspeitos, 11 prisões, 46 veículos recuperados e 84 apoios a ocorrências policiais.

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