Pesquisadores do IBGE enfrentam sol e chuva para divulgar retrato do Brasil

Considerados por muitos, uma lenda, eles trabalham mensalmente colhendo dados em domicílios mato-grossenses

Leidiane Vieira Costa já enfrentou até assalto! (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

De um lado o governo precisa de pesquisas estatísticas para tomar decisões e elaborar políticas públicas. Do outro, tendo conhecimento dos resultados, cidadãos podem não só acompanhar o desenvolvimento do Brasil, como reivindicar melhorias.

E entre eles estão os entrevistadores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que percorrem lares brasileiros, na zona urbana ou rural, para reunir dados sobre a população e assim, contar a todos como está o Brasil.

De acordo com o supervisor da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios em Mato Grosso (PNAD), Edmaions Carvalho, por enquanto, o IBGE tem aplicado questionários para saber a situação financeira das famílias e principalmente, sobre o número de ocupados e desocupados.

No IBGE, Edmaions supervisiona a PNAD, que mede índices de trabalho e renda dos mato-grossenses (Ednilson Aguiar)

Pesquisas revelam o retrato do Brasil

No caso, registrar mensalmente qual o índice de pessoas que estão desempregadas. O último resultado divulgado, o primeiro do ano, revelou que os empregos com carteira assinada caíram e a informalidade, que é quando a pessoa trabalha sem registro e por conta própria, aumentou em Mato Grosso, acompanhando o cenário nacional.

Em fevereiro finalizaram também, pesquisa solicitada pelo Ministério da Saúde que resultou em um levantamento sobre doenças crônicas e estilo de vida dos brasileiros. Os resultados serão divulgados em 2021.

Segundo ele, no caso das pesquisas por amostras, são escolhidos alguns domicílios de setores diferentes da cidade que “espelham” a realidade dos demais. “Mas no caso do censo demográfico, que começa em agosto, vamos passar por todas as casas, mais ou menos 73 milhões de domicílios em todo o Brasil”.

Serão 3 mil recenseadores em Mato Grosso, 580 em Cuiabá e ao todo, 230 mil circulando pelo país. Em março o IBGE divulgará novo edital para contratação dos recenseadores.

Por enquanto, com a PNAD, os entrevistadores de rua têm visitado em média, 14 domicílios por semana, alcançando em média dez setores para espelhar os 990. Em Mato Grosso, a média de entrevistas é de 1800 por mês.

Um dia na vida do entrevistador do IBGE

O LIVRE acompanhou Edmaions e Leidiane Vieira da Costa em um dia de trabalho. Eles retornavam a um dos domicílios – vale ressaltar, inscritos no Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos -, mas no endereço, não havia morador no momento.

“Como a pesquisa deve ser realizada em domicílio não vamos atrás do morador. Se depois da quinta visita não formos atendidos por ninguém caso o imóvel continue vazio, então só depois o domicílio será substituído por outro. Também não realizamos este tipo de pesquisa em estabelecimentos comerciais, apenas em apartamentos e casas utilizadas como moradia”, explica Edmaions.

Informações sigilosas

A escolha dos domicílios é feita anteriormente por um outro pesquisador que de casa em casa, pergunta apenas se há um orador ou não. E a pessoa é obrigada por lei, para fins estatísticos, a atender o IBGE.

“Explicamos que essas informações são sigilosas e que não serão repassadas a outro órgão, nem para a imprensa. Neste caso, passamos apenas o resultado”. Todo mês o IBGE divulga em nível Brasil resultados da Pnad e a cada trimestre, os resultados para Cuiabá e região metropolitana.

Cada residência é visitada cinco vezes, durante um ano, para acompanhar a evolução da família. Até mesmo a percepção que a pessoa tem sobre a cor de sua pele vira dado.

Sol, chuva e… assalto!

Ela exibe o boletim de ocorrência do susto que levou nesta semana enquanto trabalhava no CPA (Ednilson Aguiar/O Livre)

Ao ter conhecimento das pesquisas muita gente se pergunta se esses entrevistadores existem mesmo. Para alguns, é figura lendária. Mas como foi explicado antes, dependendo da pesquisa, eles vão em locais pontuais para espelhar a realidade, enquanto que no caso do censo, certamente você vai receber a visita de um profissional do IBGE.

A entrevistadora Leidiane Vieira Costa, que desde agosto é contratada tem circulado pela cidade. E o trabalho é levado tão a sério que se ela não encontrar a pessoa do domicílio escolhido pelo software do IBGE é bem possível que ela tenha que voltar no fim de semana, de noite ou feriado.

Esses dados são como uma joia e devem ser realizados em um prazo estipulado. “E é por isso que nos desdobramos para conseguir realizar as entrevistas em tempo hábil. Há alguns contratempos, mas a gente faz o possível para cumprir com nosso ofício”.

Leidiane passou por apuros na quinta-feira (20). Quando ia até uma residência no CPA 3, foi abordada por um homem armado que lhe roubou o celular e a aliança de casamento. Ela não estava preocupada em como explicaria em casa, mas sim, com o DMC, o aparelho que registra os dados das suas entrevistas.

A aliança de casamento foi embora, mas ela conseguiu negociar o DMC, que guarda entrevistas (Foto: Ednilson Aguiar)

Medo de perder os dados

“Eu disse a ele que era um aparelho do Governo Federal e que certamente seria rastreado. Ele olhou, viu o número de registro e achou por bem deixa-lo. Eu estava bastante preocupada porque teria que voltar a todos os lares para realizar novas entrevistas”, conta.

A jovem que até então trabalhava em uma empresa de telemarketing mal via o dia passar. “Hoje é ao ar livre, vendo sol, chuva… Mas tem o lado bom. Conheço a realidade que vai muito além do que eu imaginava. Tenho tido sorte de ser muito bem tratada. Ganho cafezinho e até já fui convidada para almoçar”, sorri.

Ela também tem se surpreendido com os dados. “Mesmo em bairros nobres a pessoas que passam necessidade, vivendo com apenas um salário mínimo. Coisas que a gente não imagina”.

A única resistência que enfrenta, normalmente é por conta da “rotina corrida” de algumas pessoas. Em outra casa, lá estava ela pela terceira vez. Enfim, foi atendida.

O entrevistador do IBGE é identificado por boné, colete, uniforme, crachá e bolsa. Edmaions conta que muita gente se assusta quando os vê chegar: “Gente que nunca ouviu falar do IBGE e de repente, nos vê à sua porta batendo palmas e leva aquela choque: ‘o que o Governo está querendo comigo?'”.

Dia a dia levam consigo folhetos explicativos e usam uniformes e crachás com identificação (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Está em dúvida? Pergunte à polícia!

Vale ressaltar, as informações não são para o entrevistador, mas para retratar o Brasil. Quando é o caso da pessoa estar relutante e temendo por sua segurança, Edmaions orienta a ligar na Central de Informações Operacionais da Segurança Pública (Ciosp), via 190 para pedir informações se a pessoa que está lá é de fato, um funcionário do IBGE.

Ele mesmo já vivenciou várias situações inusitadas. “Em zonas rurais de Mato Grosso já enfrentei atoleiro, caminho fechado por ponte quebrada… já tive que ir atrás do entrevistado em festa… O importante é cumprir a missão e voltar com os dados à base”.

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