O transtorno de adaptação no trabalho em tempo de pandemia

Mulher usa máscara de proteção na Central do Brasil, no centro do Rio 17/03/2020 REUTERS/Ricardo Moraes

Carla Reita Faria Leal*

Evandro Monezi Benevides*

 

Ao longo de sua existência, os seres humanos sempre estiveram expostos a transformações sociais, culturais e ambientais. Porém, nem sempre responderam de forma satisfatória a tais mudanças. Segundo estudiosos sobre o assunto, atualmente não apenas, mas principalmente as pessoas que desempenham atividades burocráticas ou administrativas, são propensas a um modo de vida mais seguro e, por isso, não conseguem se adaptar a grandes mudanças, o que lhes exige tempo e esforço.

Com o advento da pandemia da covid-19 e a necessidade de isolamento e de distanciamento social, a humanidade foi forçosamente conduzida a adaptar-se, em especial no trabalho. Atividades que antes eram realizadas apenas presencialmente passaram a acontecer de forma virtual. Aqueles que não tinham intimidade com ferramentas tecnológicas passaram a operá-las diariamente. Outros, que estavam acostumados com a companhia de vários colegas de trabalhos, tiveram que se conformar, reclusos em suas casas, a vê-los apenas pela tela do computador. É nesse contexto de mudanças compulsórias que algumas doenças mentais tendem a se desenvolverem, sobretudo no meio ambiente do trabalho.

O Transtorno de Adaptação, que na Classificação Internacional de Doenças (CID-10) é elencado com o código F43, pode ser definido, segundo Marilda Emmanuel Novaes Lipp[1], “como um estado de desequilíbrio do funcionamento psíquico e orgânico que ocorre quando o organismo necessita utilizar seus recursos psicobiológicos para lidar com eventos que exijam uma ação defensiva”. Assim, esse transtorno é desencadeado quando existem ameaças a homeostase (processo pelo qual o organismo mantém constantes as condições internas necessárias para a vida) ou ao equilíbrio interno do indivíduo, isto é, diante de uma situação inesperada ou estressante, sentindo-se ameaçado ou vulnerável, o organismo acaba afetado, gerando consequências a saúde física ou mental[2].

Tais circunstâncias bastante presentes no ambiente laboral, ainda mais considerando o cenário pandêmico que tem obrigado trabalhadores a se adaptarem a novas realidades de forma muito abrupta: morte de colegas de trabalho, demissões em massa, jornadas extenuantes, o próprio trabalho virtualizado como o teletrabalho e o home office que obrigaram os trabalhadores a conciliarem vida privada e profissional, dentre outros inúmeros fatores estressantes que tendem a gerar Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho (TMRT), dentre eles o Transtorno de Adaptação.

Ocorre que os trabalhadores que mais estiveram e ainda estão expostos a essa realidade são os denominados essenciais. Segundo o artigo intitulado  “Depressão, ansiedade e estilo de vida entre trabalhadores essenciais: uma pesquisa na web do Brasil e da Espanha durante a pandemia do COVID-19”, publicado em 2020 na revista científica Journal of Medical Internet Research por pesquisadores da Fiocruz, em parceria com a Universidade de Valencia (Espanha) e do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA)/Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a saúde mental de trabalhadores essenciais, como os da área da saúde, segurança pública e alimentação, está sendo duramente afetada durante a pandemia[3].

Segundo esta pesquisa, 47,3% dos trabalhadores essenciais apresentaram ansiedade ou depressão durante a pandemia da covid-19, no Brasil e na Espanha, sendo que 27,4% do total de entrevistados sofre de ansiedade e de depressão ao mesmo tempo. O estudo também aponta o abuso de bebidas alcoólicas entre os entrevistados, o que corresponde a 44,3% deles e 42,9% apresentaram mudanças nos hábitos de sono[4].

Isso demonstra que trabalhadores em condições laborativas sensivelmente alteradas pela pandemia estão sujeitos aos transtornos mentais relacionados ao trabalho, sendo necessária maior atenção ao desenvolvimento do Transtorno de Adaptação, que, como já mencionado, está intrinsicamente relacionado a condições estressantes no ambiente laboral. Assim, diante da necessidade emergente de garantir um meio ambiente de trabalho saudável e, ao mesmo tempo, corresponder com as mudanças nesta realidade pandêmica, aqueles trabalhadores, em especial os essenciais, que não estiverem aptos a lidar com tais mudanças e não tiverem tratamento adequado, certamente não poderão contribuir de forma satisfatória para o sucesso na luta contra a covid-19 e adoecerão.

Portanto, o cuidado e a atenção para com a saúde mental dos trabalhadores que sofreram mudanças radicais no ambiente laboral em decorrência da crise pandêmica representam uma questão de saúde pública, mais que isso, implica no respeito aos direitos humanos e fundamentais destinados a classe trabalhadora, dentre os quais o direito à saúde do trabalhador.

 

*Carla Reita Faria Leal e Evandro Monezi Benevides são membros do Grupo de Pesquisa sobre o meio ambiente do trabalho da UFMT, o GPMAT.

[1] LIPP, M. E. N.. Transtorno de adaptação. Boletim – Academia Paulista de Psicologia, v. 27, 2007, p. 72.

[2] Ibidem, p. 72.

[3] DE BONI, R. B. et al. Depression, Anxiety, and Lifestyle Among Essential Workers: A Web Survey From Brazil and Spain During the COVID-19 Pandemic. Journal of Medical Internet Research, v. 22, 2020. Disponível em: https://www.jmir.org/2020/10/e22835. Acesso em: 19. Jun. 2021.

[4] Idem.

 

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