Caso Isabele: médico diz que “ambiente estava muito limpo para situação tão grave”

Falta de sangue ao redor de corpo de Isabele chamou a atenção de neurologista amigo da família, que atestou morte da adolescente

O neurocirurgião Wilson Guimarães Novais, amigo dos pais de Isabele Guimarães Ramos, 14 anos, para quem a mãe dela pediu ajuda no dia que a menina foi alvejada na cabeça, disse em depoimento que “algo muito estranho aconteceu no local” e que “o ambiente [onde o corpo foi encontrado] estava muito limpo para uma situação tão grave”.

Segundo o depoimento, realizado no dia 31 de julho, ao delegado Wagner Bassi Junior, da Delegacia do Adolescente (DEA) de Cuiabá, para Novais a falta de sangue ao redor do corpo de Isabele seria incompatível com o local onde ocorreu o tiro que a atingiu.

Segundo ele, o tiro deveria ter causado grande sangramento da cabeça da adolescente – já que a bala entrou pela região do nariz dela e saiu pela nuca.

Wilson era sócio do pai de Isabele, falecido em junho de 2018, desde antes de ele se casar com Patrícia, a mãe da adolescente. Neurocirurgião, ele trabalha em hospitais públicos e privados de Cuiabá.

No dia 12 de julho, quando o suposto acidente com Isabele aconteceu, recebeu uma ligação de Patrícia às 22h12. Ela estava desesperada, chorando, alterada emocionalmente e pedia a presença do neurocirurgião.

Às 22h24 ele chegou à casa dos Cestari, antes da polícia, mas com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) já presente no local, assim como a Perícia Oficial e Identificação Técnica (politec).

Ele falou rapidamente com Patrícia e pediu para que o médico do Samu o acompanhasse até o banheiro onde estava Isabele. Juntos, os dois médicos atestaram a morte da adolescente.

Isabele não resistiu e morreu no local (Foto: arquivo pessoal)

Ele notou que a menina estava com os olhos entreabertos, que havia resíduos de pólvora e respingo de sangue no rosto dela e que apenas a cabeça dela estava na parte molhada do box do banheiro e o resto do corpo na parte seca.

O que mais chamou atenção do médico, porém, foi que ele não viu sangue ao redor do corpo de Isabele, apenas dentro do box.

Este fato chamou atenção do declarante, pois, sendo neurocirurgião, esperava-se que o ‘projétil’ deveria ter provocado muito mais sangue disperso no ambiente“, diz trecho do depoimento.

Novais disse, ainda, que o local onde Isabele levou o tiro é uma região bastante vascularizada, na base do crânio, onde tem a presença de bastante veias e artérias. O que provocaria um sangramento instantâneo e brutal, de grande mota.

Luzes apagadas

Mais adiante, no depoimento, ele fez questão de reiterar que “o ambiente estava muito limpo para uma situação tão grave, pois, para o declarante, que está habituado a receber pacientes com tiro no crânio, o ambiente era para estar com muito mais sangue, em função da pressão que as artérias, veias, jogam o sangue para fora. Que o ambiente estava muito arrumado, que não é normal em situações com lesões na cabeça“, consta em trecho do depoimento.

Ele notou também que as luzes do quarto e do closet estavam apagadas, havia apenas uma luz fraca do banheiro acesa, o que era incompatível com algo tão grave que havia acontecido.

Após poucos minutos em que o neurocirurgião estava no banheiro, porém, o até então advogado da família, Rodrigo Pouso, entrou no banheiro apavorado e perguntou quem ele era, e teve como resposta que era um médico amigo da família da vítima.

Depois disso, ele encontrou a mãe de Isabele, Patrícia, no closet, e disse para ela se retirar, pois o ambiente não era bom para ela. Em seguida, a Polícia Militar chegou e os policiais lacraram o local com fitas.

Quando desceu, ele viu Marcelo Cestari, a esposa e o filho do sexo masculino. Na sequência, encontrou os tios de Isabele e disse: “Algo muito estranho aconteceu aqui. A Isabele está morta por um tiro no crânio e não há arma no local do crime“.

Familiares e amigos, então, começaram a indagar Marcelo sobre a arma do crime, que não respondia, até que houve uma discussão entre Marcelo e a família de Isabele. Segundo Novais, Marcelo se mostrava nervoso e agiria com arrogância.

Depois que a PM isolou o local e o Samu foi embora. Dois homens, policiais civis à paisana então chegaram e ficaram no local atuando como seguranças de Marcelo. Os dois chegaram bem antes da equipe da Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) e da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), e “ficaram em postura intimidadora”.

No dia do depoimento, foi mostrada a foto de um policial civil ao médico, que logo o reconheceu como um dos seguranças de Marcelo Cestari. O outro, que era mais discreto, não foi identificado ainda.

A DHPP e a Politec chegaram por volta de 23h30. Wilson Novais ficou no local até o fim do trabalho policial, que finalizou no dia 12 de julho com a prisão de Marcelo Cestari por posse de arma de fogo.

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