Biocombustível resgata o cultivo do bambu em larga escala

Fundos internacionais buscam investir em soluções de energia renováveis e financiam a revolução verde na geração de energia

A busca pela energia renovável e sustentabilidade traz oportunidades que até então estavam encorbertas. Um bom exemplo é a próspera produção de biocombustível – etanol de milho – principalmente no estado do Mato Grosso, e o plantio em larga escala de bambu. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima que a produção do biocombustível a partir do cereal deve chegar a 9,56 bilhões de litros em 2030.

O Brasil é um grande produtor e exportador de milho. Ocupa a 3ª posição global em milhões de hectares cultivados e 1ª posição no ranking mundial de exportação.

Estudos que retratam a eminente crise energética, por um lado, e, por outro lado, fundos internacionais que buscam investir em iniciativas em soluções de energia renováveis, sem o uso e sem de dependência de combustível fóssil, financiam a revolução verde na geração de energia.

A tecnologia de transformação do milho em etanol é consolidada nos Estados Unidos, mas a tecnologia precisa de biomassa para aquecer as caldeiras das usinas. 

Bambu e eucalipto

Neste cenário chama a atenção os plantios de bambu e de eucaliptos no Mato Grosso para geração de energia. Serão 10 mil hectares de bambu e 20 mil hectares de eucaliptos para processar mais de 1,3 milhão de toneladas de milhos que são transformados em etanol de milho, farelo de milho, óleo de milho e energia elétrica. Um investimento que ultrapassa os 800 milhões de reais em uma única planta de processamento. 

O mercado do bambu está estimado em 70 bilhões de dólares de acordo com o Inbar – Organização Mundial do Bambu e do Rattan. A sua utilização é ampla: alimento, cosméticos, carvão, energia biocombustível, tecidos, cordas, papel, artesanato, construção civil e rural, material para engenharia, insumo para alta-tecnologia, por meio das fibras do bambu, entre outros. 

O bambu é uma planta geralmente tropical, que cresce mais rapidamente do que qualquer outra planta no planeta, chegando à altura máxima de 30 metros. É uma cultura perene, renovável e que produz “troncos” anualmente sem a necessidade de replantio, possuindo um grande potencial agrícola. Cerca de 34% dos bambus nativos do mundo estão nas Américas, com destaque para o Brasil.

A utilização do bambu como biomassa é antiga no Brasil, com início nos anos 70.  Começou com o grupo João Santos em Pernambuco, para a produção celulose e biomassa, em uma área que ultrapassa 30 mil hectares. No Nordeste, empresas de cerâmica também utilizam bambu nas fornalhas. 

O centro de pesquisa chinês China Bamboo Research Center observou que, a partir dos anos 1980, houve a intensificação de uso de bambu em diversas áreas industriais, sobressaindo a produção de alimentos, fabricação de papel, engenharia e na química.

Vantagens

Agrônomos e pesquisadores apontam diversas vantagens para o cultivo e uso do bambu, e destacam para os estudos que demonstram eficiência de 30% da biomassa de bambu em relação ao eucalipto. O bambu pode ser utilizado em reflorestamento, na recomposição de matas ciliares, e também como protetor e regenerador ambiental em áreas degradadas e posteriormente processado para diversos usos industriais.

O bambu é uma planta rústica, de rápido crescimento, com rotação curta (2-3 anos). São mais de 1.500 espécies muito pouco conhecidas, e o Brasil, após a China, possui a segunda maior área de cultivo e de número de espécies nativas. No estado do Acre se encontra a maior floresta nativa de bambu do mundo com 4,5 milhões de hectares.

Um outro aspecto do plantio de bambu que tem chamado a atenção, principalmente de investidores internacionais, e a consolidação do mercado do crédito de carbono. Muito do atraso em relação ao avanço produtivo, tecnológico e do conhecimento do potencial de mercado do bambu se deu por conta da falta de organização do setor.

Veja, por exemplo, os grandes investimentos na cadeira produtiva do bambu com valor agregado na China. São 618 milhões de yuans em um complexo parque tecnológico em uma área de 12 hectares com 125 empresas em Hunam, Taojiang.

Em Hunam, Suining no Parque Nanzhu o investimento é de 1 bilhão de yuans em cinco empresas, sendo quatro de alta tecnologia, com a estimativa de 60 mil metros cúbicos de placas de madeira de bambu. Ainda na China, Qingshen, o investimento é de 3,5 bilhões de yuans para a indústria de celulose e papel. 

Estamos apenas no começo

Temos muito o que avançar no cultivo e no reconhecimento da economia do bambu no Brasil, e o ressurgimento dos grandes plantios em larga escala é um começo para transformar o Brasil em um grande produtor e exportador de produtores de bambu.

A busca por informações sobre como ganhar dinheiro com bambu está aumentando significativamente, e ela garante que investir no bambu é certeza de bons ganhos, mas é necessário se capacitar e ter bons projetos, além de contar com políticas públicas estruturantes e orientadas, considerando as características regionais e o uso na indústria.

O Brasil é um país continental. Não podemos induzir o crescimento do plantio e processamento do bambu sem um estudo regional vocacional aprofundado. Cada estado possui seu bioma, suas espécies nativas, seu mercado consumidor, seu setor produtivo e industrial consolidado, sua infraestrutura logística existente, sua mão de obra capacitada, suas áreas de plantio ainda não aproveitadas comercialmente, entre outros pontos que precisam ser considerados.

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Katiane Gouvêa é consultora especialista em economia verde e bioeconomia com MBA em Comércio Exterior e Negócios Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas.

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