“Hippies” agora são Malucos da Estrada; conheça os tipos

Nas praças, eles vendem artesanato ou fazem apresentações para sobreviver; agora querem reconhecimento do governo federal

Andreia e Orni viajam juntos e querem o direito de viver fora do sistema (Foto: Suellen Pessetto/ O Livre)

Eles estão por todos os cantos do mundo e, em Cuiabá, o ponto certo de encontro é a Praça da República, em frente à Igreja Matriz. Chamados de hippies pela população em geral, eles discordam do título e argumentam que nem de longe representam aquela tribo dos 1960 e 1970. Agora, são os malucos da estrada.

Andreia Branco Albuquerque, 47, e Orni Paulo, 54, viajam juntos e trabalham com atividades diferentes. Enquanto ele é artesão, ela é flautista. Juntos, já perderam as contas das cidades pelas quais passaram, mas contam que está cada vez mais difícil se manter em movimento.

“Eles querem nos comparar com camelôs. Onde chegamos exigem autorização e não podemos nem colocar o nosso pano no chão. Temos que nos organizar para ter nosso estilo de vida respeitado”.

Quando questionado sobre o repasse de informações e mobilização do grupo, já que se caracterizam como nômades, Orni responde: “a notícia corre e, em cada parada, é fácil se atualizar e saber como está todo mundo”.

De acordo com Orni, a articulação está acontecendo e logo chegará ao governo federal. “Queremos apenas continuar a andar, parar nos lugares que achamos interessantes, aprender sobre aquele lugar e seguir nosso destino”.

Orni diz que não quer ser confundido com camelô e impedido de vender artesanato (Foto: Suellen Pessetto/ O Livre)

Por que ser maluco?

A companheira de Orni, Andreia Branco, conta que teve uma educação formal. Fez mais de 7 anos de piano e também estudou flauta doce. “Como não tive chances de praticar o piano, deixei de aperfeiçoar. Acabei focando na flauta doce porque é fácil de carregar”.

Cair na estrada para ela foi uma fuga do sentimento de incoerência. “Quando você descobre que é melhor ser do que ter e continua no sistema, sente que não está vivendo conforme seus princípios. Viver no sistema é viver para o consumo”.

Por este motivo, a maluca da estrada arrumou a mochila e seguiu seu caminho. “Aprendemos uma lição em cada lugar e alguns caminhos são rotineiros, como os que nos levam a visitar a família”.

No momento, Orni e Andreia estão em direção ao Acre, onde mora a família dele.

Viajando com conforto mínimo

Maria Auxiliadora, 56, fisioterapeuta de formação, diz que quer voltar à estrada, mas aprendeu com seu antigo companheiro a ter o mínimo de conforto. “Eu sempre fico em hotel ou casa de amigos, gosto de comer bem e, dentro da simplicidade que o modo de vida permite, garantir a minha segurança pessoal”.

Ela conta que trabalhava “no sistema” e há 5 anos conheceu um argentino que trabalhava com pintura. Ela se apaixonou pelo rapaz e acabou caindo na estrada. “Quando nós viajamos com um companheiro ficamos mais confortáveis e seguras”.

Com ele, Maria aprendeu as técnicas de produção de artesanato e como ser viajante. “Parei porque minha irmã ficou doente e vim cuidar dela. Porém, já estou me preparando para ir novamente. E agora sigo sozinha”.

Maria Auxiliadora é fisioterapeuta de formação e largou tudo para pegar a estrada (Foto: Suellen Pessetto/ O Livre)

Na opinião dela, o título de hippie é equivocado e usado por pessoas que estão estagnadas no tempo. Ela relata que as pessoas associam o conceito antigo de “sexo, drogas e rock” e, atualmente, o grupo quer apenas ter o direito de ser livre e não viver sob as regras do sistema.

Que tipo de maluco eu sou?

Dentro do grupo dos malucos, existem várias modalidades. Maria Auxiliadora, 56, conta que já foi maluca de BR e, agora, está mais para pardal. Ela entrou na tribo por amor e, com o companheiro da época, aprendeu a ser uma maluca artesã e a trabalhar muito para produzir coisas bacanas. Assim, as pessoas ficam atraídas pelo pano dela e compram “alguns trampos”. Isso faz com que ela não precise “manguear”.

Não entendeu nada do parágrafo anterior? Então dá uma olhada no glossário com o vocabulário característico dos malucos de estrada:

Maluco de BR – aquele que está viajando, seja de ônibus, bicicleta, a pé ou de carona.

Maluco pardal – aquele que resolveu se fixar em um lugar, nem que seja provisoriamente.

Maluco artesão – aquele que faz artesanato para viver.

Maluco artista – nesta categoria se agrupam os músicos, malabares, mímicos e atores.

Maluco maluco – aquele que trabalha apenas para custear um vício.

Malucada – grupo de malucos.

Pano – tecido onde os materiais para venda são expostos.

Trampo – produto artesanal produzido pelos malucos.

Manguear – abordar as pessoas na rua pedindo uma ajuda.

Cultura de BR – cultura construída a partir do que os malucos aprendem em cada parada.

Tubarões – malucos que estão há mais tempo na estrada.

Quer entender melhor?

O documentário “Malucos de Estada: quem são esses ‘hippies’ brasileiros?” mostra a vida deste grupo. Ele foi gravado em 19 estados do Brasil e assistido por milhares de pessoas.

No longa, o diretor Rafel Lage mostra o cotidiano dos artesãos, o modo preconceituoso com que são tratados, inclusive uma ação de retaliação feita por policiais e fiscais da prefeitura de Belo Horizonte.

Veja uma parte do filme: