Terroristas por conveniência: família diz que Segurança Nacional agiu sem provas

País precisava provar aos americanos sua eficiência diante dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro, diz mãe de condenado

Naquela época, Alexandre de Moraes, hoje membro do STF, era ministro da Justiça (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Para a advogada Zaine El Kadre, o filho Leonid El Kadre, está preso por uma questão de conveniência do governo federal, que estaria “fazendo de tudo” para ampliar sua permanência no presídio.

Ele foi condenado por terrorismo em 2016 e a acusação foi baseada em conversas em grupos de Whatsapp e Telegram, porém sem nenhuma movimentação real.

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Morador de Vila Bela da Santíssima Trindade (520 km de Cuiabá), Leonid é o único do grupo, formado por oito condenados, que ainda está em regime fechado.

Segundo ela, que mudou-se para Campo Grande (MS) para poder visitá-lo, apenas nas mãos dela estão 15 processos disciplinares contra ele. Os motivos vão desde não cortar o cabelo até chutar uma porta.

“Eu vejo claramente muitos excessos no caso dele e, até hoje, não conseguiram comprovar nada, o que nos causa revolta”, afirma a mãe e advogada do condenado por promover  terrorismo na época das Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Leonid Al Kadre e seu filho no ano em que foi preso por terrorismo. (Foto: arquivo da família)

Entenda o caso

Leonid e seu amigo, Valdir Pereira da Rocha, participavam de dois grupos, focados em discutir o islamismos, religião a qual pertenciam, e questões correlatas. Mas, segundo a denúncia, eles tentavam organizar um atentado terrorista pelos canais.

Logo após a Operação Hashtag ser deflagrada, 14 dias antes dos jogos olímpicos, o então Ministro da Justiça e atual Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, ofereceu uma coletiva para explicar o suposto plano terrorista.

O que ele mesmo definiu como uma “célula terrorista amadora” iria comprar um fuzil AK -47 no Paraguai e depois usá-lo para atacar pessoas durante as Olimpíadas no Brasil.

De acordo com Moraes, eles ainda estariam se organizando para ir até uma área rural e fazer treinamento de guerra.

Quando questionado sobre a ligação dos suspeito com alguma liderança do Estado Islâmico, o próprio ministro disse que não houve. As investigações apontaram que o grupo fez um “juramento pela Internet” e, desde então, se consideravam integrantes.

Com o tempo, também foi identificado que o grupo teria muita dificuldade em ter o suposto encontro por questões financeiras. Todos tinham ofícios mais modestos, que vão de mecânico de moto a funcionário de supermercado.

Leonid mesmo trabalhou consertando motos, como entregador, como funcionário na instalação da rede de água de Vila Bela da Santíssima Trindade, e ainda, com a venda de carvão de casa em casa.

Como Leonid virou líder do grupo?

Por uma questão de conveniência, defende Zaine. Ela relata que os mais atuantes no grupo foram separados, sendo que a primeira opção deles era um rapaz que tinha pedido um orçamento de um fuzil no Paraguai.

O problema é que, ao buscar provas, as forças de segurança federais perceberam que o orçamento foi pedido muito antes da formação do grupo e a compra em si não teve  andamento.

Então, como Leonid já respondia por outros crimes, “caiu como uma luva” no cargo de líder, conforme a avaliação de sua mães sobre os fatos que se sucederam.

Já Valdir Pereira Rocha teve que ser liberado, porque a participação dele no grupo era irrisória.

O problema foi que, antes de chegar a Vila Bela, ele acabou detido no presídio do Capão Grande, em Várzea Grande (Região Metropolitana de Cuiabá) onde acabou morto.

Cenário internacional

Três atentados terroristas foram registrados um ano antes do jogos olímpicos no Brasil. Todos tiveram a autoria requerida pelo Estado Islâmico, gerando um sentimento de pânico na Europa e nos Estados Unidos.

Até então, o Brasil estava distante do radar dos atentados, porém o fato de ser escolhido como sede dos jogos podia ser um atrativos para os grupos, argumentavam as lideranças globais.

Dentro deste cenário, os governos dos Estados Unidos e da França começaram a cobrar mais segurança para as delegações de atletas e se ofereceram para contribuir com os serviços de inteligências brasileiro ao mesmo em que cobravam “mais firmeza”.

Para atender as exigências, o governo do Brasil criou a lei antiterrorismo e caracterizou como crime o ato de promovê-lo. E foi exatamente aí onde Leonid teria se encaixado.

Contudo, nas vésperas da abertura dos Jogos, o serviço de inteligência francês anunciou uma ameaça de atentado, que teria sido rastreada pela redes sociais. O caso figurou os grandes jornais mundiais.

A informação, na mesma semana, foi dada como alarme falso pelos próprios franceses, no entanto, estremeceu as relações internacionais.

Um dia depois, foi deflagrada a Operação Hashtag, que acabou com a prisão dos dois moradores de Vila Bela da Santíssima Trindade.

 

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