O baixo impacto das publicações brasileiras de sociologia

Ficamos em último lugar entre 30 países que publicaram pelo menos 300 artigos na área, em 2017

Marcelo Hermes-Lima & César Gordon

Olá, pessoal. Quem acompanha esta coluna deve se lembrar das análises que realizamos das publicações em revistas nacionais nas áreas de Educação e de Saúde Pública. Fazendo um resumo dos achados, verificamos que para o caso das revistas de Educação (pesquisamos as melhores revistas nacionais), de cada 5 artigos publicados, apenas 1 recebe alguma citação acadêmica.

É muito pouco quando comparado com as melhores revistas do mundo da área, onde ocorre o inverso: de cada 5 artigos, apenas 1 não é citado! (Link 1) Na área de Saúde Pública, verificamos que a situação é um pouco “menos pior”. Na média, de cada 5 publicações, apenas 2 recebem citações (Link 2). Há um periódico nacional, a Revista de Saúde Pública, que apresenta indicadores bibliométricos equivalentes aos do primeiro mundo, o que é um alento; isso entretanto não ocorre na área de educação.

Quando olhamos o impacto das publicações brasileiras – que é medido em citações por publicação (CPP) – nas duas áreas, verificamos que estamos muito mal posicionados. Entre 33 países que publicaram pelo menos 300 trabalhos em saúde pública em 2017, estamos em 29º lugar no ranking CPP. O 1º lugar ficou com a Suíça, que apresentou um impacto 149% acima do nosso (CPP Suíça = 3,91; CPP Brasil = 1,57).

Podemos, entretanto, celebrar que ficamos na frente da Rússia! (CPP = 0,99). No caso da pesquisa em educação, ficamos em último lugar no ranking CPP de 39 países com pelo menos 300 publicações em 2017. O 1º lugar ficou com a Holanda, apresentando um impacto 355% maior que o nosso (CPP Holanda = 2,32; CPP Brasil = 0,51). Curiosamente, quando falamos em quantidade de publicações, não estamos “mal na fita”. Estamos em 9º lugar do mundo, com 1489 artigos publicados em 2017 em revistas indexadas ao Scopus (o 1º lugar em quantidade foi dos EUA, com 17,5 mil publicações).

Falemos de revistas de sociologia?

Vamos hoje falar das revistas de Sociologia. Da mesma forma que em Educação e Saúde Pública, a vasta maioria dos autores brasileiros publica em revistas nacionais. Publicam também livros, mas estes não estão na plataforma Scimago. Assim, procuramos as revistas de sociologia que estão na plataforma Scimago Journal Rank.

Essa plataforma combina revistas de sociologia com ciência política (são 1137 revistas no total). Aparecem 15 revistas brasileiras em 2018, sendo 4 delas no 2º quartil do ranking SRJ das revistas da área (o chamado Q2); 6 revistas são Q3 e 5 revistas são Q4 (as agências de fomento à pesquisa da Europa utilizam muito o sistema Q1-Q2-Q3-Q4 para pontuar publicações em praticamente todas as áreas do conhecimento). Selecionamos as 8 revistas do Brasil que estão melhor posicionadas no ranking SJR nacional de Sociologia e Ciência Política. A figura abaixo mostra dados brutos de 4 dessas revistas

Verificamos que cada revista nacional publicou de 78 a 204 trabalhos no período (média = 113,3 artigos), e receberam de 21 a 66 citações (média = 39,5 citações). O impacto dos artigos, medido em CPP, variou de 0,206 a 0,577, obtendo uma média de 0,361. O percentual de artigos citados variou de 42,3% (valor obtido pela revista Opinião Pública) a 12,7%, com valor médio de 25,1%.

Ou seja, em média, de cada 4 artigos, apenas 1 é citado (lembrando que estamos falando de média das 8 revistas – no caso da Opinião Pública, o resultado é melhor: de cada 5 artigos, 2 são citados). Quando verificamos os totais de artigos e de artigos com citação, temos os seguintes números: dos 906 artigos das 8 revistas apenas 213 receberam pelo menos 1 citação, sou seja, 23,5%.

Vamos agora olhar as revistas dos EUA (USA) e Reino Unido (UK). Selecionamos as 6 melhores classificadas no ranking SRJ. A primeira coisa que chama a atenção é a média de citações dessas revistas: 658,3. É um valor 16,6 vezes maior que média das revistas do Brasil, com 39,5 citações. As revistas de USA+UK publicaram em média 113 artigos no período, e a cada artigo recebeu em média 5,91 citações – valor esse 16,3 vezes maior que o dos artigos das revistas nacionais.

