Sobre armas e livros

Quem lança mão do jargão "Mais Livros, Menos Armas" demonstra uma alma infantilizada que, invariavelmente, me faz lembrar daqueles desenhos feitos em escolas que acabam na porta das geladeiras das casas

A ideia de livros salvando o mundo de todos os males e protegendo o futuro de nossas crianças é linda, poética e facilmente digerível. É suave e contundente ao mesmo tempo. “Mais livros, menos armas” é mantra que ecoa no inconsciente coletivo com facilidade, está presente no pensamento da ativista Malala Yousafzai, em artigo publicado na Publishnews e, mais recentemente, em postagem da jornalista Rachel Sheherazade.

Esteve presente até como mote de campanha do candidato derrotado Fernando Haddad. Quem lança mão desse jargão demonstra uma alma infantilizada que, invariavelmente, me faz lembrar daqueles desenhos feitos em escolas que acabam na porta das geladeiras das casas.

O simples acesso aos livros não garante que alguém se torne bom ou melhor. Atrocidades inomináveis vêm ocorrendo na história influenciadas por livros e não por armas. Hitler tinha 16 mil livros em suas três bibliotecas particulares. Entre as obras que mais o influenciaram está O Judeu Internacional, do empresário americano Henry Ford, publicada em 1920. Poucos depois, em 1925, o ditador nazista publicaria seu próprio livro, o Mein Kampf, que em 1940 já batia a marca de seis milhões de exemplares vendidos. Era comum presentear crianças recém-nascidas com o que podemos considerar um dos livros mais destrutivos do mundo.

Não podemos esquecer da influência determinante que tiveram os livros Do Capital e o Manifesto Comunista, de Karl Marx, na criação de um dos regimes mais ditatoriais e sangrentos de toda a história do mundo: o regime da extinta União Soviética. E os efeitos transcenderam o tempo e chegaram até nossos dias pelas mãos de governantes como Hugo Chávez e Nicolás Maduro.

Até mesmo obras consagradas de escritores vencedores do Nobel de Literatura não estão livres de influenciar malignamente mentes perversas e autoritárias. Este foi o triste fim de um dos meus escritores favoritos: Ernest Hemingway. O fundador da mais longa ditadura latino-americana, Fidel Castro, também era um ávido e dedicado leitor. Entre as obras reconhecidas por ele próprio como mais inspiradoras se encontra o excepcional Por quem os sinos dobram, que, de acordo com o próprio ditador, “[o] ensinou muito sobre tática de guerrilha”.

Em uma rápida pesquisa de imagens não é difícil encontrar o terrorista Bin Laden – que teve pleno acesso a educação de qualidade – cercado de livros. Se o simples acesso aos livros e a leitura frequente tivessem o poder inquestionável de melhorar o ser humano, transformando-o em um ser de luz e paz, cabe perguntar: como isso não funcionou com Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder da principal organização criminal brasileira, que se orgulha de ter lido mais de 3.000 livros na cadeia?

Não faltam exemplos em que os livros trouxeram dor e sofrimento, independentemente de sua beleza e importância literária. É o caso do magnífico Os Sofrimentos do Jovem Werther, de autoria do alemão Johann Wolfgang von Goethe, publicado em 1774, que causou um pico de suicídios copiados do triste fim do personagem principal. A obra acabou por nomear na psicologia esse tipo de ocorrência: Efeito Werther.

Como lidar com isso então? Como impedir que pessoas cometam as mais diversas atrocidades influenciadas por “certos” tipos de livros? Censurar? Proibir? Queimá-los? Passar com rolo compressores sobre eles em público? Em última instância cabe a derradeira pergunta: a culpa é dos livros ou daqueles que executam suas barbaridades? Tenho certeza que você, leitor, tende a inocentar os livros e, óbvio, culpar aquele que comete o ato, certo? E por que raios isso é diferente com as armas? Ninguém se torna um assassino porque possui uma arma, torna-se assassino por escolher matar alguém, e deve ser punido por isso. Simples assim!

Neste momento alguém poderá dizer que o problema é, afinal das contas, o discurso armamentista que tomou conta do Brasil nos últimos tempos… Será? Vamos lá!

