|terça, 22 maio 2018

    Breve história da desglobalização

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    No período que podemos chamar de “globalização profunda” (1992-2008), o mundo parecia cada vez mais um livre mercado global, com democracias representativas em expansão e países se coordenando para blocos regionais.

    Se estes eram os objetivos, estamos mais distantes deles do que 20 anos atrás. As políticas industriais — e não apenas em países como Brasil, Rússia, Índia e China, mas mesmo na Europa e Estados Unidos — se tornaram mais restritivas à “exportação de postos de trabalho” e mais voltadas ao conteúdo local.

     

    Aquilo que o filósofo e cientista político Francis Fukuyama chamou de “fim da história”, ou que poderíamos classificar como “supremacia do Ocidente’, talvez ainda não tenha terminado, mas está em xeque.

    O “brexit” e Donald Trump são elementos novos na paisagem dos últimos meses, mas desde 2008 é crescente o risco de desglobalização.

    Trump quebra uma tradição histórica, em que a maior economia do mundo é também a voz mais potente na defesa do livre comércio. Não houve sequer um presidente americano, de Harry Truman (1945-1953) a Barack Obama (2009-2017), que não tenha defendido a abertura comercial.

    A primeira consequência dessa retração foi o abandono do TPP (Parceria Transpacífico), um acordo que envolvia não apenas tarifas e cotas, mas padrões e regras que se estendiam a áreas como a trabalhista, a ambiental, a propriedade intelectual e a de compras governamentais. Em paralelo, há uma política industrial “desglobalizadora”.

    Quando a General Motors não puder sair dos Estados Unidos para montar uma fábrica na Índia, isso representará uma reversão das cadeias globais de produção e da eficiência trazida pela lógica das redes de suprimento mundiais. Aí, temos o principal elemento dessa da “desglobalização”.

    Nesse contexto, uma guerra comercial passa a figurar como incomodamente possível. Se houver uma disputa cega entre as duas maiores economias do mundo —a dos EUA e a chinesa—, é plausível pensar que a lógica da escalada que conhecemos durante a Guerra Fria pode se reproduzir no âmbito do comércio, com imposição de tarifas punitivas e retaliações mútuas e crescentes.

    É um cenário perigoso, e os norte-americanos têm tanto a perder nesse jogo quanto os chineses e o resto do mundo.

    A tese esposada por alguns de que o Brasil vai sofrer pouco se houver uma guerra comercial é bobagem. Qual o principal destino das exportações brasileiras? A China.

    Se, por meio de barreiras unilaterais impostas pelos norte-americanos ou outro tipo de contencioso comercial, a perspectiva de crescimento da economia chinesa cair, isso vai afetar o preço das commodities brasileiras num primeiro momento e, provavelmente, resultar em encomendas menores.

    O argumento de quem acha que o Brasil sofreria pouco em um mundo menos globalizado se baseia no fato de que nossa economia já é fechada e nosso mercado consumidor é potencialmente grande.

    Mas a China dispõe de um mercado interno muito maior do que o nosso, mas todo o “milagre chinês” —maior resgate de pessoas da pobreza da história da humanidade— foi feito graças à globalização, com base na pujança das exportações e do comércio internacional. Não foi com base no mercado interno.

    Ademais, teoricamente, só é possível explicar pujança no mercado interno com economia fechada se observadas enormes expansões de produtividade do trabalho e do capital —que não existem no Brasil.

    Nossos ganhos de produtividade são baixíssimos comparados aos de outros países. Então, esta lógica não funciona. Ela é uma espécie de “desculpa estratégica” daqueles que não fizeram acordos internacionais. Se um acordo como o TPP vai a pique, tem que diga: “Está vendo? Não adiantava ter se mexido”.

    Minha aposta é a de que a desglobalização vai durar menos do que se está supondo. É verdade que Trump está com boas cartas na mão. O desemprego nos Estados Unidos está baixo, entre 4,5% e 5%,. O crescimento americano não é impressionante, mas aceitável pelos padrões da OCDE neste momento.

    Ou seja, Trump surfa ondas melhores que as que se apresentaram a Obama ou Bush. Não há uma crise bancária como a de 2008 nem uma crise de dívidas soberanas como a de 2011. E, no curto prazo, o mercado de ações reage positivamente às notícias de desoneração tributária.

    Se Trump promover um pacote de estímulo à infraestrutura, isso também vai gerar investimentos de curto prazo importantes. Mesmo o protecionismo que impede empresas americanas de sair dos Estados Unidos mantém empregos no curto prazo e tem efeito positivo, sobretudo do ponto de vista do consumo.

    Qual é então problema? Por que a desglobalização deve durar menos do que calculamos? Ora, os EUA, ainda protagonistas, vão perder capacidade exportadora, eficiência; vão dirimir os benefícios de contar com uma cadeia global de suprimentos. Tudo isso cobrará seu preço de uma maneira pesada para os Estados Unidos. Isso deve abreviar o ciclo de desglobalização.

    Num futuro nada distante, os números corporativos começarão a cair. Ficarão mais claros os custos do protecionismo, do conteúdo local, de uma política industrial sustentada na substituição de importações.

    Se houver, e essa hipótese é enormemente provável, uma retaliação por parte dos parceiros comerciais dos Estados Unidos, isso também afetará negativamente a performance global das empresas norte-americanas.

    Vamos supor que você seja um diretor de planejamento estratégico da Toyota, e estava cogitando montar uma fábrica de motores em Monterrey, no México.

    Como não sabe o que vai acontecer com o Nafta, você puxa o freio de mão do investimento. Isso não significa que a fábrica será montada em Kansas City. O investimento pode simplesmente não acontecer. A pausa é pior do que o pânico.

    E tal pausa pode machucar a economia dos EUA ao frear fluxos de investimentos estrangeiros diretos. E lembremo-nos se de que, mesmo para o capital chinês, o principal destino de investimento direto são os EUA.

    Isso quer dizer que, se houver um aumento das rusgas comerciais, não é apenas a troca de mercadorias a sofrer, mas também a corrente de investimentos. Tudo isso, no médio prazo, vai cobrar seu preço da presidência de Trump. Por isso, os custos de ineficiência da desglobalização vão conduzir o mundo, mais rapidamente do que se supõe, a uma reglobalização.

    Assinatura Marcos Troyjo

     

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