Sexo e política

Sem a família sólida e autônoma para gerar novas gerações com consciência de valores morais, a sociedade livre é uma impossibilidade lógica

Gramsci: ele defendia o domínio psicológico das massas como uma forma de o Estado obter a hegemonia (Foto: Getty Images)

Deve o governo meter a “colher” na vida sexual dos cidadãos? Não seria mais condizente com o espírito liberal, que agora nos ilumina, pedir que o governo abandone toda a legislação que diga respeito à moral, e permita que o povo “ame a quem quiser?” Não estamos advogando menos governo, menos intervenção, menor paternalismo? Por que então não deixar a critério do cidadão que sexo terá, parceiro de que gênero ou espécie, que orifício usará, etc?

Convido os liberais que pensam assim a se perguntarem o porquê da insistência dos governos de esquerda em livrar a população da boa e velha moral cristã, usando todos os meios possíveis, desde a mídia até a escola pré-primária. Por que era tão importante para os governos Lula e Dilma coagir culturalmente o Brasil, um país de tradição cristã, a abraçar uma espécie de amoralidade sexual, o famoso “liberou geral” agora conhecido como “direitos humanos”? Será que a motivação deles era a “compaixão” com a comunidade LGBTQ?

Me intrigava esta incansável batalha anti-moral. Dá pra entender que indulgir das exigências da militância gay é necessário para um governo que precisa de popularidade a qualquer preço.

Mesmo assim, o alvo eleitoreiro não é claro, sendo que a população LGBTQ e afins não representa mais do que talvez 10% da população. Alienar 90% para cativar 10%? Não me parece uma estratégia muito inteligente. Como aposta eleitoreira parece até um tiro que pode sair pela culatra.

A grande maioria da população brasileira ainda vê com estranheza essa amoralidade existencialista. Não precisa nem ser evangélico ou católico praticante para achar esquisita a necessidade de ter que se diferenciar travestis de gays e cross-dressers em uma cartilha de ensino fundamental. A maioria se indignaria e consideraria no mínimo insensato distribuir livrinhos com fotos de sexo explícito nas escolas de ensino médio.

As escolas que foram fiéis às diretrizes do governo se tornaram uma fábrica de erotização precoce. Soube através de uma professora obrigada a aderir à pedagogia do sexo que ela teve que dar um intervalo masturbatório, porque o estado de excitação sexual provocado pelo livrinho era tão intenso que tornava impossível prosseguir a aula sem que os alunos  “se acalmassem” primeiro.

Se a família brasileira média soubesse de tudo isto, tenho certeza de que não aceitaria. Se nos fosse perguntado se o Ministério da Saúde deveria investir em camisinhas e lubrificantes KY ou em remédios essenciais como antibióticos, sempre em falta na rede de saúde pública, o que responderíamos?

O que escolheríamos: atender à necessidade de mudar de sexo dos transexuais, de custo altíssimo para o erário público, ou combater a taxa de mortalidade infantil ainda alta no Norte e Nordeste do país devido a doenças básicas e desnutrição? A ênfase que se dá hoje à saúde transexual na verdade propõe a criação de uma nova elite que ganha prioridade na saúde pública em detrimento dos velhos pobres de sempre. Malária? Verminose? Desnutrição? Quem se importa?

O fato é que essa ênfase toda nunca foi simplesmente tática eleitoral. Uma das muitas reivindicações de Gramsci é a de que a hegemonia, que é o domínio psicológico sobre as massas, é necessária para se atingir e manter o poder do aparato do estado socialista.

Essa hegemonia deve ser conquistada a qualquer preço – e a grande vitória dos ideólogos é a de mudar o que Gramsci chama de o “senso comum”, que numa definição muito própria são os hábitos, expectativas e idéias inconscientes que governam o dia a dia das pessoas, o que elas entendem por realidade.

Quando o senso comum das pessoas refletir a ideologia da luta de classes, alcança-se o que Gramsci define como o “Estado Ético”. Só que de ético na definição clássica que conhecemos este Estado não tem nada. Sua única ética é servir aos interesses da luta de classes, obliterando toda e qualquer oposição a ela.