Um jovem com claros distúrbios decide invadir uma escola onde foi vítima de bullying. Compra ilegalmente duas armas, munições e executa o seu plano. Mata doze adolescentes entre treze e dezesseis anos, deixa outros treze feridos e incontáveis traumatizados para o resto de suas vidas. Para quem não se lembra isso aconteceu em uma escola de Realengo, no Rio de Janeiro, em 2011.

Nesse ano, Dilma Rousseff assumia a presidência após dois mandatos de Lula, que foi ainda antecedido outros dois mantados de Fernando Henrique Cardoso. Foram mais de dezesseis anos de “cultura da paz”, campanhas de desarmamento, restrições e mais restrições para a posse e porte de armas e nada disso foi capaz de convencer – ou impedir – Wellington Menezes de Oliveira a abandonar seu intento macabro.

Culpar armas e santificar livros é o simplismo daqueles que preferem fugir do mundo real, que procuram a proteção na negação, imaginando que não existam pessoas realmente más e dispostas a matar pelos mais variados motivos. Não, armas não são uma garantia infalível de defesa contra essas pessoas, da mesma forma que livros não são magicamente responsáveis em impedi-las. A única exceção que consigo me lembrar foi em 2016, quando o ex-deputado José Genoíno reagiu a um assalto jogando uma sacola de livros nos criminosos. Deu certo, mas eu não recomendo.

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23 COMENTÁRIOS

  1. Análise perfeita bene…. Vc deveria escrever algum livro sobre o assunto eu msm compraria
    Vc é um dos ou o maior especialista nessa área q temos no Brasil

  2. Mais uma matéria contundente e esclarecedora do maior especialista em Segurança Pública do Brasil. Vagarosamente mas de forma definitiva, as suas sólidas afirmações se tornam cada vez mais conhecidas por pessoas inteligentes e determinadas. Que seus mais de 20 anos de estudos sobre o tema finalmente se tornem parte da cultura brasileira e colaborem para tirar os(as) brasileiros(as) do cárcere da covardia. Parabéns Bene. Abraços

  3. O politicamente correto que banha nossa sociedade hoje julga armas e livros superficialmente, associando armas a violência e livros a educação, simplesmente porque é mais fácil, vemos apenas dizer que matou-se ou educou-se, não se valoriza o defendeu-se pois a vítima seria da culpa da sociedade, e a sociedade tem que sofrer quando essa “vítima” resolve a agredir? Sabido é que sim livros educam, mas também e sabido que nossos governos fizeram de tudo pra essa educação ser bem superficial, para poder manobrar a massa e por conseguinte desarmar e poder dominar a população, se observar bem nós fomos privados e muito de tudo que pudesse ser usado contra um governo tirano, força e conhecimento. Pois se repararmos bem tanto armas quanto uma boa educação custam muito dinheiro no Brasil.

  4. Bené. Das melhores exposições do quanto é errada a abordagem dos desarmamentistas. Essa desconexão com a realidade que você expôs, a psicologia denomina como histeria. Existem vários assuntos alvo de histeria coletiva. A posse e o porte de armas é um deles. No meu entender, essa negação da realidade é a famosa estratégia do avestruz, que enfia a cabeça em um buraco, e deixa o cu na reta.

  5. Como sempre, nota 10 para o texto do Bene.

    Só lembrando que os livros que mais influenciaram a humanidade são os religiosos e também os que mais induziram a violência e guerras, como a Biblia do Cristianismo, Torá do Judaísmo, Alcorão do Islamismo e outros.

    Só um trechinho para enfatizar qie estou dizendo:

    “Todo que for achado será traspassado e, todo que apanhado, cairá à espada. As suas crianças serão despedaçadas perante seus olhos; as suas casas serão saqueadas, e a mulher de cada um, estuprada.”

    Isto é do livro sagrado dos cristãos. Em Isaías 13, versículos 15,16.

    • Culpa a Bíblia não cara. O que Jesus dizia? “Se alguém der um tapa em seu rosto, ofereca a outra face”, “Guarde sua espada, pois quem vive pela espada por ela morrerá”. O antingo testamento narra a trajetória dos judeus. Mas nem tudo do antigo testamento é um guia para os cristãos seguirem. Eu sou cristão e defendo a legítima defesa como forma de impedir ou encerrar a agressão, mas eu sou contra iniciar a agressão contra qualquer pessoa. Jesus nunca apoiou a violência.

