Tempra, café e jornalismo

(Foto: Jen Theodore on Unsplash)

Mazzaropi, um mendigo meu amigo — e mendigo por opção, é bom que se saiba —, adora profetizar sobre coisas que, segundo ele, estão em vias de extinção, ou que, na melhor das hipóteses, vão se transformar em outras, nas palavras dele, “melhores, porém piores”.

Nas manhãs em que me sento na calçada em frente à padaria, Mazzaropi desiste por um momento de cuidar dos carros e atravessa a praça para me pedir um café.

— Ontem vi um Fiat Tempra, você imagina? Eu tive um Fiat Tempra! Esse carro não existe! — ele já chega falando.

— Quer um café, Mazza?

— Bote aí — diz ele, já se sentando. — Vou te dizer… Tempra, Renault Megane… se o patrão quiser comprar um desses, eu interfiro pessoalmente!

Mazzaropi é um homem alto, magro e tem barba comprida. Apesar de morar na rua, não anda sujo; pelo contrário, está sempre muito limpo e as pessoas olham desconfiado quando ele pede alguma esmola. Ele me contou que já foi casado, teve bons empregos, mas que alguns estavam em extinção.

— Eu cheguei a vender livros, você imagina? Livro acabou, pode ter certeza! Já meu último emprego foi representante comercial duma firma de café. Isso sim é seguro! Café vai ter até o fim dos tempos.

— E por que você vive na rua?

— Eu estava mais atrapalhando do que ajudando minha família. Não estava compensando. Acho que eu mesmo estou em extinção — diz ele, com um sorriso amarelo.

Quando ele soube que eu era jornalista, sumiu por uns dois dias e, quando voltou, estava agoniado.

— O jornal está acabando! Largue isso imediatamente! — disse ele, sussurrando para que ninguém nos ouvisse.

— Quer um capuccino, Mazza?

— Bote aí. Mas hoje eu pago, porque você terá dificuldades pela frente.

— E por que?

— Eu passei o dia observando o pessoal da banca de jornais. NINGUÉM compra nada ali. Até a banca já devia ter fechado, eu falei para eles. Acho que eles só vendem crédito para celular e Halls.

— Mas os jornais e as revistas impressos vão acabar mesmo, nós jornalistas já estamos a par disso, Mazza. Hoje é tudo pela internet.

— Ah é? Você compraria um Tempra pela internet?

— Não. Mas com jornalismo é diferente. As pessoas precisam de informações.

— Sei… E para que?

— Para tudo, ué. Para saber se vai chover, para saber o rumo da política, saber onde vai a economia, etc.

— Isso tudo eu sei sem ler jornais. Basta olhar o céu que eu sei o tempo que vai fazer. Sobre política só um tolo acha que um dia vai melhorar e sobre economia é só prestar atenção no que dura e no que está em extinção. Se fazemos algo que está em extinção, logo vamos falir. Se fazemos algo que não está em extinção, como um carro, mas fazemos mal feito, também vamos falir. Isso é economia pura! Já o governo vai sempre ficar melhor para eles, só que pior para nós. Isso é certo!

— Sua opinião deveria estar nos jornais, Mazza.

— Por que, se ninguém vai ler? Estou bem do jeito que estou.

— Quer um pão-de-queijo?

— Pão-de-queijo é até o fim dos tempos! Bote aí.

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2 COMENTÁRIOS

  1. 0 Mundo sempre foi e ainda é uma composição de múltiplos fragmentos, ou um mosaico semi-ordenado. Desbalanceado e instável, abriga círculos, grupos, gangues, máfias, clubes, confrarias, simpatizantes, extremistas, centristas, enfim, uma infindável coletânea de espécies urbanas e rurais, selvagens e adestradas. Mas todos são regidos e controlados por um único “valor’….o $IFRÃO. O restante , são os enfeites, cortinas de fumaça, iscas pra desviar a atenção e gerar certo conforto ou acomodação diante desta força absurdamente intransponível, indestrutível, imortal e eternizada em todos nós. É assim que é assim. Respire fundo e siga gastando o seu quinhão. Enquanto o tem.

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