A tradição cristã é obscurantista?

Todos os grandes massacres do século XX aconteceram sob a égide de governos seculares

Santo Agostinho: a tradição cristã da tolerância religiosa começou no século quarto

A ideia do Estado laico, limpo da ignorância que lhe atribuiria a confissão religiosa, é bem recente na humanidade. Até pouco tempo governo e religião eram termos complementares. As sociedades organizavam seus representantes e seu estilo de governo de acordo com sua moral e tradição religiosa.

Foi só na Revolução Francesa que se inaugurou a era da exclusão da religião da esfera do governo, e a pretensão de que sem valores transcendentes, pela mera razão humana, a sociedade poderia gerar uma política mais tolerante e inteligente.

O que aconteceu, no entanto, foi um banho de sangue que não parou mais – e causou o aparecimento de ideologias seculares que continuaram a inspirar ditadores facínoras e genocídios nos séculos que se seguiram. Tudo debaixo da bandeira da política da “racionalidade” laica. Todos os grandes massacres do século XX aconteceram sob a égide de governos seculares.

Mas a crítica que fazem à tradição judaico-cristã não tem fundamento? Não são essas religiões responsáveis pelo obscurantismo e ignorância? Não é por isto que o laicismo é necessário? Tenho que argumentar que não. Começando da religião judaica, por exemplo, que desde o primeiro século da era cristã, época da queda do segundo templo, cultiva a tradição de interpretação das escrituras conhecida como Midrash.

A principal característica dessa tradição eram as discussões intensas sobre as minúcias do livro sagrado, sempre procurando a melhor interpretação possível para ser aplicada de maneira prática no momento. Respeito mútuo e paixão nos argumentos são essenciais. Desacordos, são esperados e bem vindos. O Midrash nada mais é do que uma coleção de desacordos documentados. O engajamento intelectual do fiel com as escrituras era visto como uma tradução da fé.

A tradição Cristã também não é menos propensa ao exercício intelectual. Os autores do primeiro, segundo, terceiro século deixaram uma riquíssima tradição de debates de alto teor filosófico e teológico, que incluíram um confronto direto com a intelectualidade de sua época, os clássicos gregos, integrando à teologia cristã o que foi considerado compatível e até parte da mesma revelação e extirpando o que consideraram estranho. Construíram, através de discussões, narrativas teológicas, diálogos e manifestos, os fundamentos da tradição teológica cristã. Deixaram como legado um trabalho de peso intelectual, lucidez e brilhantismo acadêmico.

Mais tarde Santo Agostinho, no século quarto, inaugura de uma vez por todas a tradição filosófica que conhecemos por ocidental. São Tomas de Aquino é outro peso pesado da filosofia. É impossível se falar da produção da mente ocidental sem falar das pedras fundamentais lançadas por Agostinho e Aquino.

Como foi então que nos permitimos acreditar na caracterização da tradição judaico-cristã como sendo uma tradição obtusa, ignorante, avessa ao avanço intelectual e científico? Vivemos debaixo da “pecha” de intolerância, quando foram os intelectuais cristãos do século XVI quem desenvolveram e aplicaram o conceito de tolerância religiosa e moral na sociedade europeia pós-reforma.

As poucas passagens de conflito entre cristãos e intelectuais que poderíamos apontar como um sinal do “atraso” da igreja são facilmente entendidas se analisado o contexto cultural e o poder político que estava em jogo. Não foram discórdias intelectuais per se, mas discórdias políticas que usaram a discussão teológica como fachada.

Em outras palavras, quando o poder político de alguns, até do clero, ficava em xeque, valia tudo: respeito, tradição e honestidade intelectual, ia tudo para o espaço. No lugar fica uma murmuração rancorosa de ódio, um ranger entredentes de afrontas, ultrajes, catilinárias baratas que substituem o diálogo. Numa disputa de poder a razão cede lugar à paixão. Altares morais são construídos em cima de banalidades – e o que é certo ou errado toma o banco de trás, dando a direção do discurso à ganância por poder.

Ao contrário do que acreditamos, o secularismo não acrescentou tolerância às ideologias de governo, mas, sim, tornou impossível a discussão de qualquer noção de moralidade que não seja aquela professada por quem está no poder. Recuso-me hoje a lamber suas botas e acreditar que, apesar de séculos de evidência de sua insanidade, o discurso secular tenha mais capacidade para propor a melhora do Brasil do que a boa e velha moral cristã.