Quem matou Valdir? Piadinhas, intolerância religiosa e um linchamento

Morador de Vila Bela da Santíssima Trindade, ele chegou como suspeito de terrorismo, mas nunca sequer foi denunciado pelo MPF. Acabou morto dentro da cadeia

Valdir Pereira da Rocha com os dois filhos em Vila Bela da Santíssima Trindade (Foto: arquivo pessoal da família)

O último dos quatro suspeitos de matar o mecânico de motocicletas Valdir Pereira da Rocha foi declarado inocente no Tribunal do Júri de Várzea Grande, neste mês. A defesa nem precisou gastar argumentos para convencer os jurados. A decisão foi defendida pelo próprio Ministério Público do Estado que, em tese, deveria acusar.

Conforme o promotor, que também pediu a absolvição dos outros três acusados no final do ano passado, ele não poderia cometer mais uma injustiça, já que não haviam provas.

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Segundo ele, a vítima foi alvo de intolerância religiosa somada a uma série de negligências cometidas pelo próprio sistema de Justiça do país.

De acordo com Cesar Novais, diante de tantas falhas, a fatal foi a dos agentes públicos da própria penitenciária que, na avaliação o promotor, deveriam ser investigados.

Consta nos autos que, por conta de “piadinhas e provocações”, foi criado um clima de selvageria dentro do presídio localizado em Várzea Grande (Região Metropolitana de Cuiabá), o que resultou no linchamento brutal de Valdir.

Júri popular foi realizado na semana passado no Fórum de Várzea Grande (Foto: Tribunal de Justiça)

Jorge Lima de Oliveira – um dos acusados do homicídio – estava no Capão Grande por conta de um crime de receptação de produtos roubados e relatou, em depoimento, que os presos ficaram com raiva porque havia informações que Valdir, muçulmano, era terrorista e dizia que o Deus dele era melhor que o Deus dos demais detentos.

“Todo mundo ficava desconfiado porque ele ajoelhava no lençol e começava a falar em outras línguas. Disseram que estava chamando a Al-Qaeda”, afirmou o acusado

Também se alastrou como um barril de pólvora, a informação de que terroristas matam gente inocente, explodem escolas e crianças, bem como conseguem fazer bombas até com uma simples lata de refrigerante.

Dia do crime

Jorge era o “Cela livre” no dia crime, 14 de outubro de 2016. Significa dizer que ele não ficava dentro do cubículo e sim nos corredores, onde era responsável pela limpeza e entrega de alimentos aos demais.

Naquele dia, foi intimidado por um outro detento, que ele não soube identificar. Relatou no tribunal que todos estavam com as camisetas amarradas aos rostos, apenas com os olhos de fora.

“Na hora da ‘paura’, você não consegue saber de nada. Fica só com medo de morrer”, argumentou o suspeito.

Da boca do líder do grupo saiu a ordem clara: “vá lá, abra a porta da cela deles e da nossa. E nós vamos invadir e matar o terrorista”.

E assim foi feito.

Em alguns segundo, conforme o Ministério Público Estadual, os detentos cobriram as câmeras com colchões e entre 90 e 120 homens começaram a bater em Valdir.

Quando ele foi socorrido, a morte cerebral já estava consumada.

Sem segurança

O promotor explicou para os jurados que os presos escolheram a hora do almoço porque sabiam que os agentes penitenciários saíam e nenhum deles vigiaria as câmeras até que acabassem a refeição.

Quanto aos participantes do crime, não foi possível identificá-los por conta da ausência de imagens. E, quem viu, também não vai falar.

Promotor diz que o preso não tinha condições de recusar uma determinação da população carcerária

“Não podemos exigir o ato heroico de um preso. Ele não fala para preservar a vida dele. Sabe que quem infringe a lei do crime acaba morto”, esclarece o promotor.

Já com relação a Jorge, Novais disse que ele é conhecido como “comédia” dentro do presídio. O termo é dirigido a pessoas sem nenhum poder de comando.

“É comum na cadeia eles atribuírem a este tipo de preso os crimes, assim, quem realmente manda, sai ileso. E se a pessoa não assumir, morre por que a ‘lei’ lá dentro é cumprida”, argumentou o representante do MP.

A acusação de terrorismo

Mas como os demais presos descobriram que Valdir era acusado de terrorismo? Esta é a pergunta que o promotor diz ser essencial responder. Ele supõe que a informação saiu da boca dos próprios agentes penitenciários, que ainda fizeram piadinhas com a situação.

“Vamos ver se vocês dão conta de terrorista. Acho que terão que dar a cama para ele dormir”, foram algumas das afirmações provocativas que surgiram com a chegada de Valdir ao Campão Grande, segundo o promotor.

Novais explica que, como as celas estão superlotadas, existe revesamento para a ocupação das camas ou elas acabam com quem tem mais poder. Sendo assim, a “brincadeira” pode ser considerada uma afronta.

Ele aponta ainda que qualquer preso é deixado na ala evangélica nos primeiros dias de detenção, contudo, Valdir teria ido direto para o raio comum.

Os agentes dizem que ele se recusou por ter uma religião diferente, no entanto, não há como provar se Valdir realmente não quis ou não foi aceito entre os evangélicos.

“De qualquer forma, a direção deveria ter tomado cautela diante da situação e achado uma alternativa”.

Operação Hashtag

Valdir era morador de Vila Bela da Santíssima Trindade (520 km de Cuiabá) e foi um dos suspeitos de integrar uma “célula terrorista amadora” – como definiu o então ministro da Justiça e atual ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, em entrevista coletiva em 2016 – às vésperas das Olimpíadas no Rio de Janeiro.

Ele, junto com outros 16 acusados, foram encaminhados para um presídio federal, em Campo Grande (MS), porém Valdir sequer foi denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF).

Mesmo sendo dispensado, começou a ser alvo de uma série de ações que resultaram na sua morte por linchamento.

Valdir respondia em liberdade por um crime cometido no Tocantins e, sabendo da operação Hashtag, o juiz determinou o fim do benefício e a prisão imediata dele, que aconteceu em Várzea Grande.

Como o crime era comum e não federal, ele acabou no Capão Grande, de onde saiu morto.

Naquela ocasião, ele já tinha sido solto de Campo Grande e parou na cidade vizinha a Cuiabá para pernoitar, antes de seguir viagem até Vila Bela da Santíssima Trindade, onde a família dele e os amigo o esperavam.

Família do acusado

No dia do julgamento, em um espaço para mais de 100 pessoas, apenas a mãe, a esposa, o cunhado e o filho do acusado – que tem pouco mais de 4 meses e nunca tinha visto o pai -, ouviam atentamente o que era dito.

Eles aguardavam apenas o resultado do júri, para ter a certeza que Jorge voltaria para casa. Ele seria liberado no ano em que a Valdir foi linchado, porém, acabou tendo sua estadia na prisão ampliada por conta do envolvimento com o homicídio.

A mãe dele, Maria da Anunciação de Oliveira, falou que o filho é usuário de drogas e sempre entrou e saiu da prisão por conta do vício. As acusações são de furto e roubo, mas nunca ter machucado alguém.

“Nós não temos dinheiro para pagar advogado e acabamos tento que esperar pelo advogado público. Por isso que meu filho ficou tanto tempo. A pena dele já acabou, porém teve que ficar por conta de algo que não fez”.

 

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