Artistas convocam passageiros à espera do ônibus: “escolha uma música e dance comigo”

Artistas do coletivo Coma a Fronteira estão transformando o cotidiano da Estação Alencastro

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Ver uma jovem performando Halo da Beyonce ou um grupo de pessoas sincronizadas dançando passos de funk, seria comum em uma balada ou que partisse de alguém que acompanha tutorial de coreografia. Mas cenas curiosas como estas têm se tornado rotineiras na Estação Alencastro, no centro de Cuiabá. Há música e dança, em meio a sussurros e ruídos de trânsito.

Enquanto esperavam pelo ônibus, essas pessoas foram convocadas para um inusitado desafio, lançado por três artistas do coletivo “Coma a Fronteira”.

Um deles segurava uma placa: “escolha uma música e dance comigo”. Eles traziam consigo, um fone de ouvido e um aplicativo de música aberto no celular. A cena, de longe, parece estranha, mas a intenção, é justamente essa: atrair olhares, provocar mais gente.

Dona Eliza pediu para ouvir “Amante”, do Ara Ketu e saiu dali tranquilinha! (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Os artistas Marcella Gaioto, 21, Caio Ribeiro, 22, e Pedro Duarte, 20, conversaram sobre a intervenção que fazem ali, semanalmente. Há pouco mais de três meses, eles abordam desconhecidos que esperam pelo ônibus e quando o convite é aceito, todos têm sua rotina “sacudida” por alguns instantes.

“Disponibilizamos nosso corpo para uma dança, em uma zona recheada de tensões e estresses, deixando o lugar um pouco mais ameno”, explica Caio. “A gente trabalha com a música, porque ela desperta a memória afetiva das pessoas. Elas lembram de momentos e a música traz sensações que não teriam, esperando um ônibus”, complementa Pedro.

Mas só quem ouve a música é quem topa a dança.

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

A estudante Emily, aceitou a proposta e botou para tocar Bola Rebola (Tropkillaz, J Balvin e Anita, ft. MC Zaac).  “Fiquei com vergonha”. Mas o semblante já entregava que ela havia sido contagiada pela experiência.

Já dona Eliza, aliviou a tensão. “Eu estava muito estressada. Cantei Amante, do Ara Ketu”, contou.

E Caio e Pedro, de maneira sinestésica, mesmo sem ouvir a música, deixaram se levar.

“Por que a gente não escuta? Porque também queremos ser contaminados pelo corpo da pessoa que está escutando. Tem música que a gente nunca ouviu. E é muito legal porque a gente também se deixa levar”, afirma Caio.

A experiência se espelha na “vida mental” de uma metrópole, onde as pessoas imitam trejeitos o tempo todo, mas na correria do dia a dia, não sociabilizam, observam os jovens.

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Comendo fronteiras

O trabalho de Caio, Pedro e Marcela é um laboratório de práticas de ocupação do espaço público que propõem ao desenvolver as ações do coletivo Coma a Fronteira. A escolha da Estação Alencastro, como espaço da intervenção, não foi por acaso.

“A gente acredita que ali existe uma fronteira que precisa ser ‘comida’. Um lugar que a gente chama de ‘não-lugar’, onde as pessoas estão por um único e exclusivo propósito de esperar, um ônibus. Elas não querem estar ali, mas precisam estar ali. Então a gente propõe uma ocupação corporal e real desse espaço”.

As vezes conseguem um rápido e tímido passinho, às vezes, a dança toda. Outras, apenas cantam. O que importa é “sair do lugar”.

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“Quando a gente chega para falar, as pessoas ainda estão tensionadas e carregam a insegurança de um lugar que não se dança ou escuta música, apesar de que muitas usarem fone de ouvido. Por isso que a gente não cobra nada, a gente entende que essa a primeira fronteira, de achar que tem que pagar, uma visão da música só como entretenimento. É mais que isso”.

E o que as pessoas acham de tudo isso? O LIVRE acompanhou os jovens na intervenção e registrou o resultado. Confira!

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