Cloroquina em debate: você sabe como é testada a eficácia de um medicamento?

Samyra Buzelle, doutora em Bioquímica pela USP, explicou ao LIVRE e comparou o remédio a uma quimioterapia

(Foto: Freepik)

O pedido de demissão do médico Nelson Teich do cargo de ministro da Saúde trouxe à tona novamente no Brasil a discussão sobre o uso da cloroquina para o tratamento de pacientes da covid-19. Em todo o país, médicos se dividiram entre os que são contra – assim como o ex-ministro – e os que são a favor.

Cerca de uma semana antes, um grupo de aproximadamente 15 cientistas e acadêmicos havia enviado uma carta aberta ao presidente Jair Bolsonaro. No texto, repleto de citações bíblicas, eles “clamavam” para que um protocolo – em que o medicamento é usado “precocemente” contra a doença – fosse aprovado pelo governo federal.

A carta cita superficialmente dois estudos científicos – um deles ainda não publicado, segundo os próprios autores do texto – que teriam atestado a eficácia do tratamento. Também seis países que, conforme os cientistas, teriam alcançado resultados positivos – ainda que eles não tenham sido detalhados na carta.

Mas, afinal, quais são as etapas de teste pelas quais um medicamento precisa passar até ser liberado para uma população?

A reportagem do LIVRE conversou com a professora e doutora em Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP), Samyra Buzelle, sobre isso.

Como “nasce” um medicamento?

Conforme Buzelle, quando uma molécula com potencial para se “transformar” em um medicamento é descoberta, quatro fases de testes pré-clínicos são necessárias antes dos testes em humanos.

Entre estas etapas está a testagem em animais: primeiro em ratos, depois cachorros e, por último, em macacos.

Quando um grupo de humanos é selecionado para os primeiros exames, eles têm que estar sadios. Só depois deles é que os testes em pessoas doentes – com a enfermidade que se pretende curar ou tratar – é selecionado.

Geralmente, este segundo grupo é pequeno. Conforme os resultados positivos vão aparecendo, grupos maiores vão sendo formados para novas etapas.

Na lista de reações que o potencial novo medicamento causa – além da possibilidade de cura da enfermidade –, são observados os efeitos colaterais, que também são divididos em quatro classificações. A última delas, os inaceitáveis, incluem, por exemplo, a chance de causar câncer ou má formação fetal.

Uma vez aprovado em todas essas etapas, o medicamento ganha autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser comercializado. “Mas isso não significa que os testes acabaram. Alguns medicamentos que já tinham sido liberados foram tirados de circulação porque só depois se percebeu efeitos indesejados”, destaca a professora.

(Foto: Ascom/Anvisa)

E a cloroquina?

O caso específico da cloroquina, a doutora Samyra Buzelle ressalta ser diferente. Trata-se de um medicamento que já passou por todas essas etapas de testes, mas com o foco para outras doenças. Portanto, muitas fases podem ser dispensadas de novos estudos contra o coronavírus.

Para saber se ela funciona em que contrai a covid-19, Buzelle afirma que o ideal é iniciar os testes em pacientes já doentes – como vinha sendo feito –, mas que o gargalo encontrado por esses pesquisadores tem sido a dosagem.

“A dose ideal de cloroquina é muito próxima da dose que já é tóxica para o ser humano”, ela pontua. Um fator que, para a doutora, é o que pode ter resultado na morte dos 11 pacientes em que os primeiros testes foram feitos no Brasil.

O estudo preliminar ocorreu em Manaus. Segundo informações da CNN Brasil, 81 pacientes positivos para covid-19 foram medicados com doses de cloroquina que variavam de 600mg duas vezes ao dia por 10 dia (a dose alta) ou uma dose 450mg por cinco dias, sendo duas vezes somente no primeiro dia de tratamento (a dose baixa).

Passados seis dias do início dos testes, as mortes começaram entre os que receberam mais medicamento.

Os pacientes que sobreviveram passaram a receber, então, todos doses mais baixas, mas o estudo em si acabou interrompido. A constatação foi da toxidade da cloroquina em altas quantidades e que seriam necessários mais estudos sobre o medicamento no caso específico da covid-19.

Quase uma quimioterapia

(Foto: Freepik)

Na conversa com a reportagem do LIVRE, a doutora Samyra Buzelle comparou a cloroquina com a quimioterapia para pacientes que têm câncer. “Os efeitos são terríveis, mas é usado porque não tem outro jeito”. Exatamente por isso ela se posiciona contra ministrar o medicamento em pessoas que não apresentem sintomas graves da covid-19.

Segundo ela, um dos efeitos colaterais mais comuns são os cardíacos. Os pacientes do estudo interrompido em Manaus, conforme a CNN, apresentaram quadros severos de arritmia ou batimentos cardíacos irregulares.

Uma situação que pode ser potencialmente letal para, por exemplo, pacientes que já compunham o grupo de risco ao novo coronavírus, justamente, por apresentarem problemas cardiorrespiratórios.

No caso das doenças que a cloroquina é apontada como tratamento “seguro”, Buzelle afirma que as dosagens diárias são bem menores. Adultos com Lúpus – uma doença autoimune – recebem inicialmente de 400 a 800mg por dia e depois evoluem para doses 200 a 400mg/dia.

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