Drone, selfie e buzinaço no “Uber Off”, protesto que tomou as ruas de Cuiabá

A sombra das árvores começa a se projetar no asfalto da avenida Miguel Sutil, em Cuiabá, quando Patrícia Araújo, de 23 anos, inclina-se sobre o celular disposto no painel do seu Fiat Grand Siena, sua ferramenta de trabalho, para dar a ordem: “Pessoal vai devagar aí na frente”, avisa ela.

Araújo é uma das lideranças de um atípico movimento que nasceu em Cuiabá: a greve geral dos condutores de aplicativos de transporte, a autodenominada “Uber off”. Sem sindicato, sem vínculo empregatício, os profissionais do transporte alternativo particular ganharam as ruas de Cuiabá a partir da última quarta-feira e nesta quinta-feira (24) já alcançaram o segundo dia de mobilização com buzinaço e carreata pela cidade.

O movimento, que a princípio nasceu para apoiar a paralisação dos caminhoneiros, ganhou reivindicações que vão além do combustível: tarifa baixa dos aplicativos e desconto nas viagens são algumas delas. Os motoristas partiram da Arena Pantanal para se encontrarem com os caminhoneiros grevistas na frente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), onde o estardalhaço das buzinas continuará.

“Falei para o pessoal que tudo isso me lembrou àquela música do Raul Seixas: ‘O dia que a terra parou’ Mas tinha que parar mais, o que parou hoje é só 60% do que poderia parar”, diz o condutor Jailson Coelho, de 41 anos.

Ele é um dos raros motoristas que participou de uma greve em um antigo trabalho com carteira assinada. A maioria dos 200 motoristas mobilizados jamais cruzou os braços como fizeram nesta quinta.

 

A barba longa e volumosa de Dilmar Lopes, de 40 anos, pode até sugerir, mas ele jamais parou o serviço por reivindicações trabalhistas. “É a primeira vez, como é para muitos aqui. É uma movimentação não só por nós, é pelos outros também, todo mundo paga pelo combustível”, alegra-se ele.

A ironia de ser um grevista sem vínculo empregatício não parece fazer muita diferença para Patrícia. “Ontem a gente percebeu o apoio da população na calçada, na rua, a gente passava e todo mundo aplaudia. Fomos ver os caminhoneiros na BR-364 e eles receberam a gente aplaudindo também, fiquei arrepiada”, relembra ela visivelmente emocionada.

Patrícia Araújo é Uber quando não pode ser atendente do SAMU, serviço onde atua dia sim e dia não. Ela e mais três motoristas criaram na terça-feira o primeiro grupo da mobilização, o “Melhor Tarifa Já” e foi pelo WhatsApp que toda mobilização começou.

“Nós três nos juntamos e chamamos o pessoal. Rapidamente já tinha mais gente e foi preciso fazer mais grupos”, conta ela.

A tecnologia é peça chave na mobilização. Um drone sobrevoa todo o percurso para fazer as imagens do protesto e é com ele que os motoristas mobilizados fizeram a selfie do grupo virtual, que se reuniu no estacionamento do estádio Aecim Tocantins pela primeira vez desde a recente criação, pouco antes do sol se pôr.

A adesão a greve é grande, mas não completa. Muitos motoristas decidiram trabalhar. “Eles pensam que vão tirar alguma coisa porque a maioria está parada, mas não tem como, é ruim para todo mundo”, reclama Joílson, um dos convidados por meio do próprio aplicativo.

Ele foi chamado para o que pensou ser uma viagem, quando recebeu a mensagem pelo aplicativo de um companheiro convocando para a greve. “Estava dirigindo aqui perto, chamou a viagem e ele disse que o pessoal estava parando, eu vim, não tem como não vir”, conta. Até então, segundo ele, não tinha sido informado da mobilização.

A possibilidade de um novo protesto amanhã não é descartada pelas lideranças. “Talvez, se tiver como abastecer nós vamos fazer de novo”, diz Patrícia.

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