|sábado, 21 abril 2018

Brasília é no fim do mundo, depois do Natal

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“Meu cumpadi, em Brasília espalharam um boato/ Que o mundo vai se acabar/ Vancês fiquem de oreia no rádio/ Vancês fiquem de oio no jorná”

De Brasília raramente nos chegam boas notícias. Mas o brasileiro é bem-humorado e tira de letra todas aquelas desgraças, muitas das quais esperadas com tristeza, quando não anunciadas pelos próprios causadores e arautos.

Poucos expressaram o tema do fim do mundo de forma tão divertida como os autores de Moda do Fim do Mundo, tornada popular pela extraordinária persistência da cultura caipira, de que é exemplo o espaço aberto na TV Cultura a profissionais como o apresentador de televisão, músico e ator Rolando Boldrin, de 81 anos, natural de São Joaquim da Barra, a Macondo do Brasil.

A epígrafe deste texto são versos de sua alegre canção sobre o fim do mundo, um tema que costuma rondar as festas de fim ano, que incluem o anúncio do ano-novo.

Mas por que estas festas são antecedidas de tantas profecias confusas? Nesta época do ano, aparecem videntes para anunciar catástrofes diversas e a morte de alguma celebridade, jamais de um dos milhares de anônimos que continuam a morrer mundo afora todos os anos: no trânsito, de fome, de sede, de epidemias diversas, de tudo um pouco.

Curiosamente, tal como acontece nas referências a vidas passadas, em que muitos dizem terem sido faraós, no mínimo, ou altas autoridades em cortes suntuosas do Egito e da Babilônia, mas nunca faxineiros ou sequer encarregados de preparar os rabanetes, principal alimento dos operários nas pirâmides, há sempre alguém para anunciar também que estas festas serão as últimas, pois vem aí o fim do mundo, já previsto tantas vezes.

O fim do mundo é muito antigo. Os primeiros cristãos acreditavam que Jesus voltaria no fim do primeiro século, chamado também de fim do tempos, para julgar os vivos e os mortos, tal como rezado no Credo, a oração chamada também de símbolo dos apóstolos.

Século veio do Latim “saeculum”, do gênero neutro, e o plural é “saecula”. E está na conhecida expressão per omnia saecula seculorum (por todos os séculos dos séculos, isto é, sempre). A expressão veio de um dito muito popular entre os gregos: eis aióna auónon. Aliás, neste caso houve tradução literal.

Mas, originalmente, “saeculum” designava um tempo que poderia ser de trinta, cinquenta, cem ou de mil anos.

O cristianismo triunfou primeiramente entre os pagãos, no meio rural, e nas bordas das cidades. Paganus, em Latim, é quem vive nos pagos, isto é, no campo, no meio rural. Para aquelas pessoas simples, pastores, agricultores e pecuaristas, as narrativas tinham que apelar mais aos sentimentos do que à razão.

Ao ouvir ou ver o anúncio de tantas desgraças e calamidades, os atuais caipiras, como na antiguidade os pagãos, levam na brincadeira as sinistras profecias e preferem rir delas, como o fazem Rolando Boldrin e Tom Zé:

Ficam tristes todos aqueles que pensam que o futuro será pior. Estes já começam o jogo perdendo os seus principais aliados: eles mesmos.

Deonísio da Silva, da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Brasileira de Filologia, é Doutor em Letras pela USP, professor e Diretor do Instituto da Palavra, na Universidade Estácio de Sá, no Rio de Janeiro. É autor de dezenas de livros, entre os quais De onde vêm as palavras e Avante, soldados: para trás (Prêmio Internacional Casa de las Américas). Na companhia do jornalista Ricardo Boechat, apresenta Sem Papas na Língua, na Rádio Bandnews Fluminense.

 

 

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