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Greve proibida

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Redação

O transtorno que a mal disfarçada greve da polícia militar do Espírito Santo causou à população e o número de mortes que produziu levam a reflexões sobre a segurança que julgamos ter. Na verdade a tal segurança nada mais é que um construto social ou uma realidade imaginada que funciona até quando as pessoas acreditam nela.

Assim também são as nações, as leis, os regimes de governo ou o sistema financeiro. A ruptura pode acontecer a qualquer momento, bastando os atores, movidos por qualquer interesse, substituírem uma ideia tida até então por verdadeira por outra que julguem mais interessante. No caso dos militares em greve, foi suficiente convencer os companheiros que a correção dos salários importava mais que o cumprimento da lei restritiva a greves nas Forças Armadas.

Achando que colava tirar a brasa com a mão do gato, enviaram seus familiares para a porta dos quarteis forjando uma obstrução à saída dos policiais. Montaram uma cena grotesca e ridícula onde 15 a 20 mulheres “destemidas” conseguiram reter, por mais de uma semana, centenas de homens “ansiosos para trabalhar”.

O Espírito Santo é um estado pequeno, sua população não passa de 4 milhões de habitantes. Mesmo assim, o governo federal teve grande dificuldade em restabelecer a ordem. Foram necessários mais de dez dias e 150 pessoas assassinadas antes que o Exército e a Força de Segurança Nacional botassem ordem na casa. A população sofreu entocada dentro das casas, enquanto a bandidagem tomava conta do estado roubando, saqueando e assassinando.

Se esse movimento tivesse vencido o governo, creio que estaríamos em uma situação muito perigosa.  Exportado o sucesso para outros estados, o país viveria o caos. Este é um risco que ainda estamos correndo pois pelo menos Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul estão quebrados e seus servidores vão conviver com atrasos de salários e diminuição dos ganhos. Nessas circunstâncias, a situação fica muito favorável à ruptura da ordem.

O governo federal não tem condições de controlar os criminosos em estados maiores e mais populosos. Se as polícias dos principais estados entrarem em greve ao mesmo tempo não existe possibilidade do governo federal apoiar a todos simultaneamente.

Paralizações são sempre danosas, mas umas são mais preocupantes que outras. Na educação, teoricamente o tempo parado pode ser compensado, na saúde causa sofrimento e eventuais mortes, mas na polícia o mal é imediato, agudo e os prejuízos irrecuperáveis, por isso são proibidas por lei.

A precaução aconselha sufocar no nascedouro cada movimento poibido, impedindo que o sucesso de um estado  contamine os outros e deixe a coisa descontrolada. Parece que o caminho está na informação. É  preciso  monitorar as tropas, seus anseios e reivindicações para evitar surpresas, além de punir com severidade as transgressões.

De resto precisamos ter consciência que a segurança total não existe. A  morte antes da hora de mais de cem pessoas vitimas daquela greve no Espírito Santo mostra que a capacidade de um estado proteger o povo é muito menor que supomos. Construções sociais (Estados e União, por exemplo) são efêmeras e só existem enquanto duram.

Assinatura Renato de Paiva

 

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