Outro ponto que salta aos olhos é o percentual de artigos citados: 88,7% em média (variando de 100% a 76,1%). Todos os valores das revistas de USA+UK (exceto a quantidade média de artigos publicada por revista) são drasticamente melhores que as revistas de Pindorama.

Tendo em vista a tradicional influência da Sociologia francesa no Brasil, e levando em conta que, nos últimos 30 anos, sempre houve um razoável intercâmbio de brasileiros realizando estudos de Sociologia na França, resolvemos avaliar também as revistas francesas na área. Selecionamos 6 revistas de Sociologia e Ciência Política que estão entre as melhor posicionadas no rank SRJ da França.

Como podemos ver, as publicações francesas apresentam indicadores bibliométricos muito semelhantes às do Brasil, com baixa quantidade de citações (média = 43,8 citações), pequena quantidade de citações por publicação (CPP médio de  0,488 – resultado muito fraco, de aproximadamente 1 citação para cada dois artigos) e pequeno percentual de artigos com pelo menos 1 citação (média = 30,2%).

As imagens abaixo ilustram comparações entre as publicações de revistas dos três grupos. Os resultados dos artigos do Brasil estão representados em verde, os de USA+UK estão em amarelo e os da França em azul. Um dos gráficos mostra a gigantesca diferença em quantidade de citações; outro mostra os valores de CPP.

O resultado que mais chama atenção é do percentual de artigos citados. Enquanto 9 de cada dez artigos das revistas anglo-americanas são citados, apenas 1 de cada 4 artigos de revistas brasileiras é citado. Os resultados dos artigos das revistas da França são muito parecidos com os do Brasil – baixo impacto. É um problema comum dos trabalhos de sociologia desses dois países. Nesse caso, dizer que seguimos o “modelo francês” para a área de sociologia não deve agradar o pagador de impostos.

Análise cientométrica

O Brasil não vai mal em quantidade de artigos nessa área. Publicamos 756 trabalhos indexados no Scopus em 2017, e ficamos em 13º lugar no ranking mundial de quantidade de artigos. Ficamos logo atrás da China (com 993 artigos) e na frente da Noruega, Dinamarca e Suíça em quantidade de artigos! O 1º lugar ficou obviamente com os EUA, com 11,7 mil artigos em 2017.

Entretanto, se fazemos um ranking de impacto, com os países ordenados em CPP, ficamos em último lugar, entre 30 países que publicaram pelo menos 300 artigos na área em 2017. Os valores de CPP do Brasil e da Dinamarca (1º colocado no ranking) foi 0,45 e 2,80, respectivamente. Os trabalhos do Brasil tiveram apenas 16% do impacto obtidos pelos da Dinamarca. Muito pouco!

E como ficou a França? Os trabalhos franceses de 2017 posicionaram-se em 9º lugar em quantidade (1307 publicações), mas ficaram em 25º em impacto (CPP = 1,02), entre 30 países. UK e EUA ficaram em 10º e 13º, respectivamente, no ranking de impacto.

Uma coisa que precisa ser esclarecida é que as publicações nas revistas de USA+UK não são necessariamente de autores daqueles países. Pois são revistas globalizadas, com autores de todos os principais países do mundo. Isso acontece com uma frequência muito menor nas revistas da França e Brasil, onde os autores são principalmente nativos de seus países.

Como ficou o Brasil em outros anos em termos de impacto? Em 2016: último lugar entre 28 países (listando países com pelo menos 300 publicações na área); em 2015: último lugar entre 22 países; em 2014: 18º lugar entre 21 países; e em 2013: último lugar entre 20 países. A série não é boa e tem se mantido relativamente inalterada.

Ah, saiu recentemente o resultado de 2018, e, ficamos novamente em último lugar no ranking CPP em sociologia, com apenas 18% do impacto do 1º lugar (Dinamarca). Um resultado pior que o 7×1 da Alemanha! Abaixo o link para os dados de 2018, confiram:

https://www.scimagojr.com/countryrank.php?category=3312&order=cd&ord=desc&min=300&min_type=it&year=2018

Como explicar o baixo impacto das revistas nacionais de sociologia?

Antes de listar os principais fatores responsáveis pelo baixo impacto científico dos artigos publicados nas revistas brasileiras de Sociologia e Ciência Política, cabem algumas breves considerações sobre o contexto da área e a natureza específica da sua produção no quadro mais amplo das demais ciências.

