Alfabetização de adultos: uma oportunidade para os excluídos do dia-a-dia

Metade dos estudantes que se matriculam nos cursos e centros de Educação de Jovens e Adultos está no ensino fundamental

Ler jornal, receitas de bolo, pegar ônibus e conseguir um emprego estão entre os objetivos dos cerca de 60 mil alunos que frequentam as aulas nos cursos de Educação de Jovens e Adultos em Mato Grosso.

Conforme a Secretaria de Estado de Educação (Seduc), mais da metade do público está no ensino fundamental e os motivos da ausência ou falta de acesso à escola são muitos.

No caso de Alex da Silva Ferreira, 36, a exclusão foi justificada pelo fato de ele ser cadeirante. Quando ele era criança, as escolas regulares não o aceitaram porque tinham medo e argumentavam não ter estrutura para “especiais”.

Então, a mãe dele era conduzida para unidades específicas e destinadas a pessoas com deficiência. No entanto, lá, eles também não tinham espaço, porque estavam ocupados com “alunos em situações mais graves”.

Alex Silva Ferreira é cadeirante e quando criança não teve oportunidade de ser alfabetizado (O Livre)

Desta forma, Alex passou três décadas da sua vida sem saber ler – assistindo filmes na televisão e desejando ser o protagonista que está sentado na praça lendo jornal.

Retornou para escola há dois anos e fala que as sílabas começam a fazer sentido e ele sente orgulho de onde chegou. “Agora, não quero mais parar. E vou estudar até quando a escola me aceitar”.

À espera de uma oportunidade

A estudante Maria Natividade da Silva, 59, tem uma vida corrida. A rotina dela começa às 5h, quando acorda para fazer o café da família e organizar a casa antes de ir ao trabalho.

Ela é faxineira em um posto de saúde e pega pesado até as 17h.

Como a aula começa às 19h, precisa correr para casa. O tempo precisa ser bem distribuído para dar tempo de concluir o jantar, limpar a casa, tomar banho e seguir para a escola.

Voltar a estudar é a realização de um sonho para Maria, que morava no sítio quando era criança e naquela época não havia educação rural.

“Era difícil. A escola era longe, minha família não tinha como me manter na cidade próxima e, no final, acabei casando e tendo filhos. Aí, meu marido não me deixava estudar. Dizia que os filhos eram prioridade”.

Maria Natividade da Silva conta que tenta controlar a ansiedade de recuperar o tempo perdido (O Livre)

Maria conta com incentivou os 6 filhos a estudar e eles não chegaram à universidade porque não quiseram.

Após todos estarem adultos, ela ficou sabendo que o Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) Almira de Amorim Silva estava oferecendo vagas.

Chegou à conclusão de que era a hora de retornar e, agora, sem prazo para parar.

“Meu marido falou que eu estava velha para voltar às aulas. Mas eu sou uma mulher decidida e, quando ponho algo na cabeça, ninguém me segura”.

Na opinião da aluna, a parte mais difícil é a emocional. Ela diz que está sempre se cobrando, esforça-se para aprender e tem muita ansiedade e vontade de recuperar o tempo perdido.

“O professor já disse que não é assim. Ele conversa conosco, mas quero me dedicar ao máximo”.

Mudanças na vida cotidiana

Como já consegue ler pequenos textos, Maria se aperfeiçoou na cozinha porque consegue entender as receitas. Antes, fazia como achava que era porque tinha vergonha de pedir ajuda.

Também consegue escrever o nome certo, rápido e sem medo de errar.

“Ficava muito tempo desenhando as letras do meu nome. Não entendia direito o som das letras. Hoje vejo que meu nome é a palavra mais linda do mundo”.

Outra tarefa cotidiana que não representa mais um penar é pegar ônibus.

Maria identificava o coletivo pela forma da escrita e, apesar de morar no CPA 3, um dia pegou um ônibus errado e foi parar no ponto final do Capão Grande, em Várzea Grande.

“Já consigo ler todo o letreiro. Agora não corro mais risco”.