De “menino autista” a “Felipe, o baterista”: conheça a história da família Oña

História de Felipe mostra como a música pode ajudar crianças - e famílias - que se encaixam no espectro autista

No último dia 27, um vídeo publicado nas redes sociais mexeu com as estruturas de parte da comunidade musical brasileira. A produção mostra ao povo um herói. Mas não se trata de um personagem portando uma longa capa e que se esconde atrás de uma máscara para combater o crime. É um herói diferente.

No depoimento dado à escola de música Bateras Beat Cuiabá, ele diz que foi, por muito tempo, chamado de “O Menino Autista”. Mas eis sua verdadeira identidade: Felipe Oña.

Sua idade? 10 anos. Seu poder? Vencer. Por quê? Pois ele se encaixa no espectro autista, transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades na comunicação, na interação social e no aprendizado. Porém, sua história revela sucessivas vitórias em cima disso.

Esse histórico de vencedor começou quando ele tinha apenas 2 anos. Felipe não tinha o costume de brincar fora de casa. Não é que não gostava de atividades ao ar livre. O obstáculo era a traqueostomia à qual estava submetido. Isso limitava sua respiração.

A situação foi contornada por seus pais, Luis e Cely, professores universitários, que o presentearam com uma bateria de brinquedo. Assim, seria possível gastar as energias forçadamente conservadas devido ao procedimento cirúrgico nas tenras vias aéreas do menino.

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre)

Descoberta dos sons

Luis relatou ao LIVRE que a sugestão de incentivar seu filho a praticar música desde cedo foi dada por uma fisioterapeuta integrante de uma equipe multidisciplinar.

“Com a música ele passou a ter maior contato com o mundo, pois, no começo, ele tinha um autismo não-verbal”, disse o professor. Felipe também “passou a se interessar por sons”. Segundo seu pai, “ele se comunicava apenas com ASL (American Sign Language) e, então, descobriu, com os sons, os idiomas”.

Graças a essa descoberta sonora, Felipe abraçou a oportunidade de aprender inglês, português, espanhol, russo e alemão, além de ter obtido noções básicas de outros vernáculos.

Também passou a se interessar ainda mais por música. Em entrevista ao LIVRE, Felipe Oña disse que toca bateria, piano e xilofone. “Eu escolhi a bateria por causa do som dos pratos, o piano [porque] gostei das cores das teclas e o xilofone porque parece um arco-íris”, revelou o músico mirim.

A influência da música

A música é uma grande aliada no desenvolvimento da comunicação, da expressão e do aprendizado. À combinação entre essa arte e tratamentos clínicos é dado o nome de musicoterapia, prática cada vez mais presente na atualidade.

A musicoterapeuta Mariana Nunes, em conversa com o LIVRE, explicou como a recorrência nas aulas de música pode ajudar no tratamento das pessoas dentro do espectro autista.

“[A música] torna esses momentos de interação social prazerosos, o que ativa o sistema de recompensas do cérebro”, disse Mariana. “Isso faz com que a gente queira fazer essas atividades cada vez mais. A pessoa vai a uma aula, gosta da aula, quer ir de novo e quer treinar em casa, pois é prazeroso. Assim, ela se engaja mais no processo e, consequentemente, consegue se desenvolver.”

Segundo a musicoterapeuta, esse desenvolvimento acontece devido à neuroplasticidade do cérebro, algo inerente aos seres humanos. Esse órgão vital se modifica de acordo com as atividades praticadas, fortificando-se. Nesse sentido, a música é responsável por desenvolver todas as áreas do cérebro. Isso acelera o desenvolvimento das habilidades de interação e de aprendizado das pessoas, inclusive aquelas com autismo.

Isso pode ser comprovado pelo próprio Felipe Oña. Ele conta que melhorou em sua vida após estudar música: “eu deixei de ficar nervoso e comecei a usar a voz, a ganhar força na voz”.

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre)

Conselhos de heróis

Concluindo, o herói musical deu dicas preciosas para quem quer aprender a tocar instrumentos musicais. “Se for piano, você pode ir experimentando os sons das teclas”, aconselhou Felipe. “Se for na bateria, pegar a baqueta a mão direita no chimbal e a esquerda na caixa. No xilofone, você pode usar as duas mãos. No canto, você pode usar voz suave.”

Luis, pai de Felipe Oña, também forneceu valorosas contribuições sobre como lidar com filhos que se encaixam no espectro autista.

“Minha recomendação é ver e ficar atento aos estímulos que seu filho precisa e aos quais responde”, disse Luis, “sempre fornecendo aquilo que ele precisa e também proporcionando pequenos desafios.”

O professor universitário também deixou claro que o essencial é “comemorar TODA pequena vitória todos os dias”.

E uma grande vitória comemorada por Felipe Oña e seu pai Luis envolve aquilo que o pequeno músico revelou no vídeo publicado semanas atrás e reproduzido em diversos cantos do Brasil: sua alcunha de herói. Aquele que antes era chamado de “O Menino Autista”, agora é conhecido por outros nomes, tais como “O Felipe Cantor”, “O Felipe Baterista” e “O Felipe Vencedor do Show de Talentos do Colégio Ibero-Americano”.

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