Gado nelore, bilhete premiado e apê na Atlântica: a fortuna dos membros da Mesa Diretora da ALMT

Levantamento realizado pelo LIVRE junto à Justiça Eleitoral mostra a evolução patrimonial de deputados mato-grossenses

A afortunada Mesa Diretora da ALMT (Foto: JLSIQUEIRA/ALMT)

Enquanto em boa parte dos países desenvolvidos a carreira política é sinônimo de sacrifício, no Brasil ela coincide com altos salários, benesses e, não raras vezes, representa um trampolim financeiro para os privilegiados representantes do povo. Poder, por aqui, é sinônimo de dinheiro e, em alguns casos, dinheiro se transforma rapidamente em poder.

Levantamento realizado pelo LIVRE junto à Justiça Eleitoral – neste primeiro momento apenas com os sete deputados que compõem a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (AL-MT) – mostra que, juntos, eles possuem bens estimados em R$ 17,3 milhões.

O valor é estimado (para baixo) porque não considera a valorização de bens como casas, terrenos ou mesmo participação em empresas. (Veja tabelas)

Dentre todos, o mais rico é o presidente da Casa, Eduardo Botelho (DEM), que declarou à Justiça Eleitoral, em 2018, um patrimônio de R$ 6,7 milhões.

O segundo no ranking dos parlamentares milionários é Valmir Moretto (PRB), com R$ 5,6 milhões. Em comum, sempre conforme declarado à Justiça Eleitoral, apesar de continuarem ricos para os padrões do Brasil, ambos reduziram patrimônio desde que estrearam nas urnas.

Moretto, que se elegeu prefeito de Nova Lacerda em 2009, perdeu R$ 1,5 milhão do montante que declarou no período entre 2012 e em 2018. Já Botelho reduziu seu patrimônio em cerca de R$ 1 milhão entre 2014 e 2018.

Botelho e Moretto, porém, são exceções. A regra é engordar a fortuna.

Proporcionalmente, um dos maiores exemplos desta tendência, dentre todos os sete integrantes da Mesa Diretora, é o do segundo-secretário Valdir Barranco (PT), que multiplicou por quatro seu patrimônio entre as duas últimas eleições. Em 2018, Barranco declarou ser dono de um conjunto de bens que totaliza R$ 549 mil.

O patrimônio do primeiro-secretário Max Russi (PSB) cresceu em velocidade semelhante: em 2018 ele declarou ser dono de uma fortuna cinco vezes maior do que aquela que tinha em 2014. Russi informou à Justiça Eleitoral que sua participação em companhias, imóveis, investimentos no mercado financeiro, dentre outros itens, somavam R$ 3,39 milhões.

A evolução patrimonial de Russi se mostra tão promissora quanto sua ascensão na carreira política. Seu primeiro mandato foi de vereador de Jaciara, em 1999, aos 23 anos. Quando se candidatou ao cargo de prefeito daquela cidade, em 2004, declarou o total de R$ 336,6 mil em bens. Portanto, seu patrimônio declarado em 2018 era dez vezes maior – em valores absolutos, sem correção.

Russi já desponta como virtual candidato do partido ao Governo do Estado, em 2022. Elegeu-se para seu primeiro mandato como deputado estadual em 2014, com 20.690 votos. No ano passado, em linha com sua evolução patrimonial, o deputado aumentou em 60% sua votação, com a preferência de 35.042 eleitores.

Vista para o mar

Os milionários da assembleia mato-grossense contabilizam diferentes tipos de bens. Botelho mantinha saldo de cerca de R$ 2 milhões em suas contas bancárias quando declarou pela primeira vez seu patrimônio à Justiça Eleitoral, em 2014.

Em 2018, reduziu seu saldo bancário a R$ 16 mil. Em compensação, informou uma nova opção de investimento: 420 cabeças de gado da raça Nelore, machos, que avaliou em R$ 504 mil.

