10 anos de jornada: mulher diz que teve revelação divina e saiu em peregrinação pelo país

De Rio Branco, no Acre, Neide foi para São Paulo e, há 2 meses, está em frente ao Terminal Rodoviário de Cuiabá

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre

Hoje moradora de rua, Neide da Silva Oliveira teve uma revelação enquanto lia a Bíblia e assim começou sua jornada de 10 anos em peregrinação pelo Brasil.

Ela tinha casa e morava com a filha de 10 anos na cidade de Rio Branco, Capital do Acre, quando colocou algumas coisas em uma mala e foi embora. Levou dinheiro apenas para uma passagem. A menina ficou com uma tia.

“Deus sabe das coisas e ele me disse que eu deveria sair de casa em três dias e, caso não atendesse, algo ruim iria acontecer comigo e com minha família”.

De lá, ela foi para São Paulo e depois para Cuiabá, onde está há dois meses.

No período matutino, fica sentada embaixo de uma árvore na Avenida Marechal Deodoro, em frente ao Terminal Rodoviário de Cuiabá.

Quando anoitece, achou um lugar para se ajeitar perto de um hotel, também nas redondezas.

Neide chama a atenção porque diverge em visual e comportamento dos demais moradores de rua. Ela está sempre com as roupas limpas, bem asseada e as unhas arrumadas.

“Vou ao abrigo para lavar minhas roupas constantemente e depois que está tudo limpinho, volto para o meu lugar”.

Nada me faltou

Desde que saiu de casa, Neide nunca passou fome e nem foi vítima de violência física. Ela acredita que Deus sempre sabe a hora certa de as coisas acontecerem e, por isso, sempre aparecem pessoas com doações e ajuda.

Neide da Silva Oliveira diz que não sabe quando saiu de casa, mas sente que logo irá retornar (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“Às vezes aparece a ajuda e outras um trabalho. Já atuei com reciclagem e alguns serviços domésticos. Sempre chega na hora certa”.

O que sobrou da mala que ela tinha quando saiu de casa, hoje cabe em um saco. São duas trocas de roupa, um edredom e algumas mantas usadas para forrar o chão de onde ela senta.

“A única coisa que quero é uma passagem para voltar para São Paulo. Vou tentar achar minha filha, que está morando lá. É a direção em que estou sendo chamada”.

História de encontros e desencontros

Neide é filha de José Fabrício Neto e Maria Bonifácia da Silva, conforme consta na Carteira de Trabalho dela, que junto com o Cadastro de Pessoa Física (CPF) são os únicos documentos pessoais que restaram.

Neide tem apenas a Carteira de Trabalho e o CPF. O resto dos documentos foram perdidos (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Ela relata que morava em Feijó, no Ceará, com os pais e que, quando eles se separaram, tinha 7 anos. O pai, então, a levou para morar em Rio Branco, no Acre.

Lá, ficou por anos sem ver a mãe. Até que completou 13 anos e teve a oportunidade de reencontrá-la.

Depois disso, conseguiu vê-la mais uma vez, aos 23 anos.

“Eu acho que moro na rua em busca da minha mãe. Eu quero achá-la novamente”.

Aprendizado

Neide não sabe ao certo quando saiu de casa, mas tem a certeza que logo chegará a hora de retornar para Rio Branco.

Ela assegura que desde que iniciou sua jornada apenas aprendeu.

Conta que era uma pessoa muito estressada e vivia nervosa. A peregrinação a tornou mais paciente.

“É muito difícil ser doméstica em casa de família. As pessoas reclamam, a patroa é enjoada e já cheguei a apanhar de patrão. Isso me deixava em pânico”.

Segundo Neide, agora ela gosta apenas de ver as pessoas passarem, observar e ficar quieta.

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

O LIVRE ADS