O mito da escola pública nos EUA

Um dos primeiros argumentos que brasileiros usam para defender os EUA pode ser derrubado em algumas linhas. Falo sobre o mito da escola pública.

Sim, mito.

Dizer que os EUA oferecem escola pública, gratuita e de qualidade para seus habitantes é uma grande farsa. Falo com segurança e experiência de causa.

Meu filho estudou quase dois anos em escola pública no pré e parte do primeiro ano. É verdade aquilo que alardeamos. A escola era linda. Os professores, qualificados. Não comprava uma agulha. Tudo era de graça. Lápis, cadernos, livros. Parecia cena de filme de Hollywood. Ou comercial de Doriana, para ficar mais na realidade brasileira.

Só que o acesso a essa escola que parecia até fictícia de tão perfeita tinha um preço. Altíssimo, por sinal. Não pagava mensalidade, mas, sim, um imposto mensal para poder viver naquele bairro.

Vou traduzir.

As melhores escolas públicas — e gratuitas — estão localizadas nos bairros nobres que, por sua vez, são caríssimos e têm IPTU altíssimo.

Para dar uma ideia do que estou dizendo, vou falar de onde morava: em Reading, uma cidade de cerca de 200 mil habitantes na Pensilvânia.

Morava em Wyomissing, subúrbio de Reading, onde a escola pública é considerada uma das melhores do estado. Hoje, uma boa casa não custa menos do que 250 mil dólares e o IPTU é de cerca de 5 mil dólares por ano. Mesmo que você financie a casa em 30 anos, como é costume lá, a prestação não será uma pechincha. Assim como não é ter que pagar quase mil dólares de IPTU por mês — é possível pagar o imposto em 12 parcelas.

Citei o exemplo de um lugar que conheço, mas é desconhecido da maior parte dos brasileiros. Se falar de Miami, Nova York ou qualquer lugar da Califórnia, por exemplo, os valores de imóveis multiplicam, ainda que o ensino seja gratuito.

Até Orlando, considerada acessível para muitos brasileiros, não foge à regra e só tem escolas públicas de qualidade nos bairros cujas casas têm preço elevado.

Então, caro leitor, não se iluda: os EUA não são muito diferentes são do Brasil. Só tem acesso a ensino de qualidade aqueles que têm dinheiro. Quem não deu certo na vida, ganha mal ou é pobre, tem que se contentar com educação de péssima qualidade em escolas que nunca apareceriam nos filmes de Hollywood ou nas capas de revistas brasileiras.

Para quem conhece a sociedade norte-americana de verdade, o ensino público, gratuito e de qualidade para todos é apenas um mito. Infelizmente.

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8 COMENTÁRIOS

  1. Mas quem disse que para ter acesso ao ensino público nos EUA precisa morar no mesmo bairro da escola?
    Enquanto aqui nós temos três ou quatro pequenas escolas públicas em um bairro próximo da localidade onde a pessoa estuda, nos EUA existe uma única grande escola por distrito (e em cidades pequenas até uma única escola grande para a cidade inteira). E é por esse motivo que existe também o sistema de transporte escolar gratuito que pega os estudantes em seu bairro e encaminham diretamente para essa grande escola.

    • Geralmente para matricular seu filho numa escola que não é a escola designada pelo distrito escolar, tem que entrar num tipo de sorteio, para se tiver vaga sobrando depois que preencherem as vagas para alunos do bairro você talvez conseguir colocar seu filho lá. Morei boa parte da minha infância nos Esteites e posso te dizer com toda certeza que a maioria dos lugares nem tem mais esses ônibus escolares que se vê nos filmes ou quando tem são apenas para estudantes com necessidades especiais.

  2. Concordo com a sua argumentação referente ao imposto, mas afirmar que as escolas de bairros mais pobres são “péssimas” é desonesto.
    A pior escola pública americana é, sem dúvidas, melhor do que a grande maioria das escolas públicas do Brasil. E as escolas em bairros de classe média, infinitamente melhores.

  3. O que o autor tenta mostrar é que mesmo nos EUA existe una desigualdade na qualidade do ensino, onde os ricos são privilegiados em detrimento dos pobres e que indiretamente existe um custo “oculto” para a suposta educação gratuita.
    Na Califórnia a justiça tentou acabar com essa desigualdade, só que o Estado nivelou as escolas por baixo e o resultado é que o 3o. maior Estado americano ocupa o 40o. Lugar no ranking da educação nos EUA.
    Não vi a intenção do autor em comparar a educação dos EUA com a do Brasil.

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