Em primeiro lugar é preciso lembrar que a grande maioria das revistas e periódicos de Sociologia e Política estão vinculadas a programas de pós-graduação, e que o grosso da produção dos artigos provém dos programas.  É importante observar também que, diferentemente das ciências físicas, matemáticas e naturais, o impacto geral da produção nas áreas de ciências sociais não pode ser verificado apenas pela publicação de artigos, mas deve contemplar também o impacto de livros, ensaios e obras de mais longo fôlego. Muitas vezes o impacto desses trabalhos mais extensos não é possível de ser avaliado no curto prazo, e eventualmente sua influência pode se tornar duradoura em intervalos de tempo maiores.

De todo modo, a análise do impacto das revistas permite delinear certas características importantes da área, que hoje vive o que podemos chamar de uma crise.  Esta crise está relacionada ao processo de expansão ocorrido nas últimas duas décadas. De 1998 a 2016, segundo documento da Capes, o número de programas de pós-graduação em Sociologia e Ciências Sociais (que incluem três disciplinas – sociologia, ciências sociais e política) aumentou em 86%, passando de 29 para 54. O período de maior crescimento aconteceu entre os anos de 2007 a 2010, como reflexo direto do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI).

Tal expansão não se fez acompanhar de medidas efetivas para garantir a qualidade da produção, apesar de alguns esforços pontuais neste sentido. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal (Capes) possui um sistema de avaliação periódica da qualidade dos programas de pós-graduação no Brasil, numa escala de conceitos que vai de 1 a 7.

Ora, dos 54 programas de sociologia somente três obtiveram a nota mais alta na avaliação mais recente da Capes em 2017.  E quase a metade dos programas – 22 dos 54, isto é mais de 40% – é avaliada com a nota 3 (essa é a nota mínima para programas em funcionamento – notas 1 ou 2 fazem com que os programas sejam descredenciados e fechados).

A distribuição regional desigual dos programas também não foi devidamente equacionada no processo de expansão. Cerca de 63% se distribui em universidades dos estados de sudeste e sul (44% de todos eles se concentra no sudeste), e apenas 37% se distribui em universidades dos estados do nordeste, centro-oeste e norte.

Tal concentração acaba promovendo dinâmicas de reprodução acadêmica, dificultando diversificação teórica, temática e inovações na área. Tudo isso em alguma medida reflete-se na produção – mas também na formação dos profissionais da área – e contribui para os resultados ruins que se verificam na análise de impacto das revistas de Sociologia.

Voltando aos números que apresentamos acima, é possível constatar que o principal fator do baixo impacto é a barreira da língua.  Uma rápida averiguação nas revistas analisadas permite verificar que a esmagadora maioria dos artigos é publicada em português. Em número bem abaixo, a segunda língua mais utilizada é o espanhol. Somente poucos artigos são publicados em inglês.

Note-se que esta característica explica igualmente a baixa performance das revistas francesas, comparável às brasileiras. Ali também a barreira linguística se coloca. Por razões que não são necessariamente as mesmas das revistas brasileiras, as francesas costumam dar primazia ao idioma nativo em detrimento da língua científica mais universal que é o inglês.

Sendo o fator preponderante, a barreira da língua não é, porém, a única culpada. No grupo de revistas brasileiras acima listadas, temos um exemplo claro de que outros fatores não linguísticos concorrem para o baixo impacto das nossas publicações. Trata-se da Revista Brasileira de Economia Política (RBEP, que também utiliza título em inglês: Brazilian Journal of Political Economy). Ela se situa no segundo quartil (“Q2”) do sistema Scimago de classificação de revistas acadêmicas, e com impacto (CPP=0,366) abaixo dos periódicos Opinião Pública (Unicamp, CPP=0,577) e Revista de Sociologia e Política (UFPR, CPP=0,46).

A RBEP conta com apoio privado e é uma das poucas revistas brasileiras da área com um alto volume de publicações em inglês. As edições dos anos 2019, 2018 e 2017, por exemplo, mostram uma divisão linguística equilibrada, sendo aproximadamente metade dos artigos publicados em inglês. Eventualmente mais da metade, a depender da edição (9 em inglês para 4 em português no volume 37 de 2017; 6 em inglês e 6 em português, no volume 38 de 2018).

O fator linguístico não foi o que fez a diferença neste caso. Podemos aventar a hipótese de que outros fatores, de ordem temática e teórica, também devem ser considerados.  No caso da RBEP o fator teórico parece preponderar, uma vez que a linha editorial da revista limita os trabalhos a abordagens keynesiana, desenvolvimentista, ou institucionalista, no âmbito da economia política clássica, o que possivelmente não desperta interesse mais amplo no campo científico.

Além disso, a Sociologia e as Ciências Sociais brasileiras possuem tradicionalmente uma tendência endógama, tomando como objeto preferencial os temas brasileiros e demonstrando, em geral, pouco interesse por assuntos e processos internacionais.  A exceção se faz dentro de algumas matrizes teóricas que se preocupam com análises comparativas no âmbito da América Latina. No quadro das discussões do Mercosul vemos o aparecimento de trabalhos sobre Argentina, países do Cone Sul, Bolívia, etc. Mas, no geral, a tendência da pesquisa em se limitar aos temas brasileiros está muito refletida nas publicações.

Porém, a ênfase em temáticas brasileiras não seria necessariamente ruim, não fosse acompanhada de baixa diversidade teórica e metodológica. Ademais, a concentração regional dos programas tem o efeito de criar grupos de pesquisa fortemente consolidados, que passam a ocupar presença hegemônica na área e ditar, em boa medida, os rumos das publicações.  O resultado é uma alta dose de repetição, reiteratividade e reprodução dos trabalhos.  Assim, embora a produção da área seja considerável em volume, ela se caracteriza por mesmice, redundância e relativa homogeneidade.

Concluindo, de maneira bastante sintética, poderíamos listar os seguintes fatores para o baixo impacto das revistas brasileiras de Sociologia: língua (número pequeno de publicações em inglês), temática endogâmica, reprodução de modelos teórico-metodológicos esgotados, baixa capacidade de criatividade e inovação. O esforço para melhorar a qualidade de nossa produção na área deve passar pelo enfrentamento e equacionamento dessas questões.

Link 1:   https://olivre.com.br/no-brasil-80-das-pesquisas-em-educacao-sao-desconsideradas-pela-comunidade-academica

Link 2:  https://olivre.com.br/o-limitado-impacto-da-producao-cientifica-brasileira-em-saude-publica

Apêndice: O índice Qualis (Capes) das oito revistas nacionais avaliadas nesse artigo.

 

3 COMENTÁRIOS

  1. Qual seu objetivo com esse artigo? já antes da metade percebi que busca tão somente desqualificar o trabalho dos cientistas brasileiros os comparando ao de países desenvolvidos. Oras, isso nem faz sentido! Veja bem: para finalmente escrever um artigo, após um ano de pesquisa, o cientista brasileiro recebeu atrasado sua bolsa durante todos os meses – isso se ele tiver bolsa – e pasme, nem um segundo de seu tempo é contado pelo INSS. E pro estudante que tá na graduação escrevendo para os congressos? Pior ainda!, precisa desenvolver a pesquisa paralelo aos estudos de todas as outras disciplinas, que não são poucas, muito menos leves…
    Então, invés de fazer esse desserviço de péssimo gosto criticando o trabalho dos outros, que tal ficar feliz por – apesar de todos os contratempos – estarmos entre os 30 com mais citações no mundo? e não é só isso, como você mesmo disse, estamos entre os que mais produzem artigos também. Portanto, louve este número que nos apresenta enquanto há tempo, pois mês que vem o CNPq não terá mais recursos pra novas bolsas e nossos rendimentos tendem só a despencar. Concluindo, como você disse, “de maneira bastante sintética” (taí uma frase que, se usar num artigo, de fato não conseguirá nenhuma citação) o problema das publicações brasileiras nunca esteve no português que escrevemos, nem na criatividade dos nossos pesquisadores, mas na falta de investimentos com eles, estes dados sim é que devem ser analisados. Depois disso, quando tiver realmente algo a dizer, reescreva seu artigo a serviço da ciência brasileira.

  2. Não entendi o comentário criticando a análise. Até onde percebi é uma abordagem científica, apontando números e possíveis causas. Não percebi nenhum tom jocoso nem um ataque aos cientistas brasileiros. Simples assim.

  3. Pedro Mutzenberg, o objetivo do artigo é justamente encontrar caminhos para aumentar o impacto da ciência brasileira, o pouco que se investe se mostra improdutivo, o artigo evidencia isso. Ficar elogiando o esforço dos autores brasileiros não vai melhorar a qualidade destes. O artigo aponta os problemas, a partir destes, e com a colaboração de outros, pode se buscar as soluções, isso sim colabora efetivamente para tornar as publicações brasileiras relevantes. Torná-las relevantes não é uma questão de ego ou de orgulho, mas para que tragam resultados práticos para o Brasil e quiçá, para o mundo, o que resulta em desenvolvimento e melhora do bem estar da sociedade.

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