Debaixo da pseudo-moral do Estado Ético, para obtê-lo e mantê-lo vale tudo: matar, roubar, mentir. A mais completa imoralidade, se lhe presta serviço é vista como ética. A honestidade, o labor e a boa moral podem ser crimes se estiverem cooperando para a classe oposta… O bem e o mal passam a ser definidos pelo Estado e seus interesses.

Gramsci explicita claramente que “O Príncipe (Estado) toma o lugar, nas consciências, da divindade ou do imperativo categórico, torna-se a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costume”.[1]

Por mais que nos pareça exagerada ou enlouquecida, a proposta é esta mesmo: acabar com o bem e o mal, o certo, o errado, e subjugar qualquer noção de moral e virtude à vontade única do estado – que é o Moderno Príncipe.

Para que este senso comum do bem do estado seja obtido é preciso subverter todos os valores tidos como burgueses, ou que tenham sido herdados de consciências anteriores à consciência hegemônica da luta de classes. Ou seja, quanto mais vale-tudo, melhor. Quanto mais dúvida sobre o que é “certo” e “bom”, mais fácil se torna a tarefa de construir uma nova moral não moral.[2]

A promiscuidade, os extremos sexuais, a instabilidade da família são beneficiais ao Estado. Nessa ótica, transar com todo mundo ajuda a combater a pobreza e instalar a justiça. A confusão mental lançada pelos intelectuais gramscianos na sociedade faz com que frases como “Aborto é um problema de saúde pública”, antes estranhas e que deixavam no ar um óbvio questionamento moral, agora é lugar-comum, uma “pérola de lucidez” e repetida como sabedoria até por cristãos.

Para os que não estão cegos pela matrix da luta de classe, aborto deveria ser uma questão de direito à vida da criança que está sendo gerada, já que é o dever do Estado proteger os mais frágeis. Uma criança é uma vida e facilitar a sua morte não é uma questão de saúde pública como o combate a uma epidemia de dengue.

Quanto mais libertina a moral sexual de um povo, mais passível ele se torna de receber e aceitar domínios opressivos e tirânicos.

A promiscuidade do “liberou geral” destrói a ultima linha de proteção do individuo contra o Estado. Quanto mais fraco o núcleo básico da sociedade que é a família, a entidade mais importante e que preserva o direito individual, mais forte o direito do Estado sobre todos.

Se antes a institucionalização da liberdade sexual exacerbada já nos parecia absurda, à luz deste entendimento ela se torna criminosa. A política conservadora que prioriza a importância e a autonomia da família, está salvaguardando na verdade pela coisa que os liberais mais prezam, a liberdade individual.

Sem a família sólida e autônoma para gerar novas gerações com consciência e  valores morais, a sociedade livre é uma impossibilidade lógica.

Como disse Benjamin Franklin, um dos pais da constituição americana: “Apenas um povo virtuoso é capaz de ser livre. Na medida em que as nações se tornam  corruptas e cruéis, mais necessários se tornam os senhores.” Virtude não pode ser legislada, ela é gerada por um senso de valor individual e respeito ao outro que só uma família amorosa e protetora pode imprimir no coração humano. A abolição da moral sexual é um mecanismo de dominação política pura e simplesmente.

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[1] Cad 13, vol 3, Antonio Gramsci, Cadernos do Cárcere, Editora Civilização Brasileira, 2002

[2] O Estado Ético, na verdade, não apenas é compatível com a total imoralidade, como na verdade a requer, pois consolida e legitima duas morais antagônicas e inconciliáveis, onde a luta de classes é colocada acima do bem e do mal e se torna ela mesma o critério moral supremo. Daí por diante, a mentira, a fraude ou mesmo o homicídio podem se tornar louváveis, quando cometidos em defesa da “nossa” classe, ao passo que a decência, a honestidade, a compaixão podem ter algo de criminoso, caso favoreçam a classe adversária.” – Olavo de Carvalho, Santo Antonio Gramsci e a Salvação do Brasil, textos, www.olavodecarvalho.org

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