E hoje não foi diferente

Artigo de Marco Túlio sobre o ato de criar

Os Comedores de Batatas - Van Gogh

Quando eu começo a escrever, não tenho a menor ideia de como irei terminar. Na verdade, até tenho, mas depois que a história se inicia, é como se ela ganhasse vida própria. Certa vez Chesterton disse que o ato de criação é quase simultaneamente um ato de separação.

Isso significa que após a “gestação” de um texto, no seu “nascimento” há uma clara ruptura entre criador e criatura. É como se a obra, por mais gratidão que tenha a seu autor, agora tivesse vida e vontade própria. Não falo com propriedade de compositor, mas pelos relatos dos músicos é assim que acontece com as composições. Consigo até imaginar isso acontecendo em qualquer ato de criação.

Uma vez que a criatura está livre só temos a certeza de que tudo pode acontecer – o que nós imaginamos para ela e o que nunca nos passou pela cabeça.

Pode parecer pitoresco ou charmoso o ato de criar, mas, na verdade, não. Há muita angustia e incerteza antes. E falo isso da minha própria vivência. Não saber o resultado, a finalidade ou o destino de uma criação, às vezes, nos faz nem querer “dá-la à luz”.

Temos medo do destino da criação. Medo que ela se rebele contra nós. Medo que ela caia em esquecimento. São medos em cima de medos e mais medos. Inclusive, medo que a criação nos odeie.

Ora, com o livre arbítrio da criação, ela é livre para realizar todo e qualquer um dos nossos maiores medos. Como também é livre para nos dar a maior das alegrias. Sim, é possível também. Deixei as alegrias para o final.

Só haverá possibilidade da catarse se houver a possibilidade do desespero. Só haverá possibilidade de sorriso enquanto houver de lágrimas. Só haverá possibilidade de amor enquanto houver a possibilidade de ódio.

Dentre isso tudo, criar ou não criar? Eis a questão.

Na verdade, felizmente ou infelizmente, para quem tem esse chamado, não há escolha. Toda vez que eu fui contra esse chamado da criação me senti como se eu tivesse escolha, até perceber que eu teria, em tese, essa liberdade, mas seria infeliz. Se há um generoso caminho pavimentado para nós, muitas vezes até com o nosso nome, por que não ser grato e seguir esse caminho com o nosso melhor?

Quando eu começo a escrever, não tenho a menor ideia de como irei terminar.  Sempre foi assim, sempre será e hoje não foi diferente.

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