Blairo não tem o direito de dizer não

Se candidato, será uma eleição praticamente definida por antecipação

Antonio Cruz/Agência Brasil

O exercício da atividade política é uma das coisas mais fantásticas que existem quando tratamos de relações humanas. O ingresso na vida pública através do voto é, então, o maior aprendizado que o indivíduo pode ter, pois só terá sucesso aquele que for capaz de compreender – e rapidamente – que o primeiro ensinamento a ser praticado, diariamente, é tratar desigualmente os desiguais. Todos somos diferente e vaidosos e de forma diferente gostamos de ser tratados por aqueles que se tornam, pela função que ocupam, os nossos representantes.

Mato Grosso, ao longo de sua história, contou com lideranças políticas que em muito ajudaram a mudar o perfil de um estado periférico, longe dos grandes centros e com pouquíssima representação política. Diferente das bancadas do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul, com grande número de representantes, o Centro Oeste apesar de estar se transformando no grande fator de garantia de desenvolvimento do Brasil, pela nossa capacidade e tecnologia conseguida a duras penas em virtude do agronegócio, somo poucos e desunidos, ou seja: ficamos sempre relegados a um segundo plano quando se tratam de decisões que envolve força política.

Alguns individualmente se destacam e se tornam lideranças reconhecidas nacionalmente com grande poder de influência, suprindo até a nossa insignificância política.

Não se pode deixar de reconhecer o papel de Dante de Oliveira na reconstrução da democracia neste país. Nacionalmente reconhecido como “Senhor Diretas”, Dante deixou um legado que não há neste país quem não reconheça a importância do seu papel na volta das eleições diretas para Presidente.

Falar da importância de Mato Grosso para o agronegócio brasileiro e não falar de Jonas Pinheiro é deixar de lado  parte importante da história e não enaltecer uma das figuras mais importantes da transformação sofrida por esse país com o seu ingresso no Congresso Nacional, depois de um belo trabalho de campo realizado na Empaer, aqui no estado, seu órgão de origem, onde fez transbordar sua vocação.

O espaço aqui seria pequeno para tantos grandes que deveriam ser sempre exaltados. Mas como as transformações ocorridas neste país, a partir das eleições de 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, vou me ater, neste artigo, a uma figura que, para mim, é a maior liderança política do estado e que, talvez por acreditar que já cumpriu sua missão nos cargos que ocupou, como suplente de senador de Jonas Pinheiro em 1994, governador por dois mandatos, e , finalmente, senador onde, em virtude da sua atividade profissional, conhecido como o Rei da Soja, pode não só continuar a obra de Jonas Pinheiro, mas potencializá-la tornando-se, a convite do presidente Michel Temer, Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, de 2016 a dezembro de 2018.

Na sua primeira eleição para o Governo de Mato Grosso, quando foi eleito com 51% dos votos válidos, preferiu não apoiar a candidatura de Ciro Gomes à presidência indicado pelo seu partido de então, o PPS. Declarou simpatia pela candidatura de Lula, mas sem grandes envolvimentos na campanha nacional dentro do Estado.

Aproveitou um estado cujo antecessor Dante de Oliveira fez, talvez a maior reforma administrativa da história de Mato Grosso e entregou a ele, Blairo uma casa “verdadeiramente arrumada’. Nenhum outro governador chegou perto das transformações feita por Dante de Oliveira. Nem mesmo, esse que aí está que fez grandes promessas de novamente arrumar a casa, parece que será capaz de fazê-lo.

Nos dois últimos anos de seu primeiro governo, o agronegócio vivia uma grande crise e Lula parecia ainda não ter percebido a sua importância para a economia brasileira. A crise instalada pela diferença cambial. Blairo atribuiu a origem das dificuldades ao fato de o plantio da safra ter sido feito com o dólar alto e a venda da produção com câmbio desfavorável por dois anos seguidos. Se nada fosse feito era a certeza de uma quebradeira geral, com consequências inimagináveis.

Blairo era um critico contumaz de Lula. Dizia pra quem quisesse ouvir que era impossível apoiar um candidato a presidente sem um compromisso de mudanças formal de apoio ao setor.

Nessa época, após um grande reunião aqui em Cuiabá, onde ele trouxe as principais lideranças do agronegócio brasileiro pra uma declaração de apoio a Geraldo Alckmin e dele não ter conseguido nem um muito obrigado por tamanho possível apoio.

Numa vinda a Cuiabá do ministro Walfrido dos Mares Guia, que tentava uma aproximação para ter o apoio de Blairo no segundo turno, Walfrido ouviu com todas as letras: não me interessa falar com seu presidente. Ele não faz nenhum gesto, não abre nenhuma possibilidade de ouvir as nossas reivindicações. Walfrido retrucou: por que o senhor, governador, não lhe diz isso pessoalmente? Somente em uma conversa cara a cara isso poder ser resolvido. E foi o que aconteceu.

