Quer criar uma startup? Especialistas dão dicas e alertas

A pergunta que ainda paira na cabeça de muita gente é: até que ponto elas são uma alternativa para quem quer empreender?

(Foto: Débora Brito/Agência Brasil)

O termo em inglês startup ganhou visibilidade quando diversas empresas de tecnologia cresceram e se transformaram em grandes negócios. E o nome se tornou sinônimo de empresas com uma forte base tecnológica e que inovam, seja em seus modelos de negócio ou no serviço que ofertam a consumidores.

Mas apesar de o nome ser vinculado a tecnologia, essas companhias atuam nos mais diversos campos, da agricultura ao mercado financeiro, passando pela educação e pela mobilidade urbana.

A pergunta que ainda paira na cabeça de muita gente, entretanto, é: até que ponto as startups são uma alternativa para pessoas que querem empreender?

Sem espaço para ingenuidade

Segundo especialistas, quem cogita adentrar esse mundo deve fazê-lo sem ingenuidade ou crença de que apenas uma ideia brilhante será suficiente para colocar em movimento um negócio bem sucedido.

Startup em números Brasil (Arte EBC)

A analista de inovação do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) Natália Bertussi destaca que, no começo, é fundamental a definição de qual problema essa nova empresa pretende resolver.

“Uma vez que ela saiba isso, poderá pensar na solução mais adequada. Pode ser algo relacionado a alguma ‘dor’ que ela viveu, a um problema em sua cidade, um problema de determinado grupo da sociedade, etc”, explica.

Para o fundador da aceleradora de negócios 100 Open Startups, nesta fase inicial o interessado deve conseguir responder três perguntas: “quem sou eu?”, “o que eu sei fazer?” e “quem eu conheço?”.

Ele chama a atenção de que, mais do que uma ideia brilhante, é fundamental a pessoa entender que tipo de empreendedor ela é, o que ela consegue realizar e que rede ela consegue mobilizar, de fornecedores a consumidores.

A partir daí, o novo empresário vai executando as ações e identificando os próximos desafios.

Formatando o negócio

Ao formular uma solução para um problema, o empreendedor precisa pensá-la como negócio, incluindo qual será o seu modelo, de que maneira vai comercializar o serviço ou produto, como e quem será remunerado na rede a ser formada e de que modo vai poder arcar com os custos de montagem e sustentação da firma.

Coordenador da incubadora do Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio de Janeiro (Cefet RJ), Marcelo Alencar alerta que é um erro comum não considerar essa dimensão desde o início. E um dos fatores que reforça esse problema é a ausência de conhecimento pelos empreendedores na área de gestão.

“O primeiro embate é como eu aplico meu conhecimento de forma que isso vire um negócio. O desafio seguinte é vender. Quando se fala em comercializar, o jovem simplesmente não quer ouvir. Esse entrave se alonga em todo o desenvolvimento. Quando ele chega no final e tem o produto, tem dificuldade de vender”, alerta.

Já o coordenador-geral de inovação do Ministério da Economia, Rafael Vandrei, ressalta que outro cuidado necessário é pesquisar o mercado onde pretende entrar e as startups que já estão funcionando nele. Uma das formas é buscar as bases já construídas sobre o ecossistema brasileiro na ABStartups.

Economia digital 2019 (Arte EBC)

“É muito importante que as pessoas interessadas em começar conheçam seus concorrentes. Tem um número alto de casos em que a pessoa acordou com a ideia e achou que só ela que formulou essa solução. Uma pesquisa pode poupar tempo, para não investir se já existem concorrentes atuando na área”, recomenda Vandrei.

Outra parte importante no estágio de formatação do negócio é a definição do público-alvo. “Você precisa saber para quem você vai vender. Porque você pode até ter uma boa ideia, mas direcionar seu esforço para o público errado”, pontua Marcelo Alencar.

Montando a equipe

Um percentual importante das startups tem sua força-de-trabalho composta dos próprios sócios. Mas o coordenador-geral de inovação do Ministério da Economia avalia ser importante ter no grupo pessoas com formações e habilidades diversas, de modo a fortalecer as competências da equipe e sua capacidade de dar conta dos desafios.

“As startups de sucesso contam com uma pessoa ligada à área de tecnologia, mas necessariamente precisa haver uma multiplicidade de competências. Isso incluiria, por exemplo, alguém da área de gestão. Você não vai só fazer a parte técnica, mas gerir a sua empresa e vender os serviços ofertados por ela”, ele frisa.

Segundo Marcelo Alencar, da incubadora do Cefet RJ, muitas vezes não há na equipe alguém que pense no dinheiro. “E isso causa outro problema: a pessoa idolatrar o produto que tem nas mãos, achando que se vende, que não precisa ter estratégia de vendas”.

Um relatório da consultoria McKinsey sobre a economia digital no Brasil, divulgado em 2019, apontou um índice alto de empreendimentos que não conseguem se manter no mercado: 66%.

Investimentos

Uma forma de potencializar o negócio é a procura por investimentos. De acordo com a analista de inovação do Sebrae Natália Bertussi, há diversas alternativas disponíveis, que precisam ser pensadas pelos responsáveis pela startup de acordo com as especificidades da sua empresa e do cenário onde estão inseridos.

(Arte EBC)

Uma das possibilidades é buscar financiamento de “Aceleradoras”.

“Aqui investe-se um valor, em troca de uma parte da empresa ainda em estágio inicial, apostando no crescimento rápido dela. Além do investimento financeiro, também se dá um apoio de orientação mais ativa para facilitar esse crescimento”, acrescenta Bertussi.

Mas Bruno Rondani observa que não adianta buscar investimentos se a pessoa não tiver recurso próprio e não fez nada.

“O primeiro passo é fazer algo que possa ser demonstrado e aí atrair algum recurso. Este  passo pode ser pequeno, questão de meses. Ele mostra que você consegue criar impacto. Mobilizou pessoas ou vendeu determinado produto ou serviço”, sugere.

Programas

E não somente no caso do investimento, mas na formação, aconselhamento e facilitação de conexões há programas disponíveis para quem deseja buscar apoio para alavancar seu negócio.

O Sebrae desenvolve uma série de iniciativas. As incubadoras e aceleradoras também são espaços importantes de equipes com experiência e que podem orientar interessados, desenvolvendo sugestões e alertas focados especificamente no negócio que o grupo quer desenvolver.

No plano federal, uma das opções se chama Inovativa, sob responsabilidade do Ministério da Economia. Conforme Rafael Vandrei, ela é centrada em capacitação e orientações, chamadas de “mentorias”, e em formas de conexão entre as startups e possíveis investidores ou compradores.

Mais de duas mil startups passaram pelo programa e 926 foram apresentadas para investidores.

Outro programa é chamado Startout, voltado a empresas mais maduras e com intuito de se colocar no mercado internacional. Uma determinada quantidade de empreendedores é preparada e levada em missões em diferentes países para conhecer o ecossistema daquela nação e conversar com investidores.

De acordo com o representante do Ministério da Economia, o governo federal deve lançar um novo programa, que será chamado “Centelha”. O objetivo será atuar com empresas mais iniciantes. “Ele vai pegar pessoas saindo da universidade. Antes de pensar num Trabalho de Conclusão de Curso, vai incentivar a pensar num projeto de startup”, conta.

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