Vencer pelo intelecto: haitianos têm pressa em aprender português no Brasil

Eles acreditam que conseguirão subir na vida pelo intelecto e marcam presença em sala de aula

A sala de imigrantes haitianos do Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) Almira de Amorim Silva, em Cuiabá (MT), está sempre lotada. Nela, enquanto os alunos ensaiam as primeiras frases em português, conversam entre si em crioulo e francês.

Um desafio para professores e estudantes, que precisam entender a língua com rapidez para garantir as necessidades básicas, que vão de procurar um emprego a fazer compras nos mercados.

A líder do Núcleo de Educação de Jovens e Adultos, Flávia Gilene, explica que desde que as imigrações cresceram, em 2012, período pós-terremoto no Haiti e pré-Copa no Brasil, o trabalho especializado foi iniciado.

O Ceja, localizado no CPA 3, é o único que tem uma sala e um método diferenciado para os estrangeiros. Por lá já passaram mais de 2 mil pessoas.

Conforme a profissional, os haitianos aproveitaram a abertura das portas da escola de um modo diferente dos venezuelanos e senegaleses.

Depois de trabalhar com as três nacionalidades, Flávia explica a diferença entre elas. No caso dos haitianos, eles acreditam que vão vencer pelo intelecto, então não perdem oportunidades ligadas a educação.

Enquanto isso, os senegaleses são mais mercadores e focados em áreas relacionadas a vendas e negócios.

Já os venezuelanos, tem uma característica mais braçal, procuram focar nas atividades econômicas, de preferência agrárias.

Quem já se formou

Dentro da sala de imigrante está Moise Saint-Felix, 33. Ele atua hoje como tradutor contratado pelo Estado para ajudar nas aulas e fazer a ponte entre professores e alunos.

Ele foi um dos que procuraram alfabetização quando chegou em Cuiabá.

Moise Saint-Felix já passou pela alfabetização e, atualmente, está na faculdade. (O Livre)

“Eu ganhei um livro do meu irmão com as palavras básicas e assim fui procurar emprego e andar na rua. Logo vi que era pouco e que precisava estudar para ter um trabalho melhor”.

Primeiro de tudo, ele foi para alfabetização e em 2 anos e meio conseguiu concluir o 2° grau.

Moise fez provas on line para conseguir aprovação nas matérias e ficou apenas com a parte de linguagem para ser concluída.

“Eu era estudante de Economia no Haiti. Nunca trabalhei. Era como dizem aqui: ‘era o filhinho da mamãe’”.

Por ser acadêmico no país de origem, não foi difícil passar pelas exatas e ciências da natureza.

Oportunidade de ensino superior

A oportunidade de ensino superior veio por meio da Ordem dos Advogados do Brasil, que ofereceu cursos on line de Ciências da Computação para imigrantes.

Em seguida, ele fez a inscrição para um curso de Administração de Empresas semi-presencial.

“Hoje eu trabalho como líder de equipe em uma loja e aqui na escola. Porém, no próximo ano vou ficar apenas em um trabalho, porque quando ganhamos dinheiro ficamos seduzidos e nos afastamos dos estudos”.