Coronavírus mostra países empobrecidos – mas unidos

O coronavírus expõe de forma aguda a nossa interdependência e mostra a ausência de planos de contingência em nível global

ONU: a crise em nível global demandaria respostas globais (Foto: ONU/Rick Bajornas)

Com o coronavírus espalhado pelo planeta, temos hoje, no meio da incerteza, vários fatos. Em primeiro lugar, o imenso custo da reversão da globalização.

A economia do vírus é uma economia empobrecida. Longas cadeias de fornecimento construídas durante décadas estão agora interrompidas. Um carro, um computador são constituídos por centenas ou milhares de componentes. Basta a falta de um para interromper toda a produção.

E em muitos casos são os componentes considerados mais irrelevantes que são dominados por um ou poucos produtores de uma região específica, em muitos casos na China.
Setor mais vulnerável

Anos de paradigmas de gestão, como minimização de estoques e produção just in time, sofrem agora com a falta de redundância. Mas se a fragilidade do setor industrial está hoje exposta, o setor de serviços, que constitui mais de 70 ou 80 por cento da maioria das economias, vive da interação humana.

Restaurantes, hotéis, varejo e turismo em geral são particularmente vulneráveis às medidas de quarentena impostas por diferentes governos. No meio de todos os efeitos negativos do coronavírus, apenas o clima e o setor de aplicativos on-line parecem se beneficiar com a atual situação.

Se quisermos olhar para lá do coronavírus, temos que nos virar de novo para a China e para o seu caminho de recuperação. A retomada no gigante asiático parece ser lenta, agravada pela falta da demanda global por muitos dos seus produtos e, portanto, no resto do globo a prudência nos diz que a recuperação irá também ser gradual.

Medidas paliativas

Ao contrário de outras crises, em que medidas de estímulo à demanda seriam a receita mais adequada, nesta crise é muito importante assegurar meios financeiros a empresas industriais e de serviços para que a interrupção temporária da sua atividade não se transforme em encerramento.

Este é um domínio onde a política monetária por si só tem muita dificuldade em produzir efeitos, mas onde políticas bem concebidas ao nível orçamental podem em muito mitigar os efeitos da crise.

A boa notícia aqui é que o custo para os Governos é relativamente baixo, dado o nível das taxas de juro na maior parte das economias. No Brasil, o BNDES pode ter um papel muito importante, em conjunto com o Governo, em estruturar esses instrumentos de apoio às empresas afetadas pela pandemia do coronavírus.

Esta crise expõe também as dificuldades de governança em nível global, que se agravaram nos últimos anos. Instituições e fóruns como o G7, G20, ONU e BRICS deveriam desempenhar um papel importante na coordenação de medidas e políticas em nível global. No entanto, estão totalmente ausentes de qualquer discussão sobre o assunto.

As respostas são exclusivamente nacionais para um problema que claramente carece de um quadro global de solução. A OMS desempenha uma função crítica no controle da pandemia, mas é pouco como resposta global.

Países mais próximos

Numa entrevista publicada em 2015, Bill Gates afirmava com presciência que dos riscos globais que o mundo enfrentava, o único que verdadeiramente temia era uma pandemia à escala global.

Felizmente, ao contrário da gripe espanhola de 1918, o coronavírus não apresenta os mesmos riscos de mortalidade, mas expõe de forma aguda a nossa interdependência e mostra a ausência de planos de contingência em nível global para mitigar os seus efeitos.

Essa crise tem tudo para ser aguda, mas relativamente limitada no tempo nas suas consequências. Da mesma forma que em nível global no pós-2008 se desenharam políticas de reforço do sistema financeiro, é necessário pensar como planejar a resposta a crises futuras nomeadamente a nível dos sistemas de saúde.

Fica claro que nesse jogo pendular que decorre ao longo do tempo entre Governos e mercados, a população vai demandar mais governo em vários níveis, a começar pelo investimento no sistema de saúde.

Por último, a distância que parecia ser grande entre as democracias ocidentais e a China na abordagem ao coronavírus se reduziu consideravelmente. Em tempos de crise, descobrimos que o que nos une é muito mais do que o que nos separa.

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