Patrimônio em perigo: infestação de pombos ameaça ruínas históricas de Vila Bela

As fezes dos animais estão por todo chão e caem inesperadamente do céu, atingindo turistas e comprometendo a saúde dos moradores

As ruínas centenárias da Igreja Matriz de Vila Bela da Santíssima Trindade (520 km de Cuiabá), o principal ponto turístico urbano da cidade, foram tomadas pelos pombos. No local, há uma cerca para o controle de entrada de visitantes e os turistas que entram na estrutura precisam tomar cuidado para não serem alvo das fezes dos animais, que além de caírem do céu de forma inesperada, tomam conta do chão, que tem marcas de vassouras por conta da constante tentativa de limpeza.

A cobertura, que foi instalada para proteger as ruínas das intempéries do calor e da chuva em 2006, tornou o espaço seguro e confortável para os animais. Lá, tem temperatura constante, proteção das chuvas e as fendas nas paredes de adobe formam um verdadeiro conjunto residencial para as aves, que ali se instalaram e proliferaram.

Os pombos são um problema complexo para a cidade, cuja solução se arrasta há mais de 4 anos, quando o Ministério Público Federal ingressou com uma Ação Civil Pública, judicializando a questão em 2018.

O secretário de Cultura do município, Ednardo Marques de Almeida, relata que houve a conciliação entre os governos Estadual e Municipal, bem como outros instituições, como a Justiça Federal, MPF, Unemat, UFMT, Câmara de Vereadores e Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Contudo, qualquer medida precisa ser amplamente discutida, pois precisa estar respaldada em avaliações técnicas e legais, afinal de contas a estrutura é tombada pelo patrimônio histórico.

O que falam os moradores?

O guia de Turismo Divino Vilas Boas, que orgulha-se de ser nativo e ter raízes na etnia Chiquitana, disse que a situação é preocupante tanto por conta dos visitantes, como dos próprios moradores, já que os animais transmitem doenças. Ele conta que, no passado, houve, entre os habitantes da cidade, casos de doença de pombo – criptococose -, o que torna a situação ainda mais grave, caminhando para o rol das questões de saúde pública.

“As próprias fezes dos animais danificam o patrimônio e ainda há a presença constante de predadores, que rondam a ruína em busca de alimento. É preciso fazer um trabalho para tirar os pombos. Aqui, tivemos no passado pessoas que ficaram com problemas nas vistas por conta do contato com os pombos”, relata.

Conforme Vilas Boas, quando as ruínas receberam a cobertura, em 2006, o local que era úmido, tornou-se seco e aconchegante para os animais, que tomaram conta rapidamente da parte superior da estrutura. Desde então, nada foi feito porque existem várias regras para atuação no local, que é tombado como patrimônio histórico pelo Iphan.

Como caminham as tratativas para a solução do problema?

O secretário de Cultura de Vila Bela, Edinardo Marques de Almeida, conta que já foram realizadas várias audiências, sendo a última delas na terça-feira (19), com a participação dos integrantes de todas as instituições envolvidas no caso. Na ocasião, o encontro aconteceu na cidade e houve a participação dos moradores, que foram informados dos andamentos do processo.

Atualmente, está sendo construído um grande projeto com medidas emergenciais e definitivas e todas as ações estão em fase de elaboração de orçamento. Ainda não se sabe quanto será preciso investir na retirada dos pombos, porém, de acordo com o secretário, existe o entendimento de que um rateio entre os três governos (Federal, estadual e municipal) será essencial para a exequibilidade das ações.

De imediato, será instalada uma nova iluminação, para afastar os animais, e ainda, está em fase adiantada de contratação, equipamentos ultrassônicos para serem usados com a mesma finalidade.

Caso nenhuma das medidas dê certo, a outra opção requer mais recursos e é a troca da telha de cobertura das ruínas por uma translúcida. Almeida explica que no ato da entrega da cobertura, a telha era translúcida e feita do material policarbonato.  No entanto, o material apresentou dois problemas.

O primeiro deles foi que ressecou o material das paredes da ruína, que é poroso, causando o esfarelamento em alguns pontos. O segundo foi a durabilidade e custo para reparo. As telhas eram muito caras e não havia caixa para se fazer a troca de acordo com a perda.

Então, em 2017, o governo do Estado inaugurou a revitalização da cobertura das ruínas. O projeto contemplava um novo tipo de telha, a de zinco. O secretário relata que naquela ocasião foi solucionado o problema da quebra das telhas, porém o espaço escuro favoreceu a infestação de pombos.

“Desta vez estamos tentando fazer um trabalho conjunto e com todo respaldo técnico para termos soluções definitivas para o problema. E uma solução que seja aprovada pelas instituição e também pelos moradores. Parece simples, mas o assunto é complexo”, finaliza o secretário.

As ruínas

As ruínas da Igreja Matriz da Santíssima Trindade constituem um marco histórico da expansão colonial portuguesa. Mostram paredes em adobe de extraordinária espessura e alicerces com embasamento de cantaria em pedra canga.

Informações históricas tiradas do site IPatrimônio, o então governador Rolim de Moura e comitiva chegaram ao povoado em 1752 e, em 1771, foi iniciada a construção da Matriz da Santíssima Trindade. Tem-se notícias que, em 1775, houve uma primeira reconstrução face ao desmoronamento anterior, seguida de outra em 1793.

No início do século XX, quando o Marechal Rondon passou pela região, a Matriz ainda estava de pé, assim como o Palácio dos Generais localizados, ambos, em uma grande praça no centro de Vila Bela. Pouco a pouco, ambos os edifícios foram se deteriorando e a Matriz ganhou o aspecto de ruínas.

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