  6. O preasidente deveria simplesmente anular essa lei comunista do Lula e voltar a que vigorava antes desse golpe contra as pessoas de bem…e estava resolvido….Fui PM e PC como também caçador e agricultor…

  7. Culpa a Bíblia não cara. O que Jesus dizia? “Se alguém der um tapa em seu rosto, ofereca a outra face”, “Guarde sua espada, pois quem vive pela espada por ela morrerá”. O antingo testamento narra a trajetória dos judeus. Mas nem tudo do antigo testamento é um guia para os cristãos seguirem. Eu sou cristão e defendo a legítima defesa como forma de impedir ou encerrar a agressão, mas eu sou contra iniciar a agressão contra qualquer pessoa. Jesus nunca apoiou a violência.

  8. Excelente exposição. Pra variar, uma análise perfeita e cirúrgica, onde o jargão dos “ungidos” é desmistificado. Lembrando, o Terrorista Marighella também escreveu um livro: “Manual do guerrilheiro urbano”. Onde ensina a cometer atos de terror e tratava deforma poética a “arte de matar”. Tamo junto Bene.

  9. Outro caso famoso: no filme “Os 39 Degraus” (de Alfred Hitchcock), o protagonista é salvo de um tiro por… um hinário que levava (sem saber) no bolso da frente do sobretudo.
    Livros, sim, salvam!

  10. Só gostaria de acrescentar que faltou uma coisa no seu comentário
    Falta educação nas pessoas não são os livros que transmitem amor carinho e consequentemente bons costumes que vão gerar educação e respeito ao próximo
    Será que Bin Laden e os demais tiveram isso?
    Com relação às armas elas possibilitam o assassinato em massa

  11. Na verdade o Genoino tinha roubado os livros e se salvou do roubo porque disse ao meliante: “SEU ARROMBADO, NÃO RECONHECE SEU CHEFE?” ao que o ladrão pediu humildes desculpas e vazou do local.
    (isso é fake news, antes que comecem a falar)

  12. Wellington Menezes de Oliveira era muçulmano, há vídeo dele dedicando seu massacre à irmandade muçulmana. Curiosamente, em Susano, havia a idéia de que os assassinos receberiam 7 virgens quando chegassem ao céu. Essa é mais uma ideologia que quanto mais mata mais atrai pessoas. Depois do ocorrido no WTC cresceu o número de interessados pelo islamismo nos EUA. O mal só atrai o que não presta.

  13. Interessante sua análise, no entanto utiliza a exceção como regra. Hitler e Osama por exemplo eram psicopatas e não foram livros que os tornaram assim. Quando se usa a expressão “mais livros e menos armas”, está se referindo a educação em si e o processo de aprendizagem que pode transformar um possível bandido ( que se torna assim devido a “n” condições sociais) num pai de família honesto e trabalhador, justamente por aumentar sua escolaridade e portanto a possibilidade de ser e viver melhor. Psicopatas desprezíveis não servem de exemplo nem mesmo para os que como eu, são contra as armas, por justamente serem exceção em tudo.

    • Boa observação, mais ainda sim essa frase: “Mais Livros, Menos Armas”, não deixa de ser uma frase rasa sobre armamento e educação. O Brasil por exemplo, investe em educação, principalmente superior, mais do que se investem em países desenvolvidos. Apesar de tantos investimentos, o nível geral da educaçao brasileira é péssima. Mesmo que a educação brasileira tome um rumo benéfico daqui em diante, problemas socias como a segurança pública dificilmente seriam resolvidos, ou consideravelmente amenizados, em curto a médio prazo através somente, ou majoritariamente, da educação. Temos hoje mais de 60 mil assassinatos ao ano, mesmo com o estatuto do desarmamento vigorado e regulamentado, sendo mais de 70% desses homicídios cometidos por armas de fogo, com menos de 35% dessas armas terem sido registradas legalmente.
      Na minha concepção, liberar tanto a posse e quanto o porte para um cidadão, cujo sua finalidade é apenas ter armas para defender a sí e sua família quando o Estado não for capaz, é mais do que um necessidade ou uma pauta de segurança pública; um direito.

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