Por onde anda o Pedro Taques que conheci?

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Faz tempo que ando à procura do Pedro Taques que conheci na noite de 9 de novembro de 2015, quando comandei o Roda Viva protagonizado pelo governador de Mato Grosso. Ao longo de 90 minutos, sempre tratando com gentileza e elegância o idioma massacrado por 999 entre mil palanqueiros nativos, o convidado do programa reanimou milhões de espectadores com a descoberta de que a honestidade, a competência, a franqueza ou a honradez não eram qualidades inteiramente extintas no mundo político.

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Taques se perdeu em algum ponto do caminho que começou em 2015

O entrevistado pareceu-me uma coerente continuação do procurador da República que enfrentou por 15 anos a fio a corrupção cinco estrelas, e um desdobramento do senador a quem bastaram quatro anos para mostrar que é possível ser decente num Congresso em avançado estado de decomposição moral. Nada demais para o procurador que, em dezembro de 2002, liderou a seminal Arca de Noé.

Ao mobilizar 160 policiais federais, 30 policiais rodoviários, três procuradores da República, vinte promotores de justiça e seis fiscais federais, a Arca de Noé inaugurou a sequência de megaoperações contra meliantes da classe executiva, que se julgavam condenados à perpétua impunidade. Alvo principal, o império criminoso de João Arcanjo Ribeiro, o mítico “Comendador Arcanjo”, ficou em ruínas. E o bandido que atropelava o Código Penal com a insolência brutal de mafioso de filme americano foi rebaixado a preso comum.

Arcanjo viu pelo televisor da cadeia o Roda Viva em que Taques, depois de afirmar que a impunidade é a mãe da corrupção endêmica, reivindicou a correção de falhas no sistema judicial que permitem a chicaneiros que cobram honorários em dólares por minuto manter em liberdade clientes cujo prontuário implora por castigo. “Alguns processos que ajuizei há dez, quinze anos até hoje não foram julgados”, exemplificou o entrevistado.

Por essas frestas escapou da merecidíssima punição, por exemplo, o senador Jáder Barbalho, ex-governador do Pará, cacique do MDB regional e dono de uma capivara capaz de matar de inveja titulares da seleção do PCC. Preso graças às investigações conduzidas por Taques, Barbalho logo recuperou o direito de ir e vir. Usou-o para voltar ao Senado e juntar-se aos vilões com os quais o xerife eleito senador por Mato Grosso teve de conviver por quatro anos.

Ao lado de meia dúzia de oposicionistas sem medo, Taques enfrentou com exemplar altivez a bancada amplamente majoritária formada por parlamentares do PT governista e parceiros da base alugada. A luta desigual travada pelo defensor da ilha isolada no oceano de bandalheiras transformou-o em candidato natural ao Palácio Paiaguás.

Ao sentar-se no centro do Roda Viva, era governador havia 9 meses. A enxurrada de números, projetos, análises, argumentos e planos escancarou a intimidade com questões ligadas à administração do Estado. A frequência e o desembaraço das incursões por assuntos nacionais informaram que o chefe do Executivo mato-grossense, que se filiara dias antes ao PSDB, não pretendia descer do palco federal.

Já no início do programa, um dos entrevistadores quis saber por que optara pelo PSDB. A resposta se limitou à evocação de dois episódios: “Estou no PSDB porque votaria a favor da Constituição de 88. O PT votou contra. Votaria na Lei de Responsabilidade Fiscal. O PT votou contra”. Mas o ex-integrante do PDT demonstrou em seguida que não é de confundir ninho com muro.

“Dizer que o impeachment é golpe é não conhecer a Constituição da República”, disse o recém-chegado a um partido que continuava hesitante quanto ao que deveria ser feito com Dilma Rousseff. “O PSDB tem que ser mais incisivo em relação ao momento histórico que nós vivemos”, prosseguiu. “Não é possível que nada ocorra diante dos equívocos e ilícitos já comprovados”.

Instado a comentar as primeiras descobertas vinculadas ao esquema do Petrolão, reiterou que os escândalos que investigou como procurador pareciam coisa para um juizado de pequenas causas se confrontados com a colossal roubalheira que a Lava Jato apenas começava a eviscerar. E garantiu que as espertezas que deformam o sistema federativo e inviabilizam a independência financeira e administrativa dos Estados não o fariam curvar-se ao peso da União.

“Sou um governador de oposição”, lembrou. “Governo para todos, mas fui eleito por quem se opõe ao governo federal”. Foi esse o Pedro Taques que desconcertou Dilma Rousseff em março de 2016, no meio da reunião no Palácio do Planalto convocada para que a presidente examinasse com os governadores o alongamento das dívidas dos Estados.

Inconformada com a condução coercitiva de Lula para um depoimento na Polícia Federal, consumado no dia do encontro, a anfitriã subverteu a pauta. Vociferando contra “mais um abuso de autoridade”, declarou-se indignada com o “tratamento desrespeitoso” dispensado ao chefão pelo juiz Sérgio Moro. Encerrado o palavrório, o silêncio cúmplice da plateia foi quebrado pela voz de Pedro Taques:

“Eu não sairia desta sala com a consciência tranquila, e não respeitaria o bom povo de Mato Grosso que me mandou aqui, se não expressasse minha opinião. Entendo que não houve abuso nem perseguição, presidente. Ninguém está acima da lei. Todos, inclusive eu, podemos ser investigados. A lei não pode servir para beneficiar amigos ou para prejudicar inimigos”.

Foi a última vez que vi em ação o Pedro Taques que anda sumido. Depois daquele Roda Viva, assaltou-me a suspeita de que em 2018 ele seria um dos protagonistas da eleição presidencial. A suspeita virou certeza com o avanços da Operação Lava Jato, versão agigantada da Arca de Noé. Mais uma previsão equivocada, constatei ao saber que Taques se conformaria com a busca de um segundo mandato.

Vislumbrei o Pedro Taques de 2015 em abril passado, quando qualificou de “verdadeira palhaçada” a reação de Lula à ordem de Sérgio Moro para entregar-se à Polícia Federal. “Ninguém está acima da Constituição”, ensinou. “O que foi feito em São Bernardo não aconteceria em um país sério”. Já é alguma coisa. Mas o homem que conheci em novembro de 2015 teria ido bem mais longe.

No começo de junho, retemperado por duas semanas de férias, voltarei a este espaço para recomeçar a procura. Não vou sossegar até encontrar a resposta para a pergunta que me intriga há muitos meses: por onde anda aquele Pedro Taques que conheci?

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