Dalrymple: uma ilha de sanidade num oceano em fúria

Dalrymple: a necessidade de não assumir quaisquer responsabilidades é um tema freqüente nas obras do psiquiatra britânico

Theodore Dalrymple sempre ilustra suas críticas com casos vividos durante sua vasta experiência como psiquiatra de presídios, hospitais e intercâmbios em países geralmente miseráveis.

Numa dessas passagens, ele conta sobre uma paciente que estava no terceiro relacionamento abusivo e com três filhos; um com cada bandido. Os três perfis detalhados pela paciente eram idênticos e ela mostrava perfeita compreensão das consequências de se relacionar com esses indivíduos.

Ao ser questionada por Dalrymple sobre quanto tempo ele demoraria para perceber se tratar de um sujeito da pior estirpe, ela respondeu: “Assim que ele passasse pela porta”.

A única resposta possível que veio ao psiquiatra, mesmo tendo tantas décadas de experiência, foi: “Então, na próxima vez que pensar em se relacionar com alguém, traga o pretendente para que eu o analise por você”.

Ela riu envergonhada, reconhecendo sua parcela de culpa nos problemas que enfrentava como uma mãe solteira de três crianças inocentes, filhos de bandidos e sem estrutura familiar alguma.

Esse caso foi relatado em mais de um livro por Dalrymple, mas o li pela primeira vez em “Nossa Cultura… Ou o que restou dela”, na edição em português da É-Realizações, que comprei no evento de lançamento há alguns anos, no Rio de Janeiro, se não me engano na Livraria da Travessa.

Mas foi no livro “Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico” que essa descrição de facto me impactou e fez refletir; talvez pelo momento, no qual me volto mais para esse assunto, ou como o chama um amigo dono de Sebo na Praça João Mendes, em São Paulo: “o drama da existência humana moderna”.

A necessidade de não assumir quaisquer responsabilidades é um tema freqüente nas obras do psiquiatra britânico, sem dúvida um dos principais pensadores da atualidade a se debruçar sobre a formação da personalidade, as consequências do sentimentalismo tóxico e a degradação notória da cultura ocidental, principalmente em Inglaterra.

Dalrymple olha para uma sociedade na qual é proibido criticar as más ações e até mesmo punir criminosos, mas é incentivada a romantização da promiscuidade e a ausência de autocontenção; onde jogar lixo fora da lata traz uma sensação de “rebeldia contra o sistema”, mesmo que o indivíduo em questão sequer saiba qual é esse tal sistema, ou mesmo interpretar uma frase simples, e demonstrar – necessariamente exagerando – falsos sentimentos, é motivo para glorificação pessoal – “Olhem para mim e glorifiquem minha empatia fingida! Oh, quão maravilhoso(a) sou por fingir que me importo com outros”.

Após mais de quatro década atuando em psiquiatria clínica em hospitais públicos, presídios e países geralmente miseráveis, Anthony Daniels – nome verdadeiro do autor, cujo heterônimo é Dalrymple – poderia ter a mesma ação do seu “colega de profissão” da obra “O Alienista”, de Machado de Assis, que ao perceber que todos à sua volta possuem alguma síndrome, histrionismo e/ou “loucura”, exceto ele, acabou por se internar no próprio manicômio.

Contudo, o psiquiatra britânico opta por se manter são em meio à insanidade coletiva que o rodeia, e ainda denunciar suas causas, agentes e consequências, numa prova de imensa coragem intelectual e integridade moral.

Publicado originalmente na Gazeta Conservadora