Uma cidade sem rumo: Cuiabá se espalha e esvazia sem plano diretor

Último plano territorial da cidade foi feito há 10 anos e, desde então, quase nenhuma meta inclusa nele foi cumprida pela prefeitura

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Administrar uma cidade – e fazê-la se desenvolver – é um trabalho que exige um “guia”, um plano diretivo baseado em estudos que apontem como estão e como podem ficar os principais setores que afetam a qualidade de vida da população; as metas a serem alcançadas ao longo dos anos. 

Especialistas em urbanização são unânimes em apontar um tripé básico: saneamento, saúde e mobilidade. E dizem mais, essas três áreas precisam ser pensadas e trabalhadas conjuntamente para que o resultado seja mais efetivo.

Por isso, depois de apresentar os planos de governo dos oito candidatos a prefeito de Cuiabá, o LIVRE conversou com especialistas em cinco áreas (urbanização, mobilidade, saúde, saneamento e educação) para descobrir do que realmente Cuiabá precisa. 

Urbanização 

A descoberta foi que as dificuldades da Capital de Mato Grosso não estão só no alinhamento das ações nessas áreas. Sequer existe um plano diretor atualizado que aponte a melhor direção que o próximo prefeito deve seguir. 

“Quando falamos de urbanização, nós estamos falando de várias questões que vão de regulamentação fundiária, distribuição da rede água e esgoto, construção de calçadas, transporte público de qualidade. Tudo isso reflete na saúde das pessoas e, consequentemente, na qualidade de vida”, diz a pesquisadora em planejamento urbano da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Doriane Azevedo. 

Com estudos publicados sobre a infraestrutura de cidades, Doriane afirma que o plano territorial de Cuiabá foi atualizado pela última vez em 2010 e que as ações previstas pouco foram adotadas pelos gestores que passaram pela prefeitura desde então. 

O documento traz análises importantes sobre a ocupação do território. Por exemplo, a existência dos vazios urbanos, que afetam diretamente os planos sobre o saneamento e a mobilidade. 

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

São espaços no perímetro urbano que não ocupação ou a titulação de propriedade. Moradores de mais de 50% dos bairros em Cuiabá não têm a situação de suas casas regularizadao que significa que acabam fora do radar de serviços da prefeitura. 

“Cuiabá cresceu e está se espraiando. Nós estamos vendo que construções de residenciais estão sendo autorizadas nas regiões para fora do centro urbano, enquanto que os vazios continuam sem serviço, no centro da cidade. Esse problema seria evitado se houvesse um plano territorial de guia”, afirma a pesquisadora. 

Efeitos no cotidiano 

O espalhamento de moradias para longe do centro urbano já ocorre ilegalmente desde da década de 1970, quando Cuiabá passou pelo boom populacional. Esse crescimento desordenado afeta outras áreas, como saneamento e saúde. 

O primeiro só começou avançar na execução da rede de distribuição há menos de uma década e alcança, hoje, pouco mais da metade população; já a cobertura da rede saúde pública continua um problema crônico.

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Doriane Azevedo inclui no rol de problemas acentuados a mobilidade urbana. As falhas vão, desde a falta de um sistema de transporte público de qualidade, a uma das piores condições, no Brasil, do tráfego para pedestres por calçadas irregulares. 

“Se a cidade está se espraiando, as pessoas estão tendo que se mover por longas distâncias para alcançar alguns serviços básicos. Se for considerado que esses serviços são de baixa qualidade e somados ao transporte público ruim, a situação só piora”, pontua. 

As reclamações sobre saneamento, transporte coletivo e o Sistema Único de Saúde (SUS) são já corriqueiras em Cuiabá. Coincidência? Não. 

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