Dono de sebo pioneiro da capital, Sansão anuncia que “é hora de descansar”

Loja na Rua Joaquim Murtinho, sempre foi frequentada por artistas, intelectuais e colecionadores. Agora, ele está "passando o ponto"

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

A venda de discos de vinil caiu no Brasil em meados de 1990, abrindo mercado para o CD. E foi no fim dessa década que Sansão Ferreira Bastos, 65 anos, abriu o primeiro sebo voltado à comercialização de discos em Cuiabá. Para ele, depois de 21 anos no ramo, uma coisa é certa: “quem curte LP, vai sempre continuar a comprar; na Europa mesmo, nunca pararam de produzir”.

Para reforçar a tese de quem conhece a alma dos colecionadores, o formato conquistou novas gerações e, há cerca de cinco anos, ressurgiu com força. Mas o novo boom, não tem sido suficiente para estimular este pioneiro a continuar no negócio.

Quem passa pela rua Joaquim Murtinho e percebe a faixa “passa-se o ponto” no Sebo Rock e Cia se nega a acreditar.

Mas Sansão, o dono da loja, ameniza a decisão com um apelo: “eu não estou fechando, estou vendendo. E eu queria muito que alguém continuasse, porque está tudo aqui, pronto. Se chegar alguém com uma ideia inovadora, mexer no espaço, mudar a instalação, vai bombar”, defende.

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Acontece que Sansão está cansado. Ele contou ao LIVRE que deve se mudar para Belo Horizonte (MG) para viver perto da filha mais velha, onde já tem até lugar para morar. “Depois que minha esposa faleceu [Francisca], eu desanimei muito, porque era ela quem administrava tudo. Então, cheguei à conclusão de que deveria parar. Chega uma hora que você tem que descansar”, explica.

Atualmente, ele mantém a loja com a ajuda do filho Iran Roger, de 16 anos. A clientela lamenta e os amigos se preocupam.

“Muita gente me fala: se você vender isso aqui você vai adoecer, cara”, conta Sansão. Mas ele ressalta que não tomou essa decisão por inviabilidade do mercado: “tenho um público muito fiel de rock, acho que somos uma das únicas lojas que ainda vendem CD”.

Tanto é que seus clientes mais antigos já deram início a novos negócios. Caso do colecionador Edson Xavier, proprietário do Raro Ruído, sebo do Boa Esperança. “O Edson foi o primeiro que comprou de mim. Eu ainda estava com a porta abaixada, arrumando as mercadorias. Hoje ele ainda vem direto, mantendo contato, fazendo negócio”, conta Sansão.

Sansão e o filho Iran (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Duas décadas de referência

Frequentada por colecionadores, músicos e intelectuais – clientela que chama de amiga – a loja de Sansão é referência em Cuiabá quando o assunto é raridades. Discos em diversos formatos, sucessos mundiais, nacionais e até locais. Bandas e músicos marcantes na história da música mato-grossense, como Strauss, Papo Amarelo e Bolinha, podem ser adquiridos em seu sebo. “Temos CDs que as vezes nem a própria banda tem”, ressalta Sansão. Rock é a especialidade.

Francisco Alencastro, 86 anos, é um dos colecionadores assíduos que estava visitando a loja quando a reportagem estava por lá. De família tradicional cuiabana, o irmão do historiador Aníbal Alencastro, contou: “desde que ele abriu eu venho aqui”. Sansão endossa: “quando começou a frequentar não tinha nem ruga”. O clima é de descontração e Francisco retruca: “tá me chamando de velho?”.

Francisco Alencastro, 86 anos, é um dos clientes mais antigos de Sansão (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Há duas décadas, o sebo já era um sucesso. “Foi uma febre, eu enchia várias latas de leite ninho de dinheiro”, brinca. Antes, já era músico e trabalhava como distribuidor de produtos diet em atacado. Foi procurando um CD do Bon Jovi para presenteara filha, em São Paulo, que ele encontrou o mercado de usados. “Conheci o segmento de sebos e quando cheguei de volta em Cuiabá, não pensei duas vezes”.

Especialmente os discos de vinil da loja também são procurados por colecionadores e todo país. Apesar disso, 80% do faturamento vem das camisetas e acessórios das franquias Consulado Rock e Marrocos.

“Também tenho uma boa clientela de educadores que, especialmente em datas comemorativas, é aqui que vem buscar esses materiais. Cururu e Siriri, músicas regionais, eu tenho mais que na Casa de Cultura. Já vendi material até para estudiosos da Alemanha… Acho que se fechar aqui, Cuiabá terá um grande prejuízo”, reflete Sansão.

Inventor de gambiarras

A loja de Sansão é um abrigo de memórias. Além de raridades, ele guarda histórias inusitadas que adora contar.

“Certa vez um cliente comprou um LP escrito algo do tipo: meu amor, com carinho. Quando esse cara chegou em casa, menina… Ele teve que ligar aqui e eu tive que explicar que quando compramos coisas usadas, elas geralmente vêm assinadas, com dedicatória. Porque não adianta, quando o cara quer um vinil, se tiver em bom estado, não importa o que está escrito”.

Com suas “gambiarras”, Sansão grava e converte áudio em diversos formatos (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

De antiguidade, Sansão entende bem. Seus talentos são coisas raras: ele restaura discos e, conectando equipamentos a um computador, converte áudio em diversos formatos, o que ajudou multiplicar os serviços da loja. “Ele tem as gambiarras dele, coisa de velho”, brinca o filho Iran.

“Essa é uma coisa que a gente faz nesses 20 anos. Converte vinil para CD, pendrive… Fita cassete também para pendrive, DVD…. Qualquer tipo de gravação em áudio eu também faço. Recuperar imagem é com o velhinho louco da Joaquim Murtinho”, explica.

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Sansão inventou até máquina de recuperar CD: “Eu lixo, depois dou uma polida e ele volta ao brilho normal, deixo zerinho”, explica. Assim, ele já promoveu encontros com o passado.

“Uma vez um engenheiro tinha montado um projeto para uma construtora daqui, mas o CD saiu, ele pisou e riscou. Ele teria que voltar lá no Rio de Janeiro, em uma época que não tinha internet, para fazer outra cópia e voltar pra Cuiabá. Saiu daqui da loja sem pegar troco nem nada”.

“É gratificante, o dia passa em 10 minutos. Você revolve cada coisa… Deixa os velhinhos tão contentes, os jovens também. Porque a música é momento né? Se você ouvia Xuxa quando era criancinha, quando você ouve a música Xuxa você volta lá na mamadeira!”.

Mesmo com todo desabafo, clientes e amigos torcem para que Sansão volte atrás. E que a música nunca pare de tocar em seu sebo, sob seu comando.

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