Convidado a ir Brasília, Blairo expôs ao presidente que se quisesse o apoio dele e do que ele pudesse atrair pela sua liderança junto ao setor. Nessa época indicava o IBOPE que Blairo teria de 60 a 65% dos votos em Mato Grosso e Alckmin venceria de lavada. E assim foi: 54,8% para Alckmin e 38,6% para Lula.

O entendimento entre Blairo e Lula aconteceu após o primeiro turno e Lula comprometeu-se em 3 bilhões de reais para a renegociação da dívida com os agricultores junto ao Banco do Brasil, sendo 1 bilhão destinados a Mato Grosso.

Negociou, ainda, a inclusão no plano safra 2006/2007 mecanismos de compensação das perdas com a flutuação do câmbio. Além de conquistas àquele momento inimagináveis para o agro, Blairo negociou também a escolha de cargos em postos chave para o desenvolvimento do setor, indicando entre outros Luiz Antonio Pagot para diretor-geral do DNIT.

Concluída a negociação Blairo entrou de corpo  e alma de Lula no segundo turno, contrariando e sendo achincalhado por parte dos produtores e levando a maioria a apoiar Lula, acreditando na sua liderança.

O resultado em Mato Grosso já se sentiu na eleição no segundo turno: Alckmin 50,3% e Lula 49,7%, numa diferença mínima de apenas 9.000 votos. Se contar que participou da campanha em todos os estados onde o agronegócio é representativo, subindo até no palanque de Olívio Dutra.

Com tamanho apoio, Blairo Maggi consolidou sua liderança junto ao agronegócio. Em 2009, a revista Forbes considerou-o 62º entre os líderes mais influentes do planeta e isso não é pouco, convenhamos.

Ao assumir o Ministério da Agricultura no governo Temer em substituição a Kátia Abreu, o homem que um dia tinha recebido o prêmio “Motosserra de Ouro”, que lhe foi outorgado pelo Greenpeace, em 2005, foi saudado pelo ambientalista Daniel Nepstad, referência em ecologia ambiental e respeitado em todo o planeta, que apostava na sua gestão e que faria, como fez, uma grande agenda ambiental, quebrando paradigmas e dando uma nova visão ao Brasil. Em 2009, registre-se, reduziu o desmatamento em Mato Grosso em 89%.

Maggi deixou o Ministério da Agricultura ao final do governo Temer, com o reconhecimento nacional de ter sido um dos melhores ministros que já ocupara aquela pasta, sem contar com um grande reconhecimento internacional como uma liderança respeitabilíssima por todos os países por onde tem passado.

Qualquer mato-grossense, minimamente informado, avalia, com tristeza, o tamanho  do prejuízo causado pela derrota de Dante de Oliveira na eleição para o Senado em 2002. Incalculável. E corremos o risco de sob outra forma vermos a história se repetir.

Teremos, com grande probabilidade uma eleição suplementar para o Senado da República, com a cassação do mandato, por unanimidade pelo TRE, da senadora Selma Arruda. Cassação que dificilmente será revertida e uma nova eleição deverá ser marcada. Vários nomes já se colocam como candidatos. Não estou aqui a julgar nenhum dos pretendentes. Quero afirmar, que embora nunca tenha sido correligionário político de Blairo Maggi, além de não estar no rol de seus maiores admiradores, não posso deixar de externar minha opinião que para o bem de Mato Grosso e do Brasil não há nenhum outro nome que se aproxime da sua liderança, do seu conhecimento e de como será capaz de nos representar.

Se candidato, será uma eleição praticamente definida por antecipação. Duvido que haja alguém com condições de enfrenta-lo nas urnas. O problema é que ele parece ter tomado uma decisão de abandonar, definitivamente, a vida política.

Decepções, processos judiciais, ausência do convívio familiar e estar sujeito a uma agenda que não é a que ele gostaria, roubando-lhe o convívio dos amigos e atividades de lazer impossíveis de conciliar com a agenda pública, fazem-no hoje um homem que se sente livre para gozar à sua maneira os benefícios que a vida lhe proporcionou. E só de imaginar abrir mão disso, causa-lhe arrepios, não sentindo um pingo de saudade da agitação por tudo o que passou na vida pública.

A porta de saída da vida pública é só uma: falta de votos. Não é o caso de Blairo Maggi, que, eleitoralmente, sempre foi um campeão.

Tomara mesmo que quando chegar o tempo de decidir ela possa ser iluminado pela certeza que a sua vontade pessoal já não mais lhe pertence. A continuidade na vida pública é missão e essa é uma missão que só ele pode cumprir.

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*Ricarte de Freitas é advogado, analista político e ex-parlamentar estadual e federal

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