Na política, mas não na eleição: por que elas preferem “os bastidores”?

O machismo e o jogo político fizeram Cleuza Dias desistir das disputas eleitorais, mas isso não significa que ela cessou uma luta

(Foto: Arquivo Pessoal)

Há 20 anos, Cleuza Dias, presidente do MT Mamma, entrou na disputa por um cargo eletivo. À época, foi convidada para disputar uma vaga ao Senado. Não foi eleita e saiu daquela campanha com uma certeza: não entraria na política partidária novamente. “É um jogo muito pesado, machista”.

“’Você é muito competente, apesar de ser mulher’. Se ouvia muito isso nos bastidores. Cheguei a ouvir de outro candidato que disputava comigo que eu deveria ser suplente dele”, ela conta.

Sete anos depois, em 2007, ela passou a “fazer política” de forma diferente. Iniciou a luta por regras justas para quem precisa de um tratamento de saúde. Surgia o MT Mamma, instituição que “nasceu” do diagnóstico de câncer nela própria.

“Eu corria atrás mesmo. Só que algumas pessoas não têm o mesmo conhecimento. Foi quando notei que era preciso uma fila e, principalmente, justiça. Passei a incomodar a ponto de me passarem na frente, para que não brigasse pelas outras pessoas”, ela lembra.

Hoje, a avaliação que ela faz é a de que consegue fazer mais nessa “política de bastidor” do que na partidária. “Ainda assim dependo do político, para dar voz, para que nossa voz seja ouvida. Mas, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

E a percepção de que não é preciso estar num partido e disputando um cargo eletivo para conseguir “mudar o mundo” é o que, para ela, faz com que a presença feminina nesse “tipo de política” seja bem maior do que na “política tradicional”.

“Nessa parte assistencial são mulheres que se sensibilizam e reivindicam políticas públicas”.

Um país atrasado

Estudos internacionais apontam o Brasil como um dos piores países em termos de representatividade política feminina. Ocupamos o terceiro lugar na América Latina em menor representação parlamentar de mulheres.

No ranking, a taxa é de aproximadamente 10 pontos percentuais a menos que a média global e está praticamente estabilizada desde a década de 1940. Isso indica que, além de estarmos atrás de muitos países, praticamente não avançamos nesse quesito.

“Sempre tivemos uma cultura de subjugar a mulher, a capacidade técnica delas. Propaga-se a ideia de que a mulher não pode ser maior que o homem. Os padrões sociais e religiosos pregam essa inferiorização. E esse processo passa, às vezes, até pelas próprias mulheres. Eu só voto em mulher há muito tempo”, Cleuza declara.

Em todo o país, 70 mil mulheres ocupam cargos eletivos, o que representa 12,32% do total de vagas. Os dados constam no Mapa da Política de 2019, elaborado pela Procuradoria da Mulher no Senado.

Em 2016, Mato Grosso era o 10º Estado com menor representação feminina nos cargos eletivos. Das 1.566 vagas, apenas 197 eram ocupadas por mulheres.

Em nível nacional, a situação não é diferente. Naquele ano, apenas um Estado era comandado por uma mulher. Hoje, quatro anos depois, o cenário é o mesmo: apenas o Rio Grande do Norte não é governado por um homem.

“A vida é política”, pondera Cleuza. “Por isso, é importante estar por dentro das decisões, do que está acontecendo. Isso influencia na vida de todo mundo”, ela completa, mas reforça: seu lugar não é na política partidária.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigo anteriorSocorro na pandemia: turismo foi o setor que menos recebeu dinheiro da União
Próximo artigoUma cidade sem rumo: Cuiabá se espalha e esvazia sem plano diretor