Moçambicano que “esculpe universo feminino” já se inspira pela iconografia local

Entre as esculturas que representam o empoderamento feminino e exaltam a beleza da mulher negra, já começam a surgir símbolos cuiabanos, como a viola de cocho

Cuiabá é, momentaneamente, a base do escultor moçambicano Hermínio Luis Nhantumbo, que está na cidade a convite do Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso, o Imune.

Desde que chegou, tem circulado por centros culturais e quilombos de cidades da Baixada Cuiabana, para ministrar oficinas de arte previstas por um projeto do Imune, em parceria com o Instituto Federal de Mato Grosso.

Na madeira, Nhantumbo imprime as subjetividades do empoderamento feminino, exaltando, especialmente, a beleza das mulheres negras. Ele conta que está apenas de passagem, mas outras oportunidades de trabalho podem estender sua temporada na cidade. Logo, deve retornar ao país de origem.

O artista usa a arte, uma linguagem universal, como instrumento de transformação social e política. “Na escultura, foco meu trabalho no empoderamento feminino. Eu particularmente, acho que elas têm que ganhar cada vez mais força. E o que eu prego é o amor. Uma mulher não é propriedade do homem, ela tem que ser respeitada. Quem olhar para as minhas peças, certamente que homens ou mulheres verão nelas, a singularidade da alma feminina”, diz ele.

E nas oficinas, repassa o valor da cidadania e dos princípios morais aos alunos, na teoria e na prática. Como matéria-prima aposta na utilização de madeiras já mortas. “Reaproveito madeiras que encontro, nem um galho sequer é arrancado da natureza”.

“Vingando” o passado

Resgatando sua história de vida, Nhantumbo acredita que está cumprindo uma missão em nome de um grande amigo que foi vítima da violência em um período cruel vivido pela população do Moçambique. A propósito, foi este amigo, Alexandria Pereira, quem o ensinou tudo que aprendeu e realiza em 20 anos de aprendizado da arte de esculpir madeira.

Ele conta que à época, os moçambicanos sofriam com a atuação de bandidos que “engomavam” as vítimas com ferro de passar na pele. “Eles roubavam as residências e deixavam essa ‘etiqueta’ na pessoa. Alexandria, voltava da casa depois do toque de recolher que foi definido pelos moradores do bairro. Como os moradores achavam que a polícia não estava dando conta, eles passaram a realizar uma patrulha. Em uma destas, foi morto, confundido com um destes bandidos”.

Nhantumbo relembra que o amigo se preparava para uma exposição em São Paulo. “Ele sonhava em conhecer o Brasil”. Um tempo depois a polícia conteve as atividades criminosas.

Aprendendo com a iconografia local

Em sua terra natal, Nhantumbo é também cantor, bailarino, dramaturgo e ator. Ele é da etnia chop, que vive ao sul de Moçambique. Em Cuiabá, muito bem acolhido com calor humano e altas temperaturas, brinca que podia ser um pouquinho mais fresquinho, mas conta que já está se acostumando.

“Sinto-me em casa, especialmente pela relação histórica de respeito que o Brasil tem com Moçambique. É uma ligação ancestral, países irmãos, mesma colonização, unidos pelo português. Enfim, surgiu esse convite e eu me sinto muito honrado. Para mim virou um desafio, uma maneira de vingar o desejo que ele tinha de vir para cá”.

A vivência em terras cuiabanas, a propósito, já lhe inspira. Com o uso das ferramentas já começa a esculpir símbolos da iconografia local, como o jacaré, a onça e a viola de cocho. “Tenho muito a aprender. Ao certo que a minha arte sai renovada”.

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