Quarta colocada no ranking dos milionários que estão no comando da Assembleia de Mato Grosso, Janaína Riva (MDB), a vice-presidente da Casa, reelegeu-se para seu segundo mandato de deputada estadual com a maior votação que uma mulher já obteve em Mato Grosso: 51.546 votos.

Segundo informou à Justiça Eleitoral, seu patrimônio soma R$ 2,3 milhões, valor que inclui participação de 33,3% em apartamento no condomínio Queen Elizabeth, localizado na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, de frente para o mar. Ela avaliou o imóvel em R$ 439,9 mil.

Janaína é herdeira política do pai, o ex-presidente da Assembleia José Riva, afastado da direção do Legislativo do Estado em 7 de maio de 2013, em meio a uma grave crise política e de reputação: ele foi formalmente acusado de desviar milhões em dinheiro público, por meio da prática de crimes contra a administração pública, peculato, falsidade ideológica, além de compra de votos e caixa dois eleitoral.

Riva confessou os crimes e tenta homologar um acordo de delação premiada junto à Justiça de Mato Grosso.

Por fim, na lanterna do ranking de abonados, está o segundo vice-presidente da Casa, cujo patrimônio declarado à Justiça Eleitoral destoa do conjunto de bens de outros integrantes da Mesa Diretora. O deputado estadual João Batista (Pros) possui três veículos Volkswagen Gol, que, somados, valeriam R$ 63,3 mil.

Acima dele, está o deputado estadual Paulo Araújo (PP), que declarou possuir pouco menos que R$ 745 mil em imóveis e veículos.

Ex-vereador por Cuiabá, ele havia declarado, na campanha eleitoral de 2014, que possuía R$ 651 mil. De lá para cá, vendeu o único carro que disse ter e comprou outros quatro. Ao que tudo indica, uma casa em seu nome sofreu valorização, mas o apartamento onde o deputado provavelmente mora, não.

A exemplo do que ocorre no Brasil, a Mesa Diretora da Assembleia Legislativa de Mato Grosso também reflete os extremos de uma sociedade desigual.

Outro lado

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Presidência da Assembleia não se pronunciou até o momento sobre questionamentos feitos em relação ao patrimônio do deputado Eduardo Botelho.

Com relação à evolução patrimonial elencada na matéria, a deputada estadual Janaina Riva afirmou que “todos os seus bens estão em conformidade com sua remuneração – e declarados junto à Receita Federal”.

Já o petista Valdir Barranco informou que na declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral constam os mesmos registros apresentados à Receita Federal em suas declarações de Imposto de Renda. “Portanto, não há ilicitudes. Os bens declarados foram adquiridos com muito trabalho e transparência”, disse, em nota.

Em entrevista à reportagem do LIVRE, o deputado estadual Max Russi (PSB) afirmou que sua evolução patrimonial se deve ao fato de ele ter sido premiado na Mega Sena.

O sorteio em questão ocorreu em abril de 2017, quando Max estava licenciado da Assembleia Legislativa para ocupar o cargo de secretário de Trabalho e Assistência Social de Mato Grosso.

O prêmio foi de pouco mais de R$ 101 milhões e acabou dividido entre 20 apostadores. Max Russi disse que recebeu aproximadamente R$ 7 milhões – valor bruto, que caiu para R$ 5 milhões após descontado o imposto de renda – que dividiu meio a meio com seu irmão, Alexandre Russi.

Na época prefeito de São Pedro da Cipa, Alexandre foi quem fez a aposta. Disse a jornalistas, inclusive, que o deputado “chegou a receber uma mensagem da dona da lotérica [informando sobre o bolão, horas antes do sorteio ocorrer], mas não apostou”.

Perguntado por que o valor não aparece sua declaração à Justiça Eleitoral, o deputado se justificou afirmando não se tratar de um bem.

“O prêmio da Mega Sena não é um bem, é um valor que você vai comprar um bem ou deixar aplicado no banco. Eu paguei umas dívidas, acertei umas coisas e daí está o meu patrimônio”